BOX DE FACTOS

  • O regresso de jovens ao interior pode ser digno e legítimo — o problema começa quando isso é apresentado como horizonte estratégico nacional.
  • Transformar turismo em destino civilizacional é um sinal de resignação, não de ambição.
  • O interior português tem potencial para muito mais: tecnologia, energia, investigação, agro-indústria inteligente e produção de alto valor.
  • A estetização mediática do turismo rural mascara a ausência de política económica séria para o interior.
  • Um país que vende raízes como produto arrisca-se a perder a própria alma.

Não é regeneração — é resignação enfeitada

Há qualquer coisa de profundamente triste — e até ofensiva — no modo como certos meios de comunicação, incluindo a televisão pública, apresentam como grande epopeia nacional o facto de alguns jovens regressarem às origens para se dedicarem ao turismo.

Não porque regressar à terra seja indigno. Não é. Pelo contrário: pode ser gesto de coragem, affecto e pertença. Mas porque transformar isso em ideal colectivo, em farol estratégico, em suposto cume do desenvolvimento português, é de uma pobreza mental atroz.

Eu nasci no interior. Conheço a paisagem não como postal, mas como corpo vivo. Conheço o silêncio das serras, o desenho dos vales, a dureza do Inverno, a luz larga do Verão, a resistência antiga das pedras, o abandono das casas, a dignidade dos velhos, a fuga dos novos. Sei o que aquele mundo pode oferecer. E por isso mesmo sei também o que lhe fizeram.

O interior português não precisa de ser reduzido a cenário para fins-de-semana delicodoces de urbanos cansados. Não precisa de ser embalado como experiência pitoresca, com casas recuperadas para turismo de charme, compotas artesanais, trilhos "autênticos" e almoços regionais para visitante de pulseira emocional. Isso é pouco. Isso é curto. Isso é, no fundo, um rebaixamento daquilo que o interior poderia ser.

O interior como território de futuro — não como cenário

O interior poderia ser espaço de inovação agro-tecnológica, de produção energética descentralizada, de investigação aplicada, de indústria leve especializada, de tecnologia ambiental, de redes de conhecimento, de laboratórios vivos ligados à terra, à água, à floresta, à biodiversidade, à engenharia rural, ao digital distribuído. Poderia ser lugar de futuro. Mas em vez disso, o regime mediático e político prefere mostrá-lo como refúgio romântico para pequenos negócios de sobrevivência com boa fotogenia.

E assim se fabrica a mentira nacional.

Mostram-nos um jovem casal que voltou à aldeia para abrir um alojamento local, recuperar uma casa de pedra e servir pequenos-almoços com pão caseiro e mel da região. Tudo muito bonito, muito comovente, muito televisivo. E o país suspira, enternecido, como se tivesse assistido ao renascimento de uma civilização. Mas não: assistiu apenas à estetização da falta de ambição.

Porque um país que, em pleno século XXI, se emociona institucionalmente com o regresso de jovens ao turismo como se isso fosse o suprassumo da realização económica, é um país que já aceitou ser pequeno. Já aceitou não liderar nada. Já aceitou não criar massa crítica, nem ciência, nem tecnologia, nem indústria de alto valor. Já aceitou viver de servir, alojar, entreter e sorrir.

Turismo como complemento, nunca como destino histórico

Turismo pode ser útil. Pode gerar rendimento. Pode ajudar regiões. Mas nunca deveria ocupar o altar central de uma estratégia nacional. Um país que faz do turismo o seu destino histórico começa lentamente a vender-se aos pedaços: primeiro a paisagem, depois a memória, depois a cultura, depois a alma. No fim sobra um território bonito, limpo, simpático — e economicamente subalterno.

O que mais dói é isto ser apresentado aos jovens como horizonte desejável. Como se o sonho português devesse consistir em voltar à aldeia para gerir reservas online, arranjar quartos, promover experiências sensoriais e servir autenticidade em doses gourmet. Como se o máximo a que uma geração pudesse aspirar fosse transformar raízes em produto.

É aqui que entra a mediocridade estrutural. Não a mediocridade dos jovens, mas a do sistema que lhes oferece tão pouco e ainda exige gratidão. Um sistema que falhou em criar um tecido económico exigente, moderno e criador de riqueza real; e que, depois de falhar, pega na adaptação forçada de alguns e vende-a como modelo inspirador. É quase obsceno.

Portugal habituou-se a confundir sobrevivência com visão. Remendo com estratégia. Folclore com futuro.

A promessa traída

E no entanto, o interior merece muito mais. Merece fibra óptica e laboratórios. Merece empresas tecnológicas descentralizadas. Merece engenharia de precisão, cadeias curtas de produção inteligente, escolas técnicas de excelência, centros de experimentação, redes logísticas modernas, habitação acessível, serviços públicos robustos, mobilidade digna. Merece ser vivido como território de criação — não apenas de contemplação.

A paisagem do interior não é um pano de fundo. É uma promessa traída.

Quem lá nasceu sabe que aquelas terras não pedem caridade estética. Pedem inteligência política. Pedem investimento sério. Pedem coragem de romper com décadas de abandono e de provincianismo administrado. Pedem que deixemos de olhar para o interior como museu, retiro ou parque temático da portugalidade.

Um povo verdadeiramente ambicioso olharia para aquelas planícies, montanhas e aldeias e perguntaria: "Que futuro de alto valor podemos erguer aqui?"

Um povo domesticado pergunta apenas: "Como podemos transformar isto em experiência turística vendável?"

E é esta diferença que separa os países vivos dos países decorativos.

Portugal, demasiadas vezes, prefere decorar-se.

Epílogo

Quando a televisão pública celebra o turismo de regresso como se fosse a glória suprema da juventude, não está a mostrar um país com futuro — está a filmar, com música suave, a capitulação de uma nação inteira.

Francisco Gonçalves
Para Fragmentos do Caos — com a convicção amarga de quem conhece a terra por dentro e recusa vê-la reduzida a postal rentável.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
Portugal não caiu na pequenez por acaso: fez dela vocação, decoração e programa de sobrevivência.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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