Portugal: O Álibi dos Mercados

BOX DE FACTOS
- Durante anos, os "mercados" foram apresentados como força abstracta e inevitável, usada para legitimar cortes, injustiças e sacrifícios sociais.
- O discurso político transformou a economia numa espécie de fatalidade, absolvendo os responsáveis concretos das suas escolhas.
- Os mais frágeis pagam a factura: idosos, crianças, famílias empobrecidas e cidadãos sem voz.
- A invocação permanente dos "mercados" serviu, e serve demasiadas vezes para ocultar incompetência, cobardia e subserviência política.
- Quando uma sociedade aceita o álibi em vez da verdade, começa a perder não só riqueza, mas também dignidade moral.
O Álibi dos "Mercados"
Houve um tempo a partit do qual quase tudo se explica com uma palavra mágica: "mercados". E assim, pela porta da abstracção, entraram a fome, o abandono, a mentira e a absolvição dos verdadeiros culpados.
Vivemos tempos em que a esperteza parece dominar tudo e todos. Não a inteligência criadora, não a lucidez, não a coragem moral de enfrentar os problemas pela raiz, mas essa esperteza rasteira, cínica e oportunista que sabe sempre encontrar um biombo para esconder a responsabilidade dos poderosos e empurrar o custo da decadência para cima dos mais frágeis.
Durante demasiado tempo, esse biombo continua um nome quase sagrado: os "mercados". Basta pronunciar a palavra com ar grave, técnica cerrada e sobrancelha apertada, para que toda a sorte de injustiças pareça de súbito inevitável, racional e até moralmente aceitável. Como se os mercados fossem uma entidade metafísica, uma espécie de divindade moderna perante a qual os governos não governam, os povos não pensam e as consciências se calam.
Vale tudo em nome dessa abstracção conveniente. Em nome dos ditos "mercados", explica-se o abandono dos velhinhos, a redução das suas reformas, a fome das crianças e o futuro roubado às famílias que já não têm dinheiro nem para comer, quanto mais para estudar, crescer ou sonhar. Em nome dessa palavra-talismã, justificam-se humilhações sociais em série, como se a miséria fosse uma necessidade técnica e a degradação humana um efeito colateral aceitável da boa gestão.
A palavra que absolve tudo
Foi assim que se instalou uma das maiores fraudes intelectuais do nosso tempo: a ideia de que decisões políticas concretas deixaram de ter autores para passarem a ser impostas por forças invisíveis e inevitáveis. Sempre que um direito é cortado, uma reforma emagrecida, um serviço público degradado ou uma injustiça social agravada, surge logo a explicação automática: "os mercados exigem", "os mercados pressionam", "os mercados não permitem".
E nessa operação semântica brilhantemente cobarde, os governantes deixam de ser responsáveis, os partidos deixavam de responder, os gestores públicos deixavam de prestar contas e as elites económicas podem continuar a sugar o país com a compostura de quem apenas obedece a uma necessidade exterior.
Tudo, mas mesmo tudo, parece passar a ser culpa dos "mercados". O saque ao património colectivo da nação. As privatizações lesivas. O desmantelamento de mecanismos de protecção social. A mentira insustentável e abominável na boca dos "pulhíticos". As injustiças abjectas de uma justiça que tantas vezes se revela feroz com os pequenos e embaraçosamente complacente com os grandes. Tudo encontra ali o seu álibi perfeito.
A religião do inevitável
O mais perturbador não é apenas o conteúdo do discurso, mas a forma como ele se tornou doutrina. Os "mercados" passaram a funcionar como uma nova religião secular. Têm dogmas, sacerdotes, intérpretes televisivos, especialistas prontos a traduzir a vontade do oráculo económico para o povo atónito, e têm sobretudo uma função essencial: ensinar a resignação.
Perante essa liturgia da inevitabilidade, a cidadania foi sendo amputada. Se tudo está decidido por instâncias abstractas, então protestar é infantil, pensar alternativas é ingénuo, defender justiça social é romantismo, e exigir responsabilidades é sinal de ignorância económica. O resultado de tudo isto foi devastador: uma sociedade inteira empurrada para uma forma de servidão psicológica, onde a injustiça já não escandaliza, apenas se administra.
O absurdo assentou arraiais. E as trevas, lentamente, dissipam grande parte da inteligência nacional. Não porque as pessoas se tenham tornado subitamente incapazes, mas porque o espaço público foi colonizado por uma linguagem de submissão, por um vocabulário fabricado para paralisar o pensamento e para tornar respeitável o que, noutro contexto, seria imediatamente reconhecido como indecente.
Os inocentes e os cúmplices
Vivemos também o tempo do silêncio dos inocentes. O tempo em que muitos sofrem, compreendem até parte da tragédia, mas já não acreditam na utilidade da palavra, do protesto ou da resistência. É talvez esse o triunfo mais refinado do sistema: não apenas explorar, mas convencer os explorados de que não há linguagem possível contra a engrenagem.
E depois há os outros. Os que de inocentes pouco ou nada têm. Os que continuam a ser apresentados como "forças vivas da nação", ou até como "reserva moral da nação", apesar de viverem instalados numa irrelevância pomposa, num moralismo de vitrina e numa cumplicidade quase sempre discreta com a ordem vigente. Falam muito de responsabilidade, mas raramente a assumem. Invocam o interesse nacional, mas protegem antes de tudo os seus lugares, os seus privilégios, os seus circuitos de influência e a sua tranquilidade de classe.
São essas figuras graves, ornamentadas de respeitabilidade, que tantas vezes ajudam a manter de pé a ficção colectiva. Não precisam de roubar directamente para serem parte do problema; basta-lhes legitimar o roubo com o silêncio, com a prudência servil ou com a retórica das inevitabilidades. A história está cheia destes cúmplices limpos, que nunca sujam as mãos porque preferem sujar a linguagem.
Quando a mentira se torna sistema
O mais trágico é que, ao fim de algum tempo, a mentira deixa de se apresentar como mentira. Torna-se ambiente. Torna-se normalidade. Torna-se a moldura dentro da qual se pensa o possível. E um país que habitua a sua população a viver dentro dessa moldura acaba por perder algo mais profundo do que rendimento, crescimento ou estabilidade: perde a capacidade moral de distinguir entre necessidade e abuso, entre responsabilidade e álibi, entre governo e submissão.
Nesse ponto, a crise já não é apenas económica. É civilizacional. Porque quando uma nação começa a aceitar que os seus idosos podem ser descartados, que as suas crianças podem passar fome, que a política pode mentir sem rubor e que a justiça pode falhar sem escândalo, o problema deixou de ser conjuntural. O problema passou a ser a erosão do próprio sentido de comunidade.
Convém, por isso, dizer com toda a clareza o que durante anos se tentou esconder: os mercados não são uma fatalidade moral; são apenas mecanismos económicos moldados por decisões humanas, leis humanas, interesses humanos e cobardias humanas. Quem invoca os "mercados" como desculpa absoluta está quase sempre a tentar ocultar uma escolha, um alinhamento, uma capitulação ou uma traição.
Contra o álibi, a lucidez
Um povo só recupera a dignidade quando começa a desmontar os nomes falsos com que o dominam. Foi isso que aconteceu aqui: uma palavra abstracta foi usada para anestesiar a revolta e para transformar o saque em necessidade técnica. Mas não há linguagem técnica que limpe a indecência quando ela é indecência. Não há discurso de rigor que torne aceitável a fome dos pequenos e a imunidade dos grandes. Não há mercado que absolva a cobardia de quem governa de joelhos.
Talvez tenha sido esse o grande sucesso das elites deste tempo: conseguir que demasiadas pessoas confundissem servidão com realismo e resignação com maturidade. Mas a história, quando acorda, costuma ser cruel com os que viveram a justificar o injustificável.
É por isso que importa voltar ao essencial. Quando tudo é explicado por forças abstractas, é preciso repor os nomes concretos. Quando tudo é apresentado como inevitável, é preciso reabrir o campo das escolhas. E quando um país se habitua a ouvir que não há alternativa, é precisamente nesse momento que pensar alternativas se torna um dever cívico.
Porque no fundo nunca foram os mercados que governaram verdadeiramente. Foram homens sem coragem, elites sem visão e consciências sem espinha, escondidas atrás dessa palavra, como crianças assustadas atrás de uma cortina.
E um país não se perde apenas quando é roubado. Perde-se sobretudo quando lhe ensinam a chamar inevitável ao roubo. Há palavras que devia ser memória viva do saque e ..."Ai aguentam, aguentam!.." é um dessas, que mostram o descaramento assombroso das elites.
Autoria de : Francisco Gonçalves — Um Artigo publicado 25 de Outubro de 2010.
Quando um regime precisa de culpar "os mercados" por tudo, já não está a governar o país — está apenas a administrar a sua própria cobardia.