Irão, Israel e o ponto que falta: quando a ameaça é existencial, a geopolítica deixa de ser teatro

- O Irão tem um historial de retórica oficial que aponta à eliminação/"desaparecimento" de Israel.
- O Irão projecta poder por "defesa avançada" via redes de grupos armados (proxies), incluindo no eixo Gaza–Líbano.
- O ataque de 7 de Outubro de 2023 e a guerra subsequente tornaram visível a escala e a natureza do conflito.
- O programa nuclear iraniano tem sido objecto de alarme por níveis de enriquecimento e por disputas de acesso/inspecção.
- Democracia não é santidade, mas é diferença: uma democracia é criticável por padrões públicos; uma teocracia armada por procuração é outro tipo de problema.
- Slogans ("Israel é o inimigo da paz") são eficazes para mobilizar emoções — e péssimos para descrever realidades.
Irão, Israel e o Ponto que Falta: quando a ameaça é existencial, a geopolítica deixa de ser teatro
A partir do momento em que a existência do outro é posta em causa, a política deixa de ser disputa: passa a ser laboratório de desumanização.
Nos últimos dias, a escalada militar envolvendo Israel, os EUA e o Irão devolveu o Médio Oriente ao centro do tabuleiro — e, com ele, regressou também a máquina de slogans: "o grande inimigo da paz é Israel". A frase cola-se à pele do debate porque é simples, moralista, imediata. E é precisamente por isso que é perigosa: porque simplifica o que não pode ser simplificado.
1) O Irão não é "apenas mais uma ditadura"
A diferença essencial não está na falta de democracia (infelizmente, a região tem vários regimes autoritários). A diferença está no núcleo ideológico: durante décadas, figuras centrais do regime iraniano proferiram declarações sobre um dis seus grande objectivos de Estado - a eliminação/"desaparecimento" de Israel, usando linguagem que ultrapassa a crítica política e entra no domínio da negação existencial. Isto não é "leitura tendenciosa": é matéria registada e reportada por imprensa internacional com arquivo.
Quando um Estado afirma (em público) que o outro não deve existir, a conversa muda. Já não é apenas "disputa territorial" ou "rivalidade regional": é uma ameaça identitária que, historicamente, abre a porta ao pior tipo de violência — a que se legitima com uma teologia do destino e uma política do apagamento.
Aqui, Hannah Arendt ajuda-nos a ver o mecanismo: quando a linguagem e a ideologia passam a tratar seres humanos como supérfluos e dispensáveis, a violência deixa de ser um acidente e transforma-se em método — não raro, embrulhado numa narrativa de "destino" e "necessidade". Arendt não nos pede slogans; pede-nos vigilância sobre a forma como a desumanização abre caminho ao crime político.
(Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, sobre a lógica que torna pessoas "supérfluas" e o papel da ideologia na legitimação do inaceitável.)
2) Proxies: a guerra por procuração como método
O Irão consolidou uma estratégia descrita por analistas como "defesa avançada": projectar poder e criar dissuasão através de redes de actores armados aliados, de modo a levar o confronto para fora das suas fronteiras. Essa arquitectura inclui actores no Líbano, em Gaza e noutros pontos da região — e faz com que o conflito raramente seja "directo", mas quase sempre multiplicado.
Em 2023, a Reuters descreveu como o Hamas foi construindo capacidades militares com apoio de uma rede que inclui financiamento e treino ligados ao Irão e Rússia. E a própria dinâmica na fronteira Israel–Líbano, com o Hezbollah, é frequentemente enquadrada pela imprensa internacional como parte desse eixo regional.
3) O 7 de Outubro e a frase que ficou por dizer
O ataque de 7 de Outubro de 2023 e a guerra que se seguiu deixaram duas realidades incontornáveis: (i) houve um choque de violência e terror que reacendeu a região; (ii) o conflito não é apenas "Israel versus Gaza" — é uma teia onde a logística, o armamento e a doutrina de grupos armados têm ligações transnacionais.
Aqui surge o "detalhe" que muitos comentadores, que nem história mundial terão estudado, evitam: Israel não vive apenas sob crítica; vive sob ameaça. E quando uma ameaça é enquadrada como existencial (seja por retórica, seja por acção indirecta através de proxies), torna-se intelectualmente desonesto exigir a Israel um comportamento "como se fosse a Suíça".
4) Nuclear: dissuasão defensiva ou instrumento de coerção?
A comparação com a Coreia do Norte aparece com frequência: Pyongyang assume o nuclear como dissuasão e "último recurso". Mesmo assim, esse arsenal é também, na prática, um instrumento de coerção. No caso do Irão, o problema agrava-se por dois factores: a retórica existencial contra Israel e a opacidade/atrito recorrente com a supervisão internacional.
Nos dias 27–28 de Fevereiro de 2026, surgiram relatos internacionais sobre dificuldades de verificação por parte da AIEA (IAEA), incluindo referência a stocks e ao acesso a instalações após ataques anteriores e escaladas recentes. A AIEA descreveu como "indispensável e urgente" a reposição de inspecções e continuidade de monitorização, precisamente porque, sem isso, o debate passa de "opinião" para "risco".
5) Democracia, guerra e a armadilha do maniqueísmo
Dizer que Israel é uma democracia não é dizer que é infalível. Democracias erram, abusam, excedem-se — e devem ser criticadas. Mas há uma diferença civilizacional: numa democracia há disputa interna, alternância, tribunais, imprensa e protesto; numa teocracia militarizada por procuração, a crítica é muitas vezes uma sentença.
O que não é aceitável — nem intelectualmente sério — é substituir análise por catecismo: "Israel é o inimigo da paz." Se a paz é um edifício, slogans são martelos: fazem ruído, mas não constroem nada. A paz exige critérios (protecção de civis, proporcionalidade, objectivo político) e exige também honestidade estratégica: reconhecer que existe, no tabuleiro, quem queira eliminar o outro — e age para aproximar esse resultado.
Epílogo: a paz não nasce da amnésia
Quando um regime declara a eliminação de outro Estado e sustenta redes armadas que mantêm a região em combustão, o debate sobre "culpas" não pode fingir que isso não existe. A amnésia moral é confortável, mas não é neutralidade: é uma forma de tomar partido pelo mais barulhento, e até um assumir que o terrorismo é politicamente aceitável.
Se queremos discutir paz, discutamos paz com factos. E, com factos, a pergunta deixa de ser "quem fica bem no comentário" e passa a ser: quem quer que o outro desapareça — e o que está disposto a fazer para isso? Substituir factos por narrativas inconsequentes é dar combustível ao eixo do mal, que se assume não só contra Israel, nas não esqueçamos, também contra a civilização ocidental, em que todos vivemos, inclusive os comentadores confortáveis nas sua narrativas da mentira atrevida.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
Continuem a vender slogans como se fossem análises: a História adora esses 'comentadores' — porque são sempre os primeiros a aplaudir o incêndio e os últimos a pedir responsabilidade."
Referências (publicações internacionais)
- Reuters (24 Set 2012) — Declarações de Ahmadinejad sobre Israel ser "eliminado". (https://www.reuters.com/article/world/in-new-york-defiant-ahmadinejad-says-israel-will-be-eliminated-idUSBRE88N0HG/)
- Reuters (30 Ago 2012) — ONU critica ameaças a Israel; nota sobre traduções e retórica ("cancerous tumour", "vanish from the page of time"). (https://www.reuters.com/article/world/un-chief-excoriates-iran-for-threats-to-israel-holocaust-denial-idUSBRE87T0CU/)
- Reuters (13 Out 2023) — Como o Hamas construiu capacidades com rede externa, incluindo financiamento e treino ligados ao Irão. (https://www.reuters.com/world/middle-east/how-hamas-secretly-built-mini-army-fight-israel-2023-10-13/)
- Reuters (31 Out 2023) — O que é o Hezbollah e o seu papel no confronto com Israel após 7 de Outubro. (https://www.reuters.com/world/middle-east/what-is-hezbollah-group-backing-hamas-against-israel-2023-10-30/)
- Chatham House (6 Mar 2025) — Evolução do "Axis of Resistance" e a lógica de "forward defence" do Irão. (https://www.chathamhouse.org/2025/03/shape-shifting-axis-resistance/02-how-axis-was-formed-and-how-it-has-evolved)
- Reuters (27 Fev 2026) — Relatório da AIEA: urgência de inspecções; referência a stocks/enriquecimento e perda de continuidade de monitorização. (https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-stored-highly-enriched-uranium-underground-site-iaea-report-says-2026-02-27/)
- AP News (27 Fev 2026) — AIEA: incapacidade de verificar suspensão de enriquecimento e dimensão/localização do stock após guerra/ataques. (https://apnews.com/article/ccf574a324504b985f4b158f9d3d6941)
- Nações Unidas — Conselho de Segurança: Resolução 2231 (2015) e enquadramento do JCPOA. (https://main.un.org/securitycouncil/en/content/2231/background)
- Reuters (3 Mar 2026) — Mísseis iranianos a atingir zona central de Israel (Telavive) no contexto da escalada. (https://www.reuters.com/world/middle-east/israeli-military-says-iranian-missiles-hit-central-israel-2026-03-03/)
- AP News (3 Mar 2026) — Escalada e ataques alargados, impacto regional e energético. (https://apnews.com/article/e1c316da4ce809407122590a6872aa85)
- Reuters (27 Set 2023) — Revisão constitucional norte-coreana: nuclear para "deter guerra" e garantir "existência". (https://www.reuters.com/world/asia-pacific/north-korea-parliament-amends-constitution-enshrine-nuclear-policy-kcna-2023-09-27/)
As actuais ditas "esquerdas" e outras tribos afiliadas, têm uma compulsão que se veste de ética e moral superiores quando a putrefacção se instala: transformam a moral em cenário, porque o cenário é mais fácil de pintar do que o carácter.