Portugal : As redes sociais e a tropa de choque verbal do regime

BOX DE FACTOS
- O debate público degradou-se profundamente em muitas democracias europeias, com aumento de insultos, assédio, intimidação e campanhas de difamação online e offline.
- Nem sempre é necessário provar uma folha de pagamento para identificar um ecossistema de aparelho, fidelidade tribal e milícia verbal ao serviço do poder.
- PS e PSD prosperaram durante décadas num ambiente político onde a crítica é muitas vezes recebida não com argumento, mas com reflexo agressivo e desqualificação moral.
- O problema não é apenas partidário: é civilizacional. O insulto tornou-se, para demasiados actores, substituto do pensamento.
- Quando o espaço público passa a recompensar a tropa de choque verbal, a democracia mantém a fachada mas começa a apodrecer por dentro.
- O grau zero do regime revela-se quando os partidos do poder já não persuadem: apenas se fazem rodear por quem ataca em vez de responder.
A tropa de choque verbal do regime
Há muito que o espaço público português deixou de ser um lugar habitado sobretudo por argumento, confronto racional e disputa séria de ideias. Em demasiadas ocasiões, tornou-se um terreno onde a crítica ao poder encontra como resposta não uma linha de pensamento, mas uma descarga de agressividade, insulto, cinismo pavloviano e desqualificação moral. Quem critica a governação corrente, quem expõe contradições, quem desmonta narrativas ou simplesmente se recusa a ajoelhar perante os partidos do costume, descobre rapidamente que há sempre uma fauna pronta a cumprir o papel que antes cabia a velhos caciques: atacar, ridicularizar, acossar, trivializar, desviar, cansar.
Não é intelectualmente sério afirmar como facto, sem prova pública concreta, que PS e PSD pagam directamente a energúmenos para insultar quem os critica. Essa é uma acusação que exigiria demonstração clara. Mas seria igualmente ingénuo fingir que não existe um ecossistema político-cultural onde o insulto reflexo, a defesa tribal e a ferocidade de aparelho funcionam como extensão informal dos partidos do poder. Nem tudo precisa de recibo verde para existir. Há fidelidades, proximidades, expectativas de recompensa, protecções implícitas, carreiras orbitais, pequenos lugares ao sol e, acima de tudo, uma cultura enraizada em que o crítico é tratado como inimigo e o militante agressivo como instrumento útil.
Quando o argumento morre, entra a matilha
O sinal mais claro de decadência de um sistema político não é apenas a corrupção, a incompetência ou a repetição do fracasso. É o momento em que a resposta à crítica deixa de ser produzida por inteligência e passa a ser terceirizada para a agressividade. Um poder seguro de si responde com factos, visão, resultados, coerência. Um poder cansado, gasto e desprovido de nervo criativo prefere cercar-se de comentadores de serviço, fanáticos partidários, fiéis de capela, apparatchiks digitais e cães de guarda emocionais que invadem caixas de comentários, redes sociais e conversas públicas para transformar qualquer divergência num lamaçal.
A função dessa tropa de choque verbal não é convencer. É desgastar. Não é elevar o debate. É contaminá-lo. Não é refutar. É tornar a crítica emocionalmente onerosa, socialmente cansativa e humanamente repulsiva. O objectivo profundo não é ganhar pela verdade, mas vencer pela saturação, pela intimidação, pela desmoralização do adversário e pela transformação do espaço público num pântano onde o pensamento sério já não apetece entrar.
É esta a forma mole, mas eficaz, de degradação das democracias exaustas: ninguém precisa de proibir frontalmente a palavra se conseguir afogá-la em ruído, tribalismo e violência verbal. O método é antigo, apenas ganhou banda larga, smartphones e secções de comentários.
PS e PSD: o centro sem grandeza
Durante décadas, PS e PSD apresentaram-se como pilares da normalidade democrática portuguesa. Alternaram no poder, repartiram o aparelho de Estado, ocuparam a máquina institucional, distribuíram influências, colonizaram administrações e transformaram o país num território onde a alternância muitas vezes parecia menos uma escolha entre visões e mais uma rotação de elites aparentadas. Ao mesmo tempo, foram deixando crescer um ambiente em que a crítica séria ao regime era frequentemente recebida com paternalismo, ridicularização ou hostilidade.
O problema não está apenas nos aparelhos formais. Está no que se gerou à volta deles: um ecossistema de mediocridade defensiva, em que muitos se habituaram a viver na proximidade ao poder e a reagir como corpo imunitário irracional sempre que alguém toca no nervo exposto da governação. Não importa se a crítica é fundamentada. Não importa se a realidade a confirma. Importa repelir o intruso, deslegitimar o incômodo, neutralizar o dissidente, transformar o incómodo em figura excessiva, radical, ressentida ou desprezável.
Este é o grau zero dos partidos de poder: quando já não irradiam convicção, apenas instinto de sobrevivência. Quando já não produzem imaginação política, apenas reflexos defensivos. Quando já não geram respeito, apenas redes de fidelidade agressiva. Quando já não persuadem uma sociedade, mas se limitam a administrar o cansaço dela.
A degradação europeia do debate e o caso português
Este fenómeno não é exclusivamente português. O Parlamento Europeu reconheceu em 2025 que o aumento da polarização política levou à proliferação de ataques contra representantes eleitos, candidatos e membros partidários, com insultos verbais, assédio, ameaças, intimidação e campanhas de difamação a ocorrerem regularmente online e offline. A própria formulação usada é eloquente: trata-se de uma degradação séria da qualidade do debate político na União Europeia.
Também a Comissão Europeia, no relatório sobre as eleições europeias de 2024, assinalou riscos agudos de assédio, abuso e campanhas de desinformação online no contexto eleitoral. Não estamos, portanto, perante fantasia conspirativa nem susceptibilidade excessiva: há um problema estrutural nas democracias contemporâneas, onde o digital passou a servir de multiplicador para formas de intimidação e violência política que corroem a própria possibilidade de debate livre.
Em Portugal, porém, este fenómeno ganha uma tonalidade particular, porque se cruza com décadas de conformismo partidário, amiguismo institucional e cultura de regime. A agressividade dos insultadores de serviço não paira no vazio. Alimenta-se de um ambiente onde a exigência é mal vista, a irreverência séria é punida simbolicamente e a crítica sistémica continua a ser encarada, por muitos orbitantes do poder, como acto quase sacrílego.
Nem sempre é preciso pagar: basta legitimar
Há uma tentação ingénua de imaginar que, para haver uma milícia verbal útil ao regime, tem de existir necessariamente uma contabilidade secreta, uma instrução formal ou um contrato de prestação de serviços. Nem sempre. Muitas vezes, basta algo mais subtil e mais português: a atmosfera. Basta um meio onde a agressividade tribal é premiada com visibilidade, proximidade, convites, pequenos favores, reconhecimento simbólico ou simples sensação de pertença ao lado certo da barricada. O insultador não precisa de salário fixo; basta-lhe função social.
E essa função é preciosa para os partidos gastos: permite-lhes manter distância formal do esgoto, ao mesmo tempo que beneficiam dos seus efeitos. O aparelho conserva as mãos aparentemente limpas; a lama fica entregue à infantaria emocional. O resultado é perverso: o poder não refuta nem esclarece, mas também não precisa de o fazer, porque há sempre quem desça voluntariamente à sarjeta para destruir a atmosfera do dissenso.
Esta é uma das formas mais baixas de poder em decomposição: não o poder que impõe grandeza, mas o que sobrevive graças à pequena brutalidade dos seus satélites.
O regime protege-se pela banalização do insulto
O mais grave, porém, não é a grosseria em si. O mais grave é a banalização. Quando o insulto político se torna rotina, quando a intimidação passa a ser considerada folclore digital, quando a agressividade reflexa é tratada como normalidade partidária, a democracia começa a perder não apenas elegância, mas substância. Porque o espaço público deixa de premiar a razão e passa a premiar a resistência à lama. E nem todos os melhores espíritos aceitam viver permanentemente de botas enfiadas no lodo.
É assim que os sistemas se empobrecem. Não apenas porque os piores falam mais alto, mas porque os melhores se cansam de falar. O triunfo da tropa de choque verbal não consiste em converter a nação; consiste em reduzir o número de cidadãos dispostos a suportar a fadiga de intervir. E uma democracia onde os lúcidos se retiram, por exaustão, fica entregue aos profissionais da fidelidade e aos fanáticos da frase curta.
O grau zero do regime
O grau zero do regime não é apenas a incompetência administrativa, a promiscuidade entre política e aparelho ou o esgotamento das narrativas de alternância. É este estádio ainda mais nu: o momento em que os partidos centrais já não conseguem gerar respeito intelectual e passam a depender de um cordão sanitário de agressividade periférica para proteger a sua sobrevivência simbólica.
A partir daí, a democracia continua formalmente de pé, mas o seu interior começa a ganhar a temperatura morna da decadência. Há eleições, há parlamento, há discursos, há comentadores, há indignações coreografadas. Mas o nervo do dissenso genuíno está cercado por bandos de desqualificação instantânea. E isso diz mais sobre a pobreza moral do sistema do que muitos relatórios oficiais.
Não é preciso provar uma conspiração salarial para reconhecer a miséria do ambiente. Basta ouvir o tom. Basta ver a reacção pavloviana à crítica. Basta observar como tantos actores orbitantes do poder se transformam, em segundos, não em defensores de ideias, mas em executores do desprezo.
Quando isso acontece de forma persistente, uma conclusão torna-se difícil de evitar: o regime continua a falar em democracia, mas já se habituou a ser defendido por métodos de indigência moral.
Referências internacionais
• Parlamento Europeu (2025) — relatório sobre violência e intimidação contra políticos na UE, descrevendo insultos, assédio, ameaças, intimidação e campanhas de difamação como fenómeno regular e degradante para o debate democrático. 0
• Comissão Europeia (2025) — relatório sobre as eleições europeias de 2024, assinalando risco agudo de assédio, abuso e campanhas de desinformação online no contexto eleitoral. 1
• Reuters / IPU (2026) — levantamento internacional mostrando que 71% dos inquiridos relataram violência vinda do público, em particular online. 2
• OSCE (2024-2025) — alertas sobre aumento de violência online, assédio e campanhas de intimidação que afectam o espaço democrático e cívico. 3
Frase final
Quando os partidos do regime já não respondem com pensamento e apenas sobrevivem rodeados por insultadores de serviço, não estão a defender a democracia — estão apenas a administrar a sua própria decadência.
— Francisco Gonçalves, com Co-autoria editorial de Augustus Veritas
Quando o poder já não convence e só sabe largar a matilha, não está a governar um país — está apenas a revelar a sua miséria.
Nota Editorial
Há algo de profundamente revelador no modo como actuam certas tribos políticas do regime. Não atacam porque pensem melhor. Não atacam porque tenham maior densidade argumentativa. Atacam porque o pensamento livre lhes causa pânico. Quem vive de fidelidade cega, de pertença tribal e de reflexo pavloviano sente sempre como ameaça quem fala com autonomia, memória e lucidez.
A matilha fareja independência como se fosse provocação. Para quem se habituou a obedecer, a repetir e a defender o aparelho como quem protege um altar, a existência de uma voz livre é quase uma ofensa ontológica. E por isso respondem com aquilo que melhor conhecem: insulto, raiva, caricatura, desqualificação instantânea. Não procuram verdade. Procuram apenas neutralizar o incómodo.
Há, porém, um detalhe decisivo nesta miséria: raramente investem contra o vazio. Investem contra quem incomoda, contra quem desmonta o teatro, contra quem recusa a liturgia do conformismo, contra quem insiste em dizer o que outros preferem esconder. A ferocidade do ataque não é sinal da força deles — é prova do nervo certo tocado.
É verdade que isso desgasta. O lodo cansa. A repetição da baixeza consome energia. Mas é precisamente nesses momentos que importa não descer ao mesmo chão. A diferença entre quem pensa e quem apenas reage está aí: uns tentam compreender e nomear o real; outros limitam-se a ladrar perante aquilo que não conseguem domesticar.
Manter a verticalidade no meio da lama não é fraqueza. É resistência. Não responder com o mesmo grunhido não é recuo. É dignidade. Porque o ruído pode ferir, mas não substitui o pensamento. E a espuma da tribo, por mais estridente que pareça no instante, envelhece sempre pior do que a palavra livre.
Quem é atacado pela tribo do regime não recebe uma derrota — recebe a prova de que não pertence ao rebanho.