BOX DE FACTOS

  • O 25 de Abril foi um acto corajoso contra um regime esgotado e autoritário.
  • Essa coragem não apaga a espessura histórica de Portugal anterior à revolução.
  • A narrativa dominante muitas vezes simplificou o passado português em caricatura moral.
  • Uma nação adulta não escolhe entre grandeza e culpa: compreende ambas.

Abril não tem o direito de apagar Portugal

Houve bravura no gesto dos capitães. Houve libertação no derrube do regime. Mas uma revolução que se transforma em mito absoluto corre sempre o risco de querer reescrever a memória de um povo, como se a liberdade só pudesse nascer da amnésia.

Há momentos em que sinto que em Portugal se criou, em torno do 25 de Abril, uma espécie de auréola intocável, quase litúrgica, que dispensou demasiadas vezes a inteligência crítica. Os capitães foram bravos, sem dúvida. Derrubaram um regime gasto, tolhido, incapaz de responder ao tempo histórico e exausto também pela guerra do Ultramar. Isso merece respeito. Merece memória. Merece gratidão. Mas outra coisa, bem diferente, é transformar esse momento num dogma fundador que passa a exigir o empobrecimento de tudo o que veio antes.

Portugal não começou em Abril. Nem a dignidade portuguesa, nem a sua imaginação histórica, nem o seu ímpeto civilizacional, nem sequer as suas contradições. Muito antes da revolução, este pequeno país já carregava séculos de risco, de engenho, de drama, de expansão, de encontros e choques entre mundos, de aventura marítima, de construção política improvável, de tragédias e de génio. Houve violência, miséria, crueldade, erros monumentais e desventuras sem conta. Mas houve também grandeza. E essa grandeza, mesmo ferida, mesmo misturada com sombra, continua a ser parte da substância histórica de Portugal.

O que me inquieta é ver como, em nome de uma certa pedagogia pós-revolucionária, se foi instalando o hábito de tratar o passado português não como matéria complexa de estudo, mas como coisa embaraçosa a corrigir com moralismo tardio. Para exaltar Abril, caricaturou-se o que veio antes. Para celebrar a democracia, simplificou-se a História. Para parecer moderno, ensinou-se o país a olhar para si próprio com um misto de culpa automática e ironia servil. Como se a maturidade democrática exigisse o desprezo pela memória longa da nação.

Uma pátria não se honra com amnésia

Uma nação adulta não precisa de escolher entre hino e chicote. Não precisa de idolatrar o passado, mas também não tem de o enxovalhar para parecer civilizada. O que precisa é de lucidez. Reconhecer crimes sem negar grandeza. Reconhecer grandeza sem ocultar crimes. Sustentar as duas verdades ao mesmo tempo, porque só as culturas frágeis necessitam de mutilar a própria história para produzirem uma moral confortável.

Talvez tenha sido esse o desvio mais pernicioso das décadas posteriores a Abril: a coragem inicial dos capitães foi sendo envolvida por sucessivas camadas de oportunismo político, catequese partidária e auto-desprezo nacional. A revolução deixou de ser apenas um acto histórico concreto e tornou-se, para demasiados, um instrumento simbólico de reeducação do país contra si mesmo. E assim, pouco a pouco, foi-se insinuando a ideia de que o Portugal anterior era apenas atraso, opressão e treva, como se séculos de história pudessem ser reduzidos a um panfleto moral para consumo das elites.

Ora, eu recuso essa amputação. Posso honrar a bravura dos capitães e, ao mesmo tempo, recusar que o 25 de Abril tenha o monopólio da dignidade nacional. Posso reconhecer a necessidade da liberdade e ainda assim defender que Portugal não era apenas um erro à espera de correcção. Posso olhar para o passado com severidade e, no mesmo movimento, sentir orgulho pela vastidão histórica de um povo que ousou mais do que a sua dimensão parecia permitir.

Talvez seja isso que mais falta hoje: pensamento adulto. A capacidade de dizer, sem medo e sem cartilha, que os capitães foram heróicos no seu momento, mas que Portugal anterior a eles não foi apenas uma sombra vergonhosa. Foi uma história imensa, contraditória, por vezes brutal, por vezes sublime, mas grandiosa apesar de tudo. E um povo que perde o direito de admirar criticamente a sua própria memória fica entregue à gestão cinzenta dos pequenos homens, dos burocratas sem imaginação e dos comentadores sem horizonte.

A liberdade, quando é verdadeira, não pede que enterremos a memória. Pede antes que a libertemos do dogma, da propaganda e da cobardia intelectual.

Frase para reflexão : O 25 de Abril libertou Portugal de um regime; não tem o direito de o libertar da sua própria memória.

Francisco Gonçalves — com co-autoria editorial de Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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