BOX DE FACTOS

  • A Europa protege a liberdade religiosa, mas essa liberdade não está acima da ordem democrática, da segurança pública e dos direitos fundamentais.
  • O terrorismo jihadista continua a ser apontado pelas autoridades europeias como uma das principais ameaças terroristas no continente.
  • O problema não é a fé em si, mas a recusa de sectores islamistas em aceitar plenamente a separação entre religião, Estado e lei civil.
  • Uma sociedade aberta só sobrevive se exigir que toda a prática religiosa respeite sem ambiguidades a liberdade, a igualdade e a supremacia da lei comum.
  • O erro europeu pode ser duplo: ingenuidade perante o fanatismo ou injustiça contra crentes pacíficos.

Europa, Islão e Estado Laico: O Perigo Começa Quando a Fé Quer Mandar na Lei

A Europa não se perderá por acolher a fé. Perder-se-á, sim, se deixar de exigir que toda a fé aceite curvar-se perante a lei civil, a liberdade e a dignidade humana.

O problema europeu não está em haver muçulmanos. Também não está no direito à oração, ao culto, à identidade espiritual ou à liberdade de consciência. O verdadeiro problema começa noutro ponto: quando uma religião deixa de se apresentar apenas como fé e volta a querer mandar na lei, organizar a sociedade, regular a vida colectiva e disputar ao Estado laico o monopólio da ordem civil. E é precisamente aqui que a questão islâmica se torna, hoje, uma das mais delicadas e explosivas da Europa contemporânea.

Não por causa de todos os muçulmanos. Não por causa de cada mesquita. Não por causa da simples prática religiosa. Mas porque continua a existir, dentro do universo islâmico, uma corrente real, activa e perigosa que não reconhece plenamente a separação entre religião e Estado, entre fé privada e espaço público, entre convicção espiritual e lei comum. Essa corrente pode apresentar-se em graus diferentes: do conservadorismo fechado ao islamismo político, da pressão comunitária ao jihadismo abertamente violento. Mas a matriz profunda é a mesma: a dificuldade em aceitar que a religião não manda na cidade.

A liberdade religiosa não é licença para corroer a ordem democrática

A Europa tem o dever de proteger a liberdade religiosa. Essa é uma das suas grandezas civilizacionais. Uma sociedade livre não persegue pessoas por acreditarem, rezarem ou celebrarem os seus ritos. Mas a mesma Europa que protege a fé também tem o direito — e a obrigação — de afirmar sem hesitação que nenhuma religião está acima da lei civil, da ordem democrática, da segurança pública ou dos direitos fundamentais. Este é o ponto decisivo que demasiadas vezes se dilui em discursos tímidos e receios de parecer intolerante.

Quando um credo religioso aceita a sua existência plena dentro da ordem constitucional, não há problema. O problema começa quando uma parte dessa tradição entende que a lei do Estado é secundária face à lei religiosa, que a igualdade entre homem e mulher pode ser relativizada, que a liberdade de abandonar a fé é ilegítima, que a blasfémia deve ser punida, que a crítica é sacrilégio, que a comunidade vale mais do que o indivíduo, e que a soberania política deve responder a mandamentos teológicos. A partir desse momento, já não estamos perante simples fé. Estamos perante desafio civilizacional.

O jihadismo não nasceu do nada

É aqui que a ingenuidade europeia se torna perigosa. Durante demasiado tempo, uma parte das elites quis acreditar que toda a prática religiosa é, por definição, inofensiva e que qualquer escrutínio sério das redes islâmicas mais fechadas seria sinal de preconceito. Essa atitude foi intelectualmente preguiçosa e politicamente irresponsável. Porque o jihadismo não nasceu do nada. Não caiu do céu. Alimenta-se de ecossistemas, pregações, redes, radicalizações, financiamentos, ambientes comunitários, narrativas de vitimização e projectos ideológicos que recusam, no fundo, o coração moral da modernidade europeia.

É por isso que a ameaça jihadista continua a surgir nas avaliações europeias como preocupação central. Não porque a Europa tenha enlouquecido de medo, mas porque os factos obrigam a reconhecer que existe um problema de segurança, de integração e de fidelidade à ordem democrática que não pode ser tratado com frases feitas sobre multiculturalismo ou tolerância abstracta.

O erro fatal: confundir firmeza com perseguição

Mas também seria desastroso cair no extremo oposto. Uma Europa forte não trata todos os muçulmanos como suspeitos. Não fecha locais de culto apenas por serem islâmicos. Não transforma milhões de pessoas pacíficas em inimigo civilizacional indistinto. Isso seria injusto, contraproducente e, no fim, útil precisamente aos extremistas que vivem da ideia de guerra total entre o Islão e o Ocidente.

A firmeza séria é outra coisa. Não é perseguição da fé; é contenção rigorosa do fanatismo. Não é hostilidade à oração; é intolerância total para o uso da religião como cobertura para segregação, radicalização, doutrinação sectária, pregação de ódio ou projecto político antiliberal. Uma democracia madura não proíbe o sagrado. Exige apenas que o sagrado não pretenda governar a cidade.

O Estado laico tem de voltar a ser afirmado sem medo

A Europa cometeu um erro grave ao começar, por vezes, a falar do Estado laico quase com vergonha, como se afirmar a supremacia da lei civil fosse gesto hostil para com as religiões. Não é. Pelo contrário: o Estado laico é precisamente o quadro que permite a coexistência pacífica de crentes, descrentes, convertidos, ex-convertidos e dissidentes. Sem Estado laico forte, não há liberdade religiosa digna desse nome. Há apenas competição entre ortodoxias e pressão da comunidade mais agressiva.

É por isso que o verdadeiro teste europeu não está em tolerar tudo, mas em saber onde traçar a linha. E essa linha tem de ser traçada cedo, com lucidez e sem cobardia: financiamento opaco vindo de redes radicalizantes, pregadores extremistas, escolas ou associações que ensinam hostilidade à ordem democrática, comunidades que negam a igualdade fundamental ou que colocam a sharia acima da Constituição, tudo isso deve ser combatido com a firmeza de quem sabe o que está em causa.

A Europa não pode esperar pelo atentado final

Há um erro recorrente nas democracias cansadas: só reagem no último minuto, quando o horror já explodiu no metro, na rua, no mercado de Natal ou na redacção de um jornal. Mas a defesa da civilização não pode começar apenas no momento do sangue. Tem de começar muito antes: na escola, na educação cívica, na língua comum, no ensino da igualdade, na protecção da liberdade de expressão, na defesa do direito a abandonar qualquer religião, no controlo do financiamento externo, na vigilância das redes de radicalização, na integração séria e na exigência legal firme.

Se a Europa falhar aqui, corre um risco real de médio prazo: o de permitir o crescimento lento de enclaves culturais e religiosos que vivem dentro do continente sem aceitarem plenamente os seus fundamentos morais. Não se trata de pânico. Trata-se de realismo histórico. O fanatismo raramente entra de rompante; entra pela tolerância errada, pela timidez das elites, pelo medo de nomear o problema e pela desistência de educar para a liberdade.

Nem islamofobia, nem suicídio civilizacional

O desafio europeu exige, por isso, uma postura difícil, mas indispensável: rejeitar ao mesmo tempo a islamofobia grosseira e a ingenuidade suicidária. Nem o Islão em bloco é inimigo, nem toda a crítica ao islamismo é preconceito. O mundo real é mais exigente do que os slogans morais de salão. Exige distinção, coragem e hierarquia de princípios.

A distinção é esta: liberdade total para a fé, tolerância zero para qualquer forma de projecto religioso que queira corroer a lei comum, a igualdade e a liberdade. A coragem é esta: dizer isto sem medo de ser acusado de dureza. E a hierarquia de princípios é esta: na Europa, a religião é livre porque existe Estado laico; o Estado laico não existe para servir qualquer religião.

Epílogo

O século XXI não precisa de repetir as guerras religiosas do passado para ser tragicamente marcado pelo fanatismo. Basta que a Europa abdique de se defender intelectualmente. Basta que deixe de ensinar os seus próprios fundamentos. Basta que troque a firmeza por culpa e a clareza por medo. Basta que permita, em nome de uma tolerância mal compreendida, que se instalem dentro de portas formas de crença que não aceitam viver em paz com a liberdade moderna.

Não é preciso ser contra o Islão para ver o problema. Basta ser a favor da civilização aberta. Basta ser a favor da igualdade. Basta ser a favor da liberdade de consciência. Basta, no fundo, compreender que a grande conquista europeia não foi a vitória de uma fé sobre outra, mas a vitória difícil da lei civil sobre todas elas.

A Europa não será destruída pela fé, mas pela cobardia de não exigir que toda a fé se ajoelhe perante a liberdade, a lei civil e a dignidade humana.

Referências

Tribunal Europeu dos Direitos Humanos — jurisprudência sobre liberdade religiosa e limites compatíveis com a ordem democrática.
Europol — relatórios e páginas temáticas sobre terrorismo e extremismo violento na União Europeia.
Reuters — cobertura do banimento do Islamic Centre Hamburg e de mesquitas afiliadas na Alemanha por alegado islamismo radical.

Ensaio da Autoria de :

Francisco Gonçalves
Para o Fragmentos do Caos
Com coautoria editorial de Augustus Veritas

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