A Europa a querer alimentar o Crocodilo

Alimentar o Crocodilo
Há uma diferença nobre entre diplomacia e apaziguamento. A diplomacia tenta evitar a guerra sem abdicar da lucidez. O apaziguamento, pelo contrário, tenta comprar tempo à custa da verdade. E quando o interlocutor é um regime que ameaça rotas marítimas vitais, usa milícias como prolongamento da sua vontade regional e continua rodeado de suspeitas sobre o seu programa nuclear, a fronteira entre prudência e ilusão torna-se perigosamente ténue.
A Europa, pela voz de responsáveis como Kaja Kallas, insiste numa saída diplomática e na necessidade de reabrir o Estreito de Ormuz. Os líderes europeus pediram mesmo uma moratória sobre ataques a infra-estruturas energéticas e hídricas no Médio Oriente. Emmanuel Macron exigiu ao Irão o fim dos ataques regionais, directos ou por proxies, e a restauração da liberdade de navegação. Tudo isto, em si mesmo, não é indigno; é compreensível. O problema nasce quando esta linguagem não vem acompanhada de uma capacidade credível de dissuasão. Aí, a diplomacia deixa de ser instrumento de paz e passa a ser linguagem de impotência. 0
Entretanto, a realidade não espera pelos comunicados europeus. A Agência Internacional de Energia Atómica continua a exigir transparência e verificações robustas sobre o material altamente enriquecido e sobre instalações subterrâneas iranianas. Ao mesmo tempo, a tensão em torno de Ormuz agravou-se, com ameaças que colocam em risco uma das artérias energéticas mais sensíveis do planeta. Quando a Europa responde a isto apenas com apelos, sem arquitectura séria de força, passa a imagem de um continente que ainda imagina poder domesticar predadores com a música suave das conferências. 1
O grande drama europeu não está apenas na sua preferência pela diplomacia. Está na ilusão de que a diplomacia, por si só, substitui a força, a vigilância e a clareza moral. A História já ensinou mais do que uma vez que regimes agressivos interpretam concessões vagas não como gestos de civilização, mas como sinais de fraqueza. Alimentar um crocodilo na esperança de que ele se torne vegetariano nunca foi uma estratégia; foi sempre apenas uma forma lenta de suicídio político.
Se a Europa quer paz, tem de compreender uma verdade antiga e austera: a paz não nasce de sorrir ao predador, nasce de lhe mostrar que morder terá um preço. Tudo o resto são hinos à ingenuidade, recitados à beira do abismo.
Referências
- Reuters — EU seeks diplomatic solution for Hormuz Strait, Kallas says, 17 de Março de 2026.
- Reuters — EU leaders call for moratorium on strikes against energy and water facilities in Middle East, 19 de Março de 2026.
- Reuters — France's Macron urges Iran to cease regional attacks, restore Hormuz navigation, 15 de Março de 2026.
- Reuters — EU's Kallas spoke with Iran's foreign minister on Sunday, official says, 22 de Março de 2026.
- Reuters — Iran threatens to retaliate against Gulf energy and water after Trump ultimatum, 22 de Março de 2026.
Uma civilização que confunde prudência com submissão acaba, mais cedo ou mais tarde, a descobrir que o crocodilo também sabe entrar nos salões.