Portugal : Quando a Universidade Premia a Mediocridade

BOX DE FACTOS
- O texto de Álvaro Rocha denuncia a legitimação institucional de avaliações académicas distorcidas.
- O contraste entre índices H muito díspares entre avaliadores e avaliados expõe um problema estrutural.
- A endogamia académica em Portugal está documentada em literatura científica.
- A Europa insiste em recrutamento aberto, transparente e baseado no mérito.
- Quando a excelência é punida dentro da universidade, o país inteiro perde capacidade de futuro.
Quando a Universidade Premia a Mediocridade
Há textos que não acariciam o país — acordam-no à bofetada. O excerto de Álvaro Rocha pertence a essa categoria rara e necessária: a dos textos que recusam a liturgia da complacência e entram de frente no coração do problema. O que ali está descrito não é um desvio ocasional nem uma querela pessoal. É a anatomia de uma doença institucional: um sistema em que a avaliação do mérito pode ser conduzida por quem revela, objectivamente, menor densidade científica do que o avaliado, e em que a fase final de homologação tende não a corrigir a injustiça, mas a legalizá-la com selo e carimbo.
Quando um director de faculdade com índice H de 4 surge como figura legitimadora num processo em que o docente avaliado apresenta índice H de 31, já não estamos no domínio da subjectividade académica, nem na zona cinzenta das preferências metodológicas. Estamos perante um sinal brutal de desproporção, um retrato quase clínico de um ecossistema onde o poder administrativo pode sobrepor-se à evidência científica. O próprio texto de Rocha diz, sem rodeios, que estes números são "indicadores credíveis e claros de um problema estrutural". E é precisamente aqui que a crítica deixa de ser moralista para passar a ser política, institucional e nacional.
A legalidade da injustiça
O mais inquietante é que este problema não vive isolado num episódio. A literatura científica sobre o ensino superior português há anos que alerta para fenómenos de endogamia académica, isto é, a tendência para recrutar e reproduzir quadros dentro da mesma casa, fechando portas à circulação de talento e à renovação de ideias. Um estudo publicado na revista Higher Education, centrado na academia portuguesa, analisou 1.217 docentes doutorados e mostrou que o fenómeno da endogamia existe de forma relevante, variando com a idade institucional e com práticas enraizadas nas áreas disciplinares. Traduzido para linguagem simples: demasiadas vezes, a universidade portuguesa não recruta os melhores; reproduz os seus.
E quando uma instituição começa a reproduzir-se a si própria em circuito fechado, o mérito deixa de ser critério e passa a ser incómodo. O talento externo ameaça equilíbrios internos. A excelência torna-se embaraçosa porque expõe a pobreza relativa de quem manda. O júri, o regulamento, a homologação, a acta final — tudo isso pode continuar impecavelmente legal e simultaneamente profundamente injusto. A tragédia moderna da mediocridade não é actuar fora das regras; é capturar as regras para produzir resultados medíocres com aparência de legitimidade. O edifício permanece de pé, mas por dentro já cheira a mofo burocrático.
Critérios exigentes no papel, cobardia na prática
O contraste torna-se ainda mais escandaloso quando olhamos para os próprios padrões formais que algumas instituições portuguesas já exigem nos concursos. Há editais recentes que pedem, para professor associado, índice H Scopus igual ou superior a 40; noutros concursos, exige-se índice H global de pelo menos 20, mais de 1000 citações e um conjunto significativo de publicações indexadas. Ou seja: o sistema sabe perfeitamente o que são critérios exigentes quando quer desenhar a entrada. O que muitas vezes falha não é a definição abstracta do mérito — é a coragem institucional para o respeitar quando ele ameaça as hierarquias instaladas.
É aqui que a farsa adquire contornos quase teatrais. Exige-se brilho aos de baixo e tolera-se penumbra em cima. Multiplicam-se formulários, grelhas, comissões, pareceres e homologações, como se a burocracia pudesse substituir a grandeza intelectual. Mas não pode. Nunca pôde. Um carimbo não produz ciência. Uma assinatura não gera pensamento. E uma hierarquia administrativa nunca será superior, por decreto, à evidência de um percurso científico sólido.
A universidade como espelho do país
Isto tem consequências muito para além das paredes da academia. A Comissão Europeia continua a insistir em recrutamento aberto, transparente e baseado no mérito como condição para carreiras científicas fortes e para a retenção de talento na Europa. O Conselho da União Europeia voltou também a sublinhar a necessidade de tornar as carreiras no ensino superior mais atractivas e sustentáveis. Se Portugal, ao nível das suas instituições, persistir em tolerar processos opacos, homologações complacentes e culturas de protecção dos medíocres, estará a fazer exactamente o contrário do que a Europa séria recomenda para construir conhecimento, inovação e futuro.
E o país já paga essa factura. O Education and Training Monitor 2025 assinala que Portugal enfrenta carências relevantes em engenharia e TIC, apesar de algum peso das áreas STEM no ensino superior. Ao nível do doutoramento em TIC, a proporção é particularmente baixa. Ora, um país pequeno, periférico e com défices históricos de produtividade não pode dar-se ao luxo de sabotar internamente os poucos sectores onde o conhecimento avançado poderia gerar transformação real. Cada vez que a excelência é desencorajada dentro das universidades, Portugal não perde apenas um professor ou um concurso: perde capacidade de futuro.
A universidade devia ser o lugar onde o país se corrige a si próprio: onde o compadrio cede à evidência, a hierarquia cede ao mérito e a ignorância envernizada cede à competência demonstrada. Mas, quando acontece o contrário, a instituição deixa de ser farol e passa a ser espelho — e o reflexo que devolve é o de um país que continua a confundir autoridade com estatuto, currículo com antiguidade, poder com valor.
É por isso que textos como o de Álvaro Rocha não incomodam apenas quem está dentro do sistema; incomodam todos os que vivem da confortável ficção de que as nossas instituições ainda se regulam sobretudo pela excelência. Não, o problema não é haver falhas humanas num sistema complexo. O problema é existir, demasiadas vezes, uma arquitectura que protege a mediocridade contra a comparação, contra o escrutínio e contra o talento. E quando isso se instala no topo das universidades, a decadência deixa de ser um azar. Passa a ser método.
Referências
Sábado — Álvaro Rocha, "As nossas universidades foram capturadas por elites medíocres", 19 de Março de 2026.
Higher Education — Orlanda Tavares, Sónia Cardoso, Teresa Carvalho, Sofia Branco Sousa, Rui Santiago, "Academic inbreeding in the Portuguese academia", vol. 69, n.º 6, 2015.
EURAXESS / Comissão Europeia — European Charter for Researchers e princípios de recrutamento aberto, transparente e baseado no mérito.
Conselho da União Europeia — recomendação sobre carreiras atractivas e sustentáveis no ensino superior, 25 de Novembro de 2024.
European Commission — Education and Training Monitor 2025 – Portugal.
Bolsa de Emprego Público — edital com exigência de índice H Scopus igual ou superior a 40 para professor associado.
Diário da República — Edital n.º 185/2026, Universidade de Coimbra, com exigência de índice H ≥ 20 e mais de 1000 citações.
Pedrada no charco
Um país onde os medíocres homologam os melhores não está apenas a falhar a universidade — está a assassinar o futuro com carimbo oficial.
Francisco Gonçalves • Fragmentos do Caos
Texto em co-autoria editorial com Augustus Veritas, no espírito crítico, livre e implacável de quem recusa ver a mediocridade transformada em destino nacional.
Nota Editorial
Cinquenta anos depois do 25 de Abril, Portugal continua a carregar um fardo que nenhum discurso oficial consegue esconder: a lenta instalação de uma democracia da impunidade e da mediocridade. Em demasiados sectores da vida nacional, o mérito foi sendo substituído pela conveniência, a exigência pela complacência, a responsabilidade pelo jogo de influências e o serviço público pela reprodução de pequenas castas de poder. O resultado está à vista: instituições enfraquecidas, talento desencorajado, elites sem grandeza e um país que demasiadas vezes parece governado não pelos melhores, mas pelos mais adaptados ao pântano. Uma democracia sem exigência moral, sem cultura de responsabilidade e sem respeito pela excelência acaba por conservar a forma da liberdade, mas perde o seu conteúdo. E quando a mediocridade sobe ao topo e a impunidade a protege, o regime deixa de ser promessa de futuro e transforma-se num mecanismo de bloqueio nacional.