O Crescimento Vegetativo — Quando a Mediocridade Corrige a Linguagem

BOX DE FACTOS
- Uma simples correcção lexical pode revelar toda uma cultura institucional.
- "Crescimento vegetativo" não é linguagem de visão — é sintoma de administração resignada.
- Em muitas estruturas portuguesas, o medo da ambição continua a vestir gravata e a assinar memorandos.
- O léxico burocrático serve muitas vezes para domesticar a realidade antes que ela ouse mudar.
- O eco mental do Estado Novo sobrevive menos nas leis do que nos reflexos da obediência e da pequenez.
O Crescimento Vegetativo
Há frases que não corrigem palavras: denunciam regimes mentais. E às vezes basta um director de banco, armado em jardineiro da mediocridade, para podar a linguagem até o futuro parecer um vaso de couves tristes.
Há episódios na vida profissional que valem mais do que dezenas de auditorias, relatórios estratégicos e seminários sobre liderança. São pequenos clarões de verdade. Um gesto. Uma frase. Uma correcção aparentemente banal. E, de repente, a cortina abre-se e vemos a engrenagem inteira da pobreza mental a funcionar com pontualidade suíça.
Um desses episódios aconteceu-me durante o período em que trabalhei no Banif. Numa reunião com um director do banco, foi-me solicitado um relatório. Redigi-o com o rigor que sempre me guiou, procurando ser claro, objectivo e intelectualmente honesto. A certa altura, escrevi uma formulação simples, natural e absolutamente legítima:
"... e de forma a suportar o crescimento do negócio..."
A frase não tinha ornamento. Não tinha lirismo. Não tinha excesso. Era apenas a tradução exacta de uma ideia elementar: uma instituição existe para crescer, consolidar-se, expandir-se, servir melhor, criar valor, ganhar músculo, responder ao futuro. Um banco que não pensa o crescimento é apenas um arquivo com balcões.
Mas o senhor director, homem certamente grave, prudente e possivelmente convencido da profundidade do seu próprio zelo, interrompeu a marcha da frase. Não queria "crescimento do negócio". Achava a expressão ousada demais, talvez demasiado viva, demasiado aberta ao mundo. O que ele desejava era outra coisa. Queria que se escrevesse:
"... e para suportar o crescimento vegetativo do negócio..."
Foi então que senti aquele frio peculiar que não vem da temperatura da sala, mas da súbita revelação de uma atmosfera mental. Não estava diante de uma mera emenda estilística. Estava perante uma filosofia inteira de administração, uma ontologia da pequenez, um tratado comprimido de conformismo nacional.
A botânica da resignação
"Crescimento vegetativo." A expressão era perfeita — não no sentido nobre da precisão, mas no sentido clínico da autópsia. Ali estava condensado todo um país de corredores sem janelas, de almas agachadas, de prudências elevadas a método, de chefias que confundem modéstia com amputação e cautela com falência antecipada.
A palavra "vegetativo" pertence ao vocabulário das plantas, dos automatismos orgânicos, daquilo que persiste sem vontade e se prolonga sem grandeza. Não evoca visão, estratégia ou criação. Evoca apenas a continuação morna de um metabolismo sem imaginação. É a palavra ideal para quem não quer crescer — apenas não quer morrer já.
E ali estava ela, colocada no coração de um documento empresarial como quem coloca um travão na própria ideia de futuro. Não se falava de expansão. Não se falava de conquista. Não se falava de inteligência organizativa. Falava-se de um crescimento tímido, quase envergonhado, como se a própria noção de ambição fosse indecorosa, quase obscena, num país habituado a pedir licença até para respirar.
A miséria que começa no vocabulário
Muitos julgam que o atraso das instituições se mede apenas por indicadores financeiros, sistemas informáticos obsoletos ou modelos de gestão ultrapassados. Enganam-se. O atraso começa muito antes disso. Começa no vocabulário permitido. No tom aceite. Na gramática do servilismo. No reflexo quase automático de aparar cada frase até ela perder a espinha dorsal.
Quando uma estrutura teme a palavra "crescimento", já não estamos a discutir negócios. Estamos a discutir psicologia colectiva. Estamos a tocar no nervo de uma cultura que receia a força, que suspeita da visão, que desconfia de tudo o que não seja a continuidade cinzenta do hábito. E é por isso que tantas instituições parecem imóveis mesmo quando se mexem: executam gestos, mas não possuem alma de movimento.
Naquele instante, compreendi com uma clareza amarga que o maior défice de certas organizações portuguesas nunca foi apenas de capital, tecnologia ou formação. Foi, e continua muitas vezes a ser, um défice de altitude mental. Uma incapacidade visceral para pensar grande sem sentir culpa. Um medo ancestral de tudo o que exceda a mediania regulamentada.
O cinzento que não morreu
Foi também nesse momento que senti, de forma quase física, o regresso daquele velho cinzento português — o cinzento espesso, disciplinado e poeirento que marcou o Estado Novo. Não falo apenas de um regime político já terminado no calendário. Falo de algo mais persistente: uma cultura psicológica. Um tom de voz. Uma maneira de olhar para o mundo com desconfiança perante o brilho, perante a liberdade, perante a inteligência indócil.
O Estado Novo não foi apenas censura, polícia política e cartilhas de obediência. Foi também uma pedagogia da contenção. Uma domesticação da linguagem. Um país ensinado a caber em si mesmo, a não fazer ondas, a não sonhar alto, a não ultrapassar a linha invisível do aceitável. Um país onde o excesso de imaginação era mal visto e o excesso de iniciativa podia parecer insolência.
Esse cinzento não desaparece por decreto. Sobrevive em muitas salas de reunião. Sobrevive em pareceres administrativos. Sobrevive em expressões escolhidas para que nada pulse demasiado. Sobrevive naqueles que trocam "crescimento" por "crescimento vegetativo" com a convicção serena de quem está a pôr ordem no universo.
É um cinzento que não precisa de farda. Já não fala do alto de tribunas. Já não impõe silêncio com a dureza antiga. Faz algo mais subtil e, por isso mesmo, mais traiçoeiro: corrige a frase. Reduz o alcance. esteriliza o impulso. transforma a energia em protocolo e a ambição em item de arquivo.
A liturgia do pequeno
Portugal tem padecido demasiado desta liturgia do pequeno. Uma espécie de moral administrativa em que qualquer ideia com fôlego é rapidamente trazida de volta ao rés-do-chão pela mão zelosa dos guardiões da prudência. Não se mata o futuro de frente. Seria demasiado evidente. Vai-se antes atenuando o verbo, recortando a intenção, aparando a frase, até o horizonte perder definição.
Assim se fabricam décadas de atraso com ar respeitável. Assim se eterniza a mediocridade sem escândalo. Assim se alimenta a ilusão de que tudo está sob controlo, quando, na verdade, o que existe é apenas uma gestão metódica do declínio.
Um banco dirigido sob esta lógica não quer realmente crescer. Quer manter-se. Quer durar. Quer respirar devagar. Quer a paz morna dos organismos acomodados. Quer a segurança burocrática de não prometer nada que exija coragem. Quer, acima de tudo, que ninguém se lembre de usar palavras vivas num habitat feito para a dormência.
Uma frase, um país
Dir-me-ão alguns que tudo isto nasceu de uma simples expressão num relatório. Que estou a ver demais no detalhe. Mas é precisamente nos detalhes que os sistemas se denunciam. Um país inteiro pode caber numa correcção. Um regime mental inteiro pode manifestar-se numa escolha lexical. Uma decadência colectiva pode revelar-se numa única palavra introduzida com solenidade por um director convencido da sua própria sensatez.
Naquele dia, naquela sala, eu não vi apenas um homem a corrigir um texto. Vi uma herança. Vi um método. Vi a continuação subterrânea de uma velha escola nacional de obediência, conformismo e timidez estratégica. Vi a recusa instintiva de tudo o que cheire a impulso criador.
E percebi que há instituições onde a principal função de certas chefias não é conduzir o futuro, mas sim evitar que ele entre pela porta adentro com demasiado ruído.
Referências ao cinzento do Estado Novo
O "cinzento" do Estado Novo não era apenas uma metáfora cromática. Era uma estética e uma disciplina moral: a exaltação da sobriedade sem alegria, da ordem sem imaginação, da obediência sem pensamento crítico, da contenção como virtude suprema. Nas escolas, nos escritórios, nos quartéis e nos discursos oficiais, cultivava-se uma ideia de país estreito, resignado, reverente e pouco dado a rasgos. A linguagem devia ser comportada. A ambição, vigiada. A diferença, limada.
Esse ambiente produziu gerações treinadas para a prudência excessiva, para o medo do destaque, para a reverência perante a hierarquia e para a suspeita perante qualquer impulso transformador. O "não dar nas vistas" converteu-se em código moral. E a imaginação, quando não servia a propaganda, era tratada como um excesso inconveniente.
É por isso que, décadas depois do colapso formal desse regime, ainda encontramos nas instituições ecos desse mundo baço: aversão à ousadia, culto do procedimento, domesticação do verbo, medo de pensar em grande, necessidade de reduzir tudo a fórmulas mornas e socialmente inofensivas. O cinzento do Estado Novo não vive apenas na memória histórica — vive, por vezes, na sintaxe cautelosa dos medíocres.
Epílogo
Talvez por isso eu nunca tenha esquecido esse instante. Porque percebi, num clarão seco, que a decadência raramente entra de botas. Entra muitas vezes com educação, com gravata, com parecer, com ares de prudência técnica. Senta-se à mesa, pega numa caneta, sorri com autoridade e acrescenta uma palavra que mata a frase.
Depois levanta-se convencida de ter melhorado o documento.
Mas o que realmente fez foi confessar um país.
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial com Augustus — Fragmentos do Caos
Porque há momentos em que uma simples correcção semântica revela a tragédia inteira: num país educado para rastejar, até o crescimento tem de apresentar atestado de mansidão.
O problema de Portugal nunca foi apenas a falta de meios; foi este espírito cinzento que sobrevive aos regimes e continua a ensinar gerações inteiras a chamar prudência à mediocridade.