Comentadores em círculo: a televisão portuguesa e a pequenez sem memória

BOX DE FACTOS
- O Reuters Institute assinalou em 2025 a continuação da quebra de envolvimento com meios tradicionais e dificuldades crescentes de ligação entre media e público. 0
- No retrato do Reuters Institute para Portugal em 2025, o país surgia após mais um ano de incerteza política e novo recurso às urnas, cenário que favorece comentário rápido e ruído permanente. 1
- A OCDE indicou em 2025 que apenas 32% das pessoas em Portugal tinham confiança alta ou moderadamente alta no Governo nacional. 2
- A própria OCDE tem sublinhado a necessidade de reforçar confiança e qualidade democrática em Portugal. 3
Comentadores em círculo: a televisão portuguesa e a pequenez sem memória
Há noites em que ligar a televisão portuguesa é assistir não a um debate, mas a uma liturgia do comentário automático. Os rostos repetem-se, os tiques repetem-se, os reflexos tribais repetem-se, e a cada mesa redonda o país parece encolher um pouco mais. Não porque faltem palavras, mas porque falta espessura. Não porque faltem opiniões, mas porque sobra superficialidade. Muitos destes comentadores falam como quem ocupa espaço, não como quem procura verdade.
O mais deprimente é a forma circular do espectáculo. Uns comentam os outros, todos comentam o mesmo ruído, e quase ninguém se detém no que realmente importa: as continuidades históricas, os mecanismos profundos do poder, a mediocridade estrutural do sistema, o modo como Portugal repete velhos vícios com linguagem nova. O país real, com as suas raízes, os seus bloqueios e as suas heranças, desaparece debaixo de uma espuma de reacções instantâneas.
Muita opinião, pouca memória
Boa parte do comentário televisivo sofre da doença mais perigosa do espaço público: a falta de consciência histórica. Sem memória, tudo parece inédito; sem memória, toda a crise parece apenas táctica; sem memória, toda a decadência se reduz a episódio. Ora, um país sem memória crítica torna-se presa fácil de narrativas convenientes. E comentadores sem densidade histórica acabam por funcionar como eco amplificado do presente mais raso.
O problema não é terem opiniões. O problema é muitas dessas opiniões surgirem contaminadas por fidelidades de tribo, por alinhamentos previsíveis, por ideologias usadas como muletas emocionais e por uma preguiça analítica que prefere o reflexo ao pensamento. Não observam o país de cima, nem de fundo: observam-no ao nível da espuma. E quem vive na espuma acaba por tomar bolhas por substância.
Quando os media enfraquecem, o comentário empobrece ainda mais
O pano de fundo também não ajuda. O Reuters Institute assinalou em 2025 uma continuação da quebra de envolvimento com meios tradicionais, dificuldades de ligação entre os media e o público e níveis frágeis de confiança informativa. Em Portugal, esse retrato surge num contexto de instabilidade política repetida e fadiga pública, terreno fértil para um comentário cada vez mais imediato, performativo e pouco exigente. 4
Quando o ecossistema mediático perde profundidade, rapidez e presença valem mais do que reflexão. E então surgem os habituais sacerdotes do instante: profissionais da reacção, operários do enquadramento táctico, administradores da pequenez. Falam com gravidade, mas muitas vezes apenas reciclam preconceitos de clã em linguagem polida.
A televisão torna-se espelho da anemia cívica
Há uma ligação funda entre este comentário pobre e a erosão da confiança pública. A OCDE indicou em 2025 que só 32% das pessoas em Portugal tinham confiança alta ou moderadamente alta no Governo nacional, e a própria organização tem insistido na necessidade de reforçar a confiança e a qualidade democrática no país. Num ambiente destes, o espaço público precisava de mais lucidez, mais independência e mais cultura histórica. Recebe, demasiadas vezes, o contrário: gente treinada para opinar depressa e pensar tarde. 5
A televisão, que podia ser escola de exigência, converte-se assim em espelho da anemia cívica. Em vez de alargar horizontes, estreita-os. Em vez de contextualizar, simplifica. Em vez de convocar inteligência histórica, convoca alinhamentos previsíveis. E, no fim, o espectador fica cercado por vozes que se julgam grandes porque ocupam ecrãs, quando muitas vezes apenas exibem a escala diminuta do seu entendimento.
Epílogo
Portugal não precisa de mais comentadores de serviço. Precisa de consciências livres, cultas, historicamente informadas, intelectualmente independentes e moralmente incapazes de servir de correia de transmissão da espuma. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ver anéis de opinião a girar sobre si mesmos, como pequenos satélites da irrelevância, à volta de um país que pede análise séria e recebe teatro com gravata.
E talvez seja isso o mais triste: num tempo que exigiria pensamento alto, temos demasiadas vezes microfones entregues à pequena estatura.
Fontes e referências
1. Reuters Institute, Digital News Report 2025. 6
2. Reuters Institute, Portugal – Digital News Report 2025. 7
3. OECD, Government at a Glance 2025: Portugal. 8
4. OECD, Lessons from the OECD Trust Survey in Portugal. 9
Francisco Gonçalves — com co-autoria Editorial de Augustus Veritas
Em Fragmentos do Caos, escrevemos contra a trivialidade ruidosa e a favor da memória longa, da lucidez e da exigência.
Frase cortante: Quando a televisão entrega a História a comentadores sem memória, o país passa a ser narrado por anões em redor das ruínas.