BOX DE FACTOS

  • O serviço público de rádio e televisão é financiado maioritariamente pela Contribuição para o Audiovisual paga pelos consumidores.
  • A televisão portuguesa vive saturada de entretenimento repetitivo, concursos, culinária e comentário desportivo sem fim.
  • O excesso de ruído e distracção empobrece a esfera pública e enfraquece o apetite por reflexão séria.
  • Uma democracia degradada não precisa de censurar: basta-lhe cansar, distrair e infantilizar.
  • O problema não é apenas televisivo — é cultural, político e civilizacional.

Democracia de Entretenimento: Como se Adormece um Povo em Horário Nobre

Não é preciso fechar jornais nem prender opositores para enfraquecer uma democracia. Muitas vezes basta encher os ecrãs de barulho, trivialidade e distracção até que um povo se esqueça de pensar.

Portugal foi-se habituando, devagar, quase sem dar por isso, a uma forma particularmente moderna de domesticação colectiva. Não se trata já da censura clássica, da proibição grosseira ou da mordaça oficial de outros tempos. Trata-se de algo mais subtil, mais confortável e talvez mais eficaz: a construção paciente de uma cultura pública baseada na distracção contínua, no ruído fácil, na banalidade repetida e na infantilização do olhar.

Enquanto se continua a invocar a palavra "democracia" com solenidade quase litúrgica, o que se oferece diariamente a um povo inteiro é uma dieta mental de baixíssima exigência: concursos para narcotizar, reality shows para excitar o instinto mais primário, culinária em doses quase industriais, futebol debatido até à exaustão por sacerdotes do óbvio, e uma sucessão de formatos que não elevam, não inquietam, não instruem e, sobretudo, não libertam.

É aqui que o problema deixa de ser televisivo e passa a ser civilizacional. Porque um país não é apenas aquilo que produz, vota ou exporta. É também aquilo que cultiva no imaginário colectivo. É aquilo que coloca, noite após noite, diante dos olhos da população. É aquilo que considera digno do tempo comum. E quando esse tempo comum é colonizado pelo espectáculo do fútil, pela repetição do acessório e pela glorificação da irrelevância, a democracia não amadurece: apodrece.

Entreter até à passividade

Há regimes que controlam pela força. Outros controlam pela dependência. Os mais sofisticados controlam pelo entretenimento. Não precisam de proibir a lucidez; basta-lhes afogá-la. Não precisam de impedir a reflexão; basta-lhes substituí-la por estímulo constante. Não precisam de calar a inteligência; basta-lhes criar um ambiente cultural em que a inteligência pareça deslocada, cansativa ou elitista.

É isso que sucede quando a televisão se transforma quase inteiramente num mecanismo de dispersão. O cidadão deixa de ser tratado como consciência e passa a ser tratado como consumidor de impulsos. Já não se lhe pede atenção, pede-se reacção. Já não se lhe oferece pensamento, oferece-se excitação. Já não se o convida a compreender o mundo, convida-se apenas a esquecer-se dele por mais umas horas.

Uma sociedade exposta durante anos a esta dieta acaba por perder musculatura interior. Fica menos disponível para leitura longa, menos interessada em debate sério, menos capaz de suportar complexidade, mais vulnerável a slogans e a simplificações. A televisão, que poderia ser uma escola complementar de cidadania, converte-se assim num ginásio de passividade.

O escândalo do serviço público pago pelo povo

A questão torna-se ainda mais grave quando entra em cena o serviço público. Porque aí já não estamos apenas a falar de escolhas comerciais privadas, por mais discutíveis que sejam. Estamos a falar de uma estrutura financiada directa ou indirectamente pelo esforço dos contribuintes. E isso muda tudo. Quem paga tem o direito de exigir mais do que ruído elegante ou banalidade com logótipo institucional.

Quando um povo financia um serviço público de comunicação, não o faz para receber uma versão respeitável da mesma anestesia cultural que inunda os outros canais. Fá-lo, ou deveria fazê-lo, para garantir uma oferta que ajude a elevar o espaço comum: mais conhecimento, mais exigência, mais cultura, mais pluralismo sério, mais inteligência cívica. Se o dinheiro do cidadão serve apenas para alimentar uma máquina que mistura serviço ocasional com muita espuma e complacência, então o problema não é apenas de programação. É de traição à própria ideia de missão pública.

E é aqui que se revela a hipocrisia mais profunda do regime. Cobra-se ao povo em nome do interesse colectivo, mas demasiadas vezes entrega-se ao povo uma televisão que o trata como plateia fatigada, não como comunidade de cidadãos. Uma televisão que entretém muito, esclarece o suficiente para cumprir tabela e raramente desafia o país a ser mais do que aquilo em que se foi deixando cair.

Reality shows, culinária e futebol: a nova catequese da irrelevância

Os formatos mudam, os cenários renovam-se, os apresentadores rodopiam, mas a lógica profunda permanece quase intocável: manter o olhar ocupado, a atenção fragmentada e o espírito domesticado. Reality shows vendem conflito sem substância. Concursos vendem excitação sem elevação. Programas de culinária transformam o quotidiano em espectáculo neutro, agradável e inofensivo. Horas sem fim de futebol oferecem a paixão tribal perfeita para substituir qualquer conversa séria sobre o país real.

Claro que nenhum destes géneros é, por si só, um crime cultural. O problema está na desproporção, na saturação, no desequilíbrio obsceno entre o que distrai e o que forma. Um povo também precisa de lazer. Mas quando o lazer coloniza quase toda a paisagem mediática, deixa de ser repouso para passar a ser dispositivo. Já não serve para aliviar a vida; serve para adormecer a exigência.

E assim se cria uma estranha normalidade nacional onde quase tudo se comenta, mas pouco se compreende; onde há sempre assunto, mas raramente pensamento; onde o país real, com os seus salários anémicos, hospitais esgotados, escolas fatigadas, corrupção persistente, decadência institucional e mediocridade política, vai sendo empurrado para as margens do ecrã enquanto o centro é ocupado pelo espectáculo da distracção.

Uma democracia que prefere plateias a cidadãos

Talvez seja esta a verdade mais dura: o sistema parece cada vez menos interessado em formar cidadãos e cada vez mais empenhado em gerir plateias. O cidadão pensa, compara, exige, interroga. A plateia reage, cansa-se, distrai-se e volta no dia seguinte para mais uma dose. A democracia autêntica precisa do primeiro. O regime de aparência sobrevive muito melhor com a segunda.

Por isso não espanta que a degradação da programação ande de mãos dadas com a degradação da vida pública. Uma alimenta a outra. A cultura da superficialidade mediática prepara o terreno para a superficialidade política. A banalização do ecrã ajuda a banalizar o poder. O povo habituado ao ruído torna-se mais permeável ao absurdo. E um país que já não distingue entre relevância e distracção torna-se terreno fértil para toda a espécie de impostura.

Nem sequer é preciso uma conspiração centralizada. Basta a convergência cómoda entre interesses comerciais, preguiça intelectual, cobardia editorial e um sistema político que, no fundo, não tem grande vontade de enfrentar uma esfera pública demasiado lúcida. Um povo cansado, disperso e entretido é sempre mais manejável do que um povo culto, atento e interiormente armado.

O país real está algures fora do estúdio

Entretanto, o país real continua lá fora. Continua a levantar-se cedo, a correr para transportes saturados, a enfrentar filas em hospitais, a sobreviver com salários humilhantes, a ver os filhos mergulhados numa cultura cada vez mais frágil e a assistir, entre o cansaço e a impotência, a um teatro mediático que tantas vezes parece desenhado para o distrair da própria condição.

Esse país real não aparece com a frequência que merece. Não cabe bem na gramática da ligeireza. Exige tempo, contexto, trabalho jornalístico, densidade humana e coragem de mostrar o essencial sem cosmética. Exige aquilo que dá mais trabalho e rende menos aplauso instantâneo. Exige, no fundo, respeito.

E o respeito é hoje uma das coisas mais raras em televisão. Respeitar o público seria acreditar que ele pode pensar. Respeitá-lo seria supor que consegue suportar mais do que frivolidade empacotada. Respeitá-lo seria oferecer-lhe conteúdos que o façam crescer, não apenas passar o tempo. Quando isso não acontece, a televisão deixa de ser companhia e transforma-se em instrumento de rebaixamento cultural.

É preciso voltar a chamar as coisas pelo nome

Chegou o momento de dizer o óbvio sem medo de parecer excessivo: uma democracia que se alimenta de cidadãos desatentos, superficialmente entretidos e culturalmente desarmados começa a afastar-se perigosamente da sua promessa original. Pode manter eleições, parlamentos, comentadores e cerimónias oficiais. Pode conservar toda a cenografia institucional. Mas, por dentro, começa a parecer cada vez mais uma administração de sonâmbulos.

Não se trata de defender uma televisão sisuda, pedante ou monástica. Trata-se de exigir equilíbrio, dignidade, exigência, inteligência e missão. Trata-se de recusar a ideia de que o povo só aguenta aquilo que o empobrece. Trata-se de afirmar, contra a corrente, que uma nação merece mais do que ser tratada como mercado de estímulos ou rebanho de audiência.

Um povo habituado a engolir o absurdo em horário nobre acaba por se habituar a engolir o absurdo também na política, na economia, na justiça e na própria vida. E esse talvez seja o desígnio mais obscuro desta era: não convencer pela razão, mas desgastar pela saturação.

Epílogo

Portugal não precisa apenas de melhores governantes. Precisa de uma reconstrução da sua ecologia cultural. Precisa de meios de comunicação que voltem a tratar o público como inteligência viva e não como reflexo condicionado. Precisa de serviço público que honre verdadeiramente o nome que carrega. Precisa, sobretudo, de voltar a acreditar que o povo merece mais do que entretenimento para suportar a decadência.

Porque a degradação de um país começa muitas vezes por parecer inofensiva. Entra pela sala de estar sem pedir licença. Ri-se, cozinha, grita golo, elimina concorrentes, faz barulho, ocupa tempo e chama-se normalidade. Quando damos por isso, já não temos diante de nós uma televisão: temos um método de adormecimento colectivo.

Quando um regime substitui cidadania por entretenimento e pensamento por barulho, já não educa um povo livre — treina uma plateia obediente.

Referências

RTP — Plano de Actividades e enquadramento do financiamento por Contribuição para o Audiovisual.
ERC — avaliação de diversidade e pluralismo no serviço público e estudos de pluralismo/diversidade na televisão.
RTP Play — catálogo de programas temáticos de gastronomia e desporto como ilustração da oferta disponível.

Francisco Gonçalves
Para o Fragmentos do Caos
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas

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