BOX DE FACTOS

  • A cooperação entre regimes autoritários deixou de ser apenas táctica e tornou-se mais estruturada e persistente.
  • Rússia e China surgem no centro de redes de apoio que incluem propaganda, tecnologia, diplomacia, comércio estratégico e protecção mútua.
  • As autocracias do século XXI já não precisam sempre de fardas e tanques: usam plataformas, vigilância digital, influência mediática e erosão institucional gradual.
  • A desunião das democracias e a erosão interna do seu compromisso liberal ajudaram a abrir espaço a esta nova ecologia autoritária.
  • O autoritarismo contemporâneo é menos teatral do que o do século XX, mas por isso mesmo mais adaptável, mais insinuante e mais perigoso.
  • O grande risco do nosso tempo é a normalização de regimes que transformam a força em ordem, a censura em estabilidade e o medo em método de governo.

O novo mal do século XXI: a internacional autoritária e a fadiga das democracias

O autoritarismo já não marcha apenas com botas. Hoje circula por cabos submarinos, satélites, plataformas digitais, câmaras de vigilância, tratados oportunistas e narrativas cuidadosamente embaladas para consumo global.

Há males históricos que regressam mascarados de novidade. Mudam de tecnologia, de linguagem, de estética e de método, mas conservam intacto o seu núcleo essencial: o desprezo pela liberdade, a alergia ao pluralismo, a captura da verdade e a redução do ser humano a peça obediente de uma arquitectura de poder. O século XXI prometia, a muitos, um mundo mais aberto, mais interdependente e mais imune aos velhos monstros do século passado. Em vez disso, está a assistir à consolidação de uma nova ecologia autoritária, flexível, tecnológica, pragmática e internacionalizada.

A expressão "eixo de ditaduras" pode soar excessiva para alguns ou demasiado cinematográfica para outros. Mas o fenómeno que procura descrever é real. O que antes parecia uma justaposição de regimes fechados, com agendas próprias e alianças variáveis, tornou-se progressivamente mais coordenado. Rússia, China e outros regimes afins deixaram de actuar apenas por coincidência geopolítica. Passaram a colaborar de forma mais contínua, mais funcional e mais estratégica, explorando as fraquezas das democracias, protegendo-se mutuamente em fóruns internacionais e difundindo tecnologias, discursos e práticas de controlo.

Do autoritarismo isolado à ecologia autoritária

O relatório referido pela imprensa internacional assinala precisamente esse salto qualitativo: a cooperação autoritária deixou de ser episódica e começou a institucionalizar-se. Já não se trata apenas de contactos diplomáticos de conveniência ou de negócios oportunos. Fala-se agora de financiamento, partilha tecnológica, propaganda, concertação diplomática e apoio mútuo perante críticas vindas do mundo democrático. Isto significa que o autoritarismo contemporâneo já não opera apenas dentro de fronteiras nacionais; constrói redes, aprende, adapta-se e exporta o seu método.

Convém, ainda assim, não cair na simplificação preguiçosa. Não estamos perante uma aliança perfeitamente coesa, doutrinariamente homogénea ou sentimentalmente solidária. O que existe é talvez algo mais frio e mais perigoso: uma convergência pragmática entre regimes que podem não confiar plenamente uns nos outros, mas que partilham um objectivo fundamental — enfraquecer o prestígio e a eficácia do modelo democrático liberal e garantir a sobrevivência de sistemas assentes no controlo, na repressão e na gestão manipulada da opinião pública.

No fundo, não é necessário que estes regimes se amem. Basta-lhes que se ajudem o suficiente. Basta-lhes reconhecer que o êxito de um deles abre espaço para os restantes. Basta-lhes perceber que cada fissura no campo democrático é uma oportunidade estratégica. O século XXI ensinou-lhes algo essencial: a liberdade descoordenada é vulnerável; a repressão coordenada é eficaz.

A nova arma: informação, narrativa e colonização do real

Se o totalitarismo clássico precisava de praças cheias, uniformes e coreografias de massas, o autoritarismo actual prefere muitas vezes a subtileza algorítmica, a saturação mediática e a deformação permanente da percepção. A grande batalha não é apenas territorial ou militar; é também uma guerra pela realidade. Quem define o enquadramento do mundo controla mais do que notícias: controla emoções, medos, prioridades e limiares de tolerância moral.

A Reporters Without Borders tem mostrado como a China procura remodelar a ordem mediática global, promovendo uma visão em que o jornalismo não serve a verdade nem o escrutínio do poder, mas antes a estabilidade do regime e a sua narrativa externa. A Rússia fez da manipulação informacional uma arte de corrosão. Outros regimes observam, aprendem e replicam. O objectivo não é apenas convencer; é cansar. Não é apenas mentir; é dissolver a confiança na própria possibilidade de verdade. Quando tudo parece propaganda, a propaganda vence por exaustão.

Este é talvez um dos traços mais sombrios do novo autoritarismo: ele já não precisa de censurar tudo de forma brutal e explícita. Pode inundar o espaço público com ruído, semear contradições, relativizar crimes, inverter culpados, amplificar extremismos e deixar que a fadiga cognitiva faça o resto. A mentira industrial do século XXI não destrói apenas factos; destrói a disposição para os procurar.

Democracias divididas, autocracias pacientes

Mas seria intelectualmente preguiçoso atribuir toda a culpa à astúcia dos regimes autoritários. O crescimento desta "internacional" repressiva não se explica apenas pela força dos seus actores. Explica-se também pela fraqueza, pela hesitação e pela fragmentação do campo democrático. Durante demasiado tempo, muitas democracias acreditaram que a História tinha decidido a seu favor. Supuseram que a prosperidade bastaria, que o mercado resolveria, que a interdependência domesticaria os predadores, que o progresso técnico arrastaria consigo a maturidade política.

Nada disso aconteceu de forma automática. Pelo contrário: a abertura económica sem defesa ética consistente, a digitalização sem regulação inteligente, a política sem cultura cívica profunda e a liberdade sem musculatura institucional criaram vulnerabilidades internas que os regimes autoritários aprenderam rapidamente a explorar. O resultado está à vista: democracias fatigadas, polarizadas, infiltradas por desinformação, corroídas por populismos internos e por uma perda progressiva de confiança nas suas próprias bases morais.

A tragédia das democracias modernas é, em parte, esta: habituaram-se tanto à liberdade que deixaram de a tratar como civilização exigente e começaram a vivê-la como automatismo garantido. Ora a liberdade não é um estado natural. É uma construção difícil, sempre provisória, sempre exposta, sempre ameaçada. Quando as democracias esquecem isso, tornam-se frágeis diante de regimes que não hesitam, não têm pudor e não reconhecem limites éticos à preservação do seu poder.

O mal do século XXI não precisa de se chamar totalitarismo

Há um erro frequente na análise contemporânea: imaginar que, se não voltámos exactamente aos fascismos ou estalinismos do século XX, então o perigo actual é menor ou de outra natureza irrelevante. Não. O mal político do nosso tempo pode ser menos espectacular e, ainda assim, profundamente destrutivo. Pode coexistir com eleições encenadas, parlamentos decorativos, mercados parcialmente abertos, consumo abundante e uma aparência de normalidade. Pode vestir fato moderno, falar em soberania, desenvolvimento, ordem, eficiência e multipolaridade. Pode até apresentar-se como alternativa racional ao "caos" das democracias.

É precisamente essa plasticidade que o torna tão perigoso. O autoritarismo do século XXI é modular. Usa tecnologia de vigilância, repressão legalizada, patriotismo instrumental, nacionalismo emocional, revisionismo histórico, dependência económica e influência digital. Sabe adaptar-se ao contexto local. Não precisa de repetir o século XX para produzir efeitos comparáveis de asfixia moral, cívica e institucional.

E talvez o mais perturbador seja isto: muitos cidadãos, cansados do ruído democrático, começam a olhar para estas arquitecturas de força com uma curiosidade perigosa. Trocam liberdade imperfeita por ordem sem alma. Trocam conflito legítimo por silêncio administrado. Trocam pluralismo difícil por autoridade simplificadora. E não percebem que, ao fazê-lo, não estão a resolver as imperfeições da democracia — estão a preparar a sua própria menoridade política.

Uma escolha civilizacional

O que está em curso não é apenas uma disputa entre blocos geopolíticos. É uma escolha civilizacional sobre o valor do indivíduo, o lugar da verdade, a legitimidade do dissenso e os limites do poder. O século XXI será decidido menos pela retórica das cimeiras e mais pela capacidade das sociedades livres de voltarem a acreditar na dignidade da liberdade, na exigência da responsabilidade e na necessidade de defender instituições abertas contra os predadores externos e internos.

Se falharem, o futuro não pertencerá necessariamente a uma grande tirania unificada, mas a algo talvez ainda mais insidioso: um mundo progressivamente contaminado por métodos autoritários normalizados, por democracias esvaziadas por dentro e por uma habituação colectiva à ideia de que a liberdade é desordem, a crítica é sabotagem e a obediência é maturidade.

É esse o verdadeiro mal extremo do século XXI: não apenas a existência de ditaduras, mas a lenta sedução global da lógica ditatorial.

Referências internacionais

• Bloomberg — sobre o relatório da Action for Democracy e o índice que acompanha sete formas de cooperação entre regimes autoritários. 1

• V-Dem Institute, Democracy Report 2026 — sobre o aumento do peso global das autocracias e a regressão democrática. 2

• Freedom House, The Global Expansion of Authoritarian Rule — sobre a eficácia crescente dos regimes autoritários em contornar normas, apoiar aliados iliberais e desafiar democracias. 3

• Reporters Without Borders, Propaganda Monitor — sobre a estratégia chinesa de remodelação da ordem mediática global e o uso da propaganda como instrumento sistémico. 4

Frase final:

O maior perigo do século XXI não é apenas o regresso das ditaduras, mas a normalização lenta de um mundo onde a liberdade passa a parecer fraqueza e a obediência volta a ser vendida como salvação.

— Francisco Gonçalves, com Augustus Veritas

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