BOX DE FACTOS

  • Augusto Santos Silva foi escolhido para coordenar o novo Conselho Estratégico do PS.
  • O órgão foi apresentado em Julho de 2025 como estrutura para pensar o país e aconselhar José Luís Carneiro.
  • O próprio líder socialista disse que o conjunto de personalidades reunidas "dava para formar vários governos".
  • O país continua, porém, com problemas estruturais de produtividade, investimento e convergência em nível de vida.
  • Entregar o "Portugal 2050" a uma elite tão ligada ao passado do regime não soa a renovação: soa a reciclagem do mesmo universo político.

Portugal 2050, Segundo Augusto Santos Silva: A Reciclagem do Passado com PowerPoint Novo

Em Portugal, o futuro aparece demasiadas vezes como uma reunião de antigos protagonistas do presente que falhou, agora com título estratégico, linguagem nova e a mesma velha confiança em si próprios.

Há momentos em que a política portuguesa já não pede apenas crítica. Pede contenção para não cairmos na gargalhada amarga. Ver Augusto Santos Silva, figura central de sucessivos ciclos de poder socialista, surgir agora como coordenador-geral do Conselho Estratégico do PS para pensar o país de 2050 tem qualquer coisa de involuntariamente satírico. O novo órgão foi lançado em Julho de 2025 para aconselhar José Luís Carneiro e reunir-se regularmente, apresentado como instrumento para "pensar o país". 0

O problema é que isto não soa a renovação. Soa a reciclagem. Quando um partido entrega o horizonte de 2050 a uma figura tão identificada com o ecossistema governativo do passado, a mensagem não é abertura ao novo; é confiança dogmática no velho condomínio político que já administrou Portugal durante demasiado tempo. E essa confiança, em vez de transmitir solidez, transmite cansaço histórico. 1

O conselho que "dava para formar vários governos"

José Luís Carneiro disse, sem perceber talvez toda a ironia do que afirmava, que aquele Conselho Estratégico "dava para formar vários governos". A frase era para impressionar. E impressiona, de facto — mas pelo motivo errado. Porque se um órgão criado para pensar o futuro se parece tanto com um catálogo de ex-governantes, ex-ministros, ex-dirigentes e velhas figuras do aparelho, então a primeira suspeita não é a de ousadia. É a de repetição. 2

O que ali transparece é o vício profundo do regime: acreditar que o país só pode ser imaginado por quem já o administrou. Como se a experiência de poder, por si só, fosse sinónimo de inteligência estratégica. Como se o fracasso acumulado em matérias estruturais não recomendasse um mínimo de humildade antes de voltar a ocupar, agora sob forma consultiva, o palco do amanhã.

A ironia fina de um país sem futuro

É aqui que a ironia deixa de ser apenas deliciosa e se torna trágica. Porque Portugal não está propriamente a transbordar de sucesso estratégico que justifique este tipo de autocontinuidade. A OCDE diz no seu Economic Survey of Portugal 2026 que a convergência de longo prazo do nível de vida português estagnou ao longo de duas décadas, puxada por produtividade laboral persistentemente fraca e investimento limitado. Isto é devastador: enquanto o partido fala de 2050 com um coro de notáveis reciclados, o país real continua preso a problemas que o regime não resolveu quando esteve no volante. 3

A Reuters reforçou esse retrato no final de 2025: a produtividade portuguesa permanecia em 80,5% da média da União Europeia, uma das mais baixas do bloco. Portanto, não estamos perante uma elite política que falhou um pormenor. Estamos perante um sistema que, apesar de décadas de poder, não conseguiu dar ao país a densidade produtiva, institucional e estratégica que permitiria falar do futuro sem provocar sorrisos tortos. 4

A velha aristocracia partidária a escrever memorandos para o amanhã

O mais extraordinário é a naturalidade com que isto é apresentado. Como se fosse óbvio que o país de 2050 deva sair do cérebro colectivo das mesmas famílias políticas que ajudaram a formatar o Portugal de 2005, de 2011, de 2015, de 2022. Como se o problema português não fosse precisamente a incapacidade de romper com esse circuito fechado de legitimidade, em que os mesmos nomes regressam sempre em novas funções, novos títulos e novos enquadramentos sem que o essencial mude.

É o velho regime a escrever memorandos para si próprio sobre o futuro. É o sistema a fechar-se ainda mais sobre a sua própria biografia. Em vez de abertura à sociedade viva, em vez de inquietação intelectual nova, em vez de convocar pensamento que venha de fora do aparelho, volta-se a investir no conforto dos conhecidos, dos testados, dos domesticados pela liturgia do poder. Não se trata de idade biológica; trata-se de sociologia política. O problema não é serem veteranos. O problema é serem demasiadas vezes veteranos do mesmo ecossistema mental.

O PS e a impossibilidade de se reinventar

No fundo, isto revela algo mais profundo do que uma simples escolha de nome. Revela a dificuldade quase orgânica de o PS — e, por extensão, boa parte do regime — produzir verdadeira renovação. A máquina sabe mudar a embalagem, o discurso, a estética, o tom e os conselhos consultivos. Mas não sabe, ou não quer, abdicar da confiança no seu velho capital humano de aparelho. A renovação pára onde começa o risco de pôr em causa o próprio universo que governou até aqui.

E assim o partido parece acreditar que pode projectar 2050 sem fazer antes um exame radical ao que falhou no Estado, na justiça, na produtividade, na reforma administrativa, na densidade económica e na abertura democrática. Em vez de ruptura, oferece continuidade inteligente. Em vez de autoacusação histórica, oferece planeamento elegante. Em vez de futuro, oferece uma reprise bem penteada do mesmo elenco. 5

O museu estratégico do socialismo português

Talvez seja isso que torna tudo tão português. A tentação de transformar o arquivo em vanguarda. O hábito de chamar "estratégico" ao que é, no fundo, apenas respeitável. A confiança quase religiosa de que a experiência passada absolve o passado de ter falhado o presente. E o país, que precisava de abrir janelas, vê-se confrontado com a mesma casa, os mesmos corredores e os mesmos administradores do ar viciado.

Portugal não aguenta muito mais este tipo de auto-encenação. Não aguenta a repetição dos mesmos notáveis a comentarem, planearem e enquadrarem um futuro que lhes escapa precisamente porque são demasiado produto do passado. O país real já vive com salários curtos, produtividade fraca, habitação asfixiante e serviços sob pressão. Pedir-lhe agora que acredite num "Portugal 2050" delineado por esta velha aristocracia partidária é quase uma forma refinada de sarcasmo institucional. 6

Epílogo

No fim, o Conselho Estratégico do PS talvez não seja um laboratório de futuro. Talvez seja, isso sim, um belo mausoléu do passado socialista com pretensões de posteridade. Um lugar onde o regime se reúne consigo mesmo, faz pose de profundidade histórica e tenta convencer o país de que o amanhã pode continuar a ser pensado pelos mesmos que ajudaram a hipotecar o ontem.

É uma anedota? Sim. Mas daquelas que acabam mal para quem vive no país real. Porque quando a ironia deixa de ser apenas cómica e passa a organizar a própria vida pública, já não estamos perante folclore político. Estamos perante uma tragédia com powerpoint.

Quando o PS entrega o "Portugal 2050" aos mesmos rostos que ajudaram a falhar o Portugal de 2005, 2011 e 2022, já não está a pensar o futuro — está apenas a embalsamar a sua própria memória de poder.

Referências

RTP — anúncio do novo Conselho Estratégico do PS e nomeação de Augusto Santos Silva como coordenador-geral.
ECO — declarações de José Luís Carneiro sobre o Conselho Estratégico "dar para formar vários governos".
OCDE — Economic Survey of Portugal 2026, com diagnóstico de estagnação na convergência do nível de vida, produtividade fraca e investimento limitado.
Reuters — enquadramento internacional sobre a produtividade portuguesa continuar abaixo da média da União Europeia.

Francisco Gonçalves
Para o Fragmentos do Caos
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas

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