BOX DE FACTOS

  • Em 2023, a aviação representou cerca de 2,5% das emissões globais de CO₂ ligadas à energia.
  • No mesmo ano, a aviação emitiu quase 950 milhões de toneladas de CO₂.
  • O primeiro ano da guerra em Gaza terá gerado cerca de 33 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
  • Esse valor é comparável às emissões anuais de 7,6 milhões de carros a gasolina.
  • As emissões militares continuam subreportadas e são um dos grandes pontos cegos da política climática global.

A Juventude, o Carbono e a Hipocrisia do Mundo

Andam muitos jovens a protestar contra os combustíveis fósseis como se tivessem descoberto a raiz absoluta do mal climático — mas esquecem-se de olhar para o céu e, sobretudo, para a guerra.

Vejo muitos jovens a gritarem contra os combustíveis fósseis com a solenidade de quem julga ter encontrado a chave moral do século. Saem à rua, colam-se às estradas, interrompem a vida comum dos outros, e fazem-no com a convicção quase religiosa de que o seu alvo está claramente definido: o petróleo, o automóvel, a gasolina, o consumo. A preocupação é legítima. O problema é a cegueira selectiva.

Porque o mundo não arde apenas na garagem do cidadão comum. Arde também nas pistas dos aeroportos, nas rotas globais do turismo massificado, nas frotas aéreas que cruzam o planeta sem descanso, e — de forma ainda mais brutal — nas guerras, nas máquinas militares, nas cidades bombardeadas, nas reconstruções forçadas e no carbono monstruoso da destruição organizada.

A aviação, por exemplo, não é um detalhe decorativo do capitalismo contemporâneo. É uma das suas grandes artérias fósseis. Em 2023, representou cerca de 2,5% das emissões globais de CO₂ relacionadas com a energia. No mesmo ano, as emissões da aviação atingiram quase 950 milhões de toneladas de CO₂. O céu, para muitos, parece paisagem. Mas é também chaminé.

O carbono invisível da guerra

E depois há aquilo de que se fala pouco demais: a guerra. A guerra não destrói apenas vidas, cidades e futuros. Destrói também o clima. Consome combustível, move colunas logísticas, faz voar caças, rebenta edifícios, exige maquinaria pesada, produz ruínas e depois reclama reconstrução. Cada explosão deixa cadáveres — e deixa também carbono.

O mais recente estudo sobre o primeiro ano da guerra em Gaza estimou cerca de 33 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Trinta e três milhões. Um número colossal. O equivalente aproximado às emissões anuais de 7,6 milhões de carros a gasolina. E, no entanto, quantos jovens activistas colocam a guerra no centro da sua gramática climática? Quantos denunciam com a mesma veemência o carbono do bombardeamento, da devastação, da reconstrução e da indústria militar?

Poucos. Porque isso exigiria um salto de maturidade intelectual. Exigiria perceber que o planeta não está apenas sequestrado pelos hábitos de consumo das populações, mas também por estruturas permanentes de poder, militarização, geopolítica predatória e violência industrializada. E isso já não cabe tão bem num cartaz rápido, nem numa coreografia militante para redes sociais.

O activismo manco

O verdadeiro drama não é a juventude preocupar-se com o clima. Isso é sinal de lucidez. O drama é quando essa preocupação se transforma numa moral simplista e estreita, onde o cidadão comum aparece como pecador principal, enquanto as grandes máquinas do carbono — a aviação global, os exércitos, as guerras, os complexos industriais de destruição — passam discretamente para segundo plano.

Essa assimetria moral não é apenas injusta. É intelectualmente pobre. Um activismo que aponta o dedo à vida quotidiana, mas evita encarar de frente a arquitectura material do poder contemporâneo, é um activismo manco. E um activismo manco dificilmente salvará o mundo, porque não compreende devidamente aquilo que o está a incendiar.

A situação torna-se ainda mais grave quando sabemos que as emissões militares continuam profundamente mal reportadas. O próprio Conflict and Environment Observatory tem alertado que o chamado "military emissions gap" está a agravar-se, com grandes potências militares a não reportarem ou a reportarem de forma incompleta os dados à UNFCCC. Ou seja: uma parte relevante da pegada climática do poder continua mergulhada em nevoeiro estatístico.

E no entanto é ao cidadão que se exige pureza. É ao cidadão que se pede penitência. É o cidadão que deve ser reeducado, vigiado, culpabilizado, moralizado. Como se a crise climática fosse apenas a soma dos pequenos vícios privados, e não também a consequência das grandes engrenagens públicas de destruição, guerra, luxo aéreo e opacidade militar.

Olhar para cima, olhar para o mundo

A juventude faria bem em pensar antes de repetir slogans. Pensar antes de escolher inimigos fáceis. Pensar antes de transformar a culpa climática numa liturgia contra a vida comum, enquanto o céu está saturado de tráfego aéreo e o planeta continua a ser devastado por guerras que deixam atrás de si não só sofrimento humano indescritível, mas também uma montanha de emissões.

Não se trata de desculpabilizar o petróleo nem de ilibar os combustíveis fósseis. Trata-se de exigir inteligência moral. Trata-se de compreender que uma política climática séria não pode ignorar o carbono do poder e fixar-se apenas no carbono do quotidiano. Trata-se de perceber que a verdade é sempre maior do que a palavra de ordem.

Quem quiser mesmo enfrentar a crise climática terá de olhar para cima — para os aviões — e para diante — para os campos de batalha. Terá de olhar para os porta-aviões, para os caças, para os comboios de abastecimento, para os blindados, para as cidades reduzidas a pó e para a loucura de um mundo que continua a produzir morte em escala industrial, enquanto faz sermões sobre reciclagem ao cidadão comum.

Essa é a grande hipocrisia do nosso tempo: moraliza-se o indivíduo, mas tolera-se o carbono monumental da destruição organizada. Faz-se catequese ecológica ao povo, mas cala-se o peso da guerra. Exige-se pureza doméstica, mas oferece-se invisibilidade estatística às estruturas mais brutalmente poluentes do planeta.

Conclusão

Se esta juventude quer verdadeiramente pensar o clima com seriedade, então tem de abandonar a infância moral dos alvos fáceis. Tem de sair da superfície. Tem de compreender que o planeta não está apenas refém do combustível no depósito do carro, mas também do combustível que move impérios, guerras, rotas aéreas, exércitos e ruínas.

Porque não haverá consciência climática adulta enquanto o mundo tratar o carbono da guerra como nota de rodapé e o carbono da vida comum como pecado mortal.

Antes de gritarem contra o carbono do cidadão, talvez estes jovens devessem encarar o carbono do poder — o dos aviões, o das guerras e o das máquinas que devastam o mundo enquanto pregam virtudes ao resto da humanidade.

Referências numéricas

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