BOX DE FACTOS

  • Os preços sobem depressa com guerras, choques e medo; a descida tende a ser mais lenta e incompleta.
  • Instituições como o FMI e o BCE reconheceram que margens de lucro elevadas tiveram peso na dinâmica inflacionista recente.
  • A União Europeia criou mesmo mecanismos extraordinários para captar ganhos excessivos no sector fóssil durante a crise energética.
  • A concentração económica e a assimetria de poder ajudam a transformar crises colectivas em oportunidades privadas.
  • O problema não é apenas o mercado: é a fraqueza política perante a sua face predadora.

A Face Predadora dos "Mercados" e a Economia da Ganância

Chamam-lhe mercado. Muitas vezes é apenas a arte sofisticada de transformar o medo colectivo em margem de lucro.

Os "mercados" são frequentemente apresentados ao cidadão comum como uma entidade abstracta, quase sagrada, dotada de uma racionalidade superior. Fala-se deles como se fossem um fenómeno natural, semelhante ao clima ou às marés: reagem, ajustam, corrigem, equilibram. Mas basta observar o seu comportamento em tempos de guerra, epidemias, convulsões sociais, escassez ou instabilidade geopolítica para perceber que esta liturgia da neutralidade esconde, demasiadas vezes, um mecanismo bastante menos nobre. Os preços sobem ao primeiro tremor. O medo é imediatamente facturado. A ansiedade colectiva converte-se em tabela. O sofrimento entra na contabilidade.

E depois, quando a ameaça abranda, quando os custos de origem descem, quando o choque se dissipa, quando a tempestade se afasta? A descida raramente acompanha a velocidade da subida. A mão invisível revela então um curioso defeito de mobilidade: corre como lebre para agravar, arrasta-se como tartaruga para aliviar. Para subir, basta um rumor. Para descer, exige-se uma missa técnica, um relatório prudencial, uma coreografia de desculpas empresariais e uma longa pedagogia da inevitabilidade.

O mercado real não é o mercado ideal

O mercado real não é o modelo limpo dos manuais. Não é um espaço puro de concorrência perfeita, informação simétrica e ajustamento elegante. É um campo de forças assimétrico, dominado por actores com escala, capital, informação privilegiada, capacidade de influência e poder para impor narrativas. Em teoria, as crises deveriam ser absorvidas e depois corrigidas. Na prática, muitas tornam-se pretextos para consolidar margens, reforçar posições dominantes e habituar o consumidor a novos patamares de preço.

O próprio Fundo Monetário Internacional advertiu, em 2024, para o facto de margens de lucro empresariais elevadas poderem continuar a alimentar riscos inflacionistas na área do euro. O Banco Central Europeu foi igualmente claro ao observar que o crescimento dos lucros unitários tinha atingido um pico relevante em 2022 e que a desinflação exigia também uma compressão desses lucros. Isto significa, em linguagem menos diplomática, que a inflação recente não foi apenas uma história de salários ou de energia: houve também espaço para protecção e expansão de margens num contexto de choque e confusão. 0

Quando a crise se torna negócio

A guerra, a epidemia, a escassez, a ruptura logística, o pânico bolsista, a ameaça geopolítica — tudo isto deveria ser, numa sociedade decente, matéria para prudência, contenção e protecção dos mais vulneráveis. Mas no capitalismo financeirizado de hoje, cada sobressalto colectivo funciona demasiado frequentemente como ocasião para uma extracção acrescida. O desastre para muitos converte-se em bonificação para poucos. O medo deixa de ser apenas sofrimento humano; passa a ser um activo económico.

O caso da energia foi particularmente eloquente. A Comissão Europeia reconheceu a excepcionalidade dos ganhos no sector fóssil durante a crise e implementou medidas extraordinárias para captar parte desses lucros e canalizá-los para apoio a consumidores e empresas. Quando um sistema precisa de tributar ganhos excessivos obtidos no meio de uma crise que esmagou famílias e actividade económica, isso já diz muito sobre a natureza do jogo. Não estamos perante uma mera dança neutra da oferta e da procura; estamos perante um mecanismo em que a turbulência colectiva pode ser monetizada em grande escala. 1

A lentidão da descida e a pedagogia da resignação

Um dos traços mais obscenos desta economia da ganância é a sua pedagogia implícita. Ensina-se às populações que os aumentos são inevitáveis, instantâneos e ditados por forças globais irresistíveis. Mas quando as pressões recuam, a mesma voz sistémica passa a explicar que a redução não pode ser imediata, que há inércias, custos estruturais, contratos, recomposição de stocks, prudência, contexto, volatilidade remanescente. O sistema é brutalmente expedito a disciplinar o consumidor, e prodigiosamente paciente a proteger a rentabilidade.

A OCDE notou em 2024 e 2025 que a inflação headline continuou a moderar em muitas economias, liderada por quedas em componentes como energia, alimentos e bens, embora alguns segmentos, nomeadamente serviços, se mantivessem mais persistentes. O problema é que a experiência vivida pelo cidadão não acompanha sempre essa moderação estatística com a mesma intensidade ou rapidez. O índice abranda; a carteira nem sempre sente. E é nesse fosso entre o número macroeconómico e a vida concreta que cresce a percepção, tantas vezes justificada, de que o sistema sabe sempre subir mais do que sabe descer. 2

O fracasso político

E onde entram os governos? Demasiadas vezes, entram tarde, falam baixo e saem cedo. Criam observatórios, grupos de monitorização, recomendações prudenciais, apelos à moderação, quadros temporários, relatórios e conferências. Mas revelam uma timidez estrutural perante o poder económico concentrado. Em vez de disciplinarem seriamente sectores estratégicos quando a extorsão se torna evidente, limitam-se a administrar o mal-estar. Em vez de imporem concorrência real, transparência radical e fiscalização musculada, pedem contenção moral a actores cujo incentivo central é precisamente maximizar retorno.

A verdade é incômoda: muitos governos não governam os mercados; negoceiam com eles em posição de fraqueza. Receiam a reacção financeira, a deslocalização, a pressão accionista, as agências de rating, o coro mediático dos interesses instalados. E assim a política, que deveria proteger o comum, encolhe diante da finança, dos oligopólios e das grandes estruturas de extracção económica. O poder eleito curva-se perante o poder contabilístico.

Uma redistribuição ao contrário

No fim, o que este sistema produz é uma redistribuição ao contrário. Os choques funcionam como imposto informal sobre os fracos. O trabalhador paga mais pela energia, pela alimentação, pela habitação, pelo crédito, pelo transporte. A família absorve sucessivos aumentos como quem leva pancadas invisíveis. Já os actores dominantes, com margem, escala e posição estratégica, convertem a turbulência em vantagem. O capitalismo deixa então de ser motor de produção partilhada e aproxima-se perigosamente de uma máquina de transferência ascendente: retira em baixo, acumula em cima.

Chamar a isto "modernidade" é um insulto à inteligência. Moderno seria um sistema capaz de absorver choques sem condenar sempre os mesmos ao papel de amortecedor. Moderno seria um mercado enquadrado por instituições fortes, transparência efectiva e regulação apta a impedir a especulação predatória. Moderno seria uma economia orientada para valor real, produtividade, criação útil e prosperidade ampla — não uma arquitectura onde cada crise é uma mina para extrair renda social.

O drama do nosso tempo não é apenas a ganância. A ganância sempre existiu. O drama é a sua normalização técnica, a sua legitimação académica, a sua protecção política e a sua embalagem semântica. Já não se rouba com punhal; rouba-se com índice, margem, ajustamento, modelo de risco e nota de mercado.

E enquanto os povos aceitarem esta liturgia como se fosse ordem natural, continuarão a viver num sistema em que o alarme sobe os preços, mas o alívio raramente devolve dignidade.

Frase final para reflexão

Os mercados gostam de apresentar-se como bússola racional do mundo; demasiadas vezes são apenas a linguagem elegante da rapina quando o medo faz abrir a carteira dos fracos.
Fontes credíveis: FMI, consulta anual à área do euro de 2024 sobre riscos inflacionistas ligados a margens de lucro; BCE, discurso de Maio de 2024 sobre inflação na área do euro e evolução dos lucros unitários; OCDE, Economic Outlook 2024 sobre a moderação da inflação e persistência em alguns sectores; Comissão Europeia, medidas de emergência e relatório final sobre ganhos extraordinários no sector fóssil durante a crise energética. 3
Nota editorial

Há sempre economistas e especialistas prontos a desfilar breviários técnicos, gráficos solenes e manuais de linguagem asséptica para explicar o inexplicável e tornar aceitável o inaceitável. Falam da economia como se de uma ciência exacta se tratasse, quando está longe de o ser, e escondem por detrás de fórmulas, jargão e modelos aquilo que tantas vezes são apenas escolhas políticas, interesses instalados e relações de poder. Onde o povo sente saque, eles detectam "ajustamentos"; onde há especulação, falam de "dinâmica de mercado"; onde a vida concreta é esmagada, respondem com abstracções. A sua função, demasiadas vezes, não é esclarecer a realidade, mas anestesiar a consciência e dar verniz científico à rapina. Quando a técnica serve para mascarar a injustiça, já não estamos perante saber — estamos perante liturgia ao serviço do poder.
E os media, longe de serem neutros, funcionam demasiadas vezes como parte integrante dessa liturgia, amplificando, normalizando e evangelizando os poderes económicos com uma linguagem reverente, onde a especulação surge como racionalidade, a rapina como inevitabilidade e a submissão como realismo.

Quando a imprensa deixa de vigiar o poder e passa a traduzir a sua linguagem, a democracia conserva a forma, mas começa a perder a alma.

Artigo autoria de 📖 Francisco Gonçalves

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