A “economia” contemporânea confunde-se com poder financeiro e dívida perpétua

- Tese: a "economia" contemporânea confunde-se com poder financeiro e dívida perpétua.
- Imagem central: o chicote antigo foi trocado por gravatas, relatórios e linguagem mansa.
- Acusação: a dívida torna-se instrumento de captura dos Estados por predadores sem rosto.
- Metáfora: um casino global onde os pobres perdem sempre e os ricos ganham mais.
- Tom: lírico, satírico, implacável.
O Casino Global: a Dívida como Chicote e a Gravata como Corrente
Mudámos de século, mas não mudámos de instinto: continuamos a chamar "ciência" ao que, demasiadas vezes, é apenas usura com diploma. A economia mundial — essa palavra grande, que se veste de neutralidade e se senta em conferências — comporta-se por vezes como uma religião laica, com os seus profetas, os seus templos e o seu latim técnico. E nós, o povo, assistimos na nave central, de olhos baixos, enquanto no altar se consagra a nova hóstia: a dívida.
Houve tempos em que a usura era vista como pecado. Não por romantismo medieval, mas por intuição simples: quando o dinheiro passa a parir dinheiro sem trabalho, sem risco real, sem criação de valor humano, nasce um poder parasitário — e esse poder, cedo ou tarde, exige o corpo inteiro da sociedade como garantia. Hoje, porém, a usura não é pecado: é produto. É "instrumento financeiro". É "engenharia". A moral foi substituída por terminologia, e a terminologia — como sabemos — serve muitas vezes para esconder o que seria indecente dizer em português claro.
A dívida: a coleira invisível
Os países contraem dívidas cada vez maiores, e o mais inquietante não é apenas o número — é a dependência. Porque quem deve, obedece. Quem deve, ajoelha. Quem deve, "reforma" quando mandam. E a palavra "reforma" é aqui um perfume: cheira a futuro, mas esconde um velho mecanismo de extracção.
O Estado, que deveria ser casa comum, torna-se fiador de um jogo que não controla. E quando a casa se torna fiadora, o povo torna-se penhor. É aí que a democracia começa a parecer uma vitrina: bonita por fora, mas com a porta trancada por dentro.
Os predadores sem rosto e os especialistas do mal
Antigamente, a exploração tinha nomes, tinha caras, tinha capatazes. Hoje é mais elegante: tem fundos, agências, "mercados", relatórios com capa branca e frases suaves. O predador moderno é frequentemente anónimo, e por isso mais perigoso: não se pode olhar-lhe nos olhos, não se pode envergonhá-lo, não se pode pedir-lhe humanidade — porque ele não se apresenta como pessoa, mas como "necessidade do sistema".
E, ao lado dele, surgem os peritos: homens de gravata multicolor, senhoras de voz serena, especialistas em tornar o inevitável plausível. Eles não dizem "vamos empobrecer-vos"; dizem "é uma consolidação". Não dizem "vamos cortar futuro"; dizem "ajustamento". Não dizem "isto é uma chantagem"; dizem "condicionalidade". A escravidão do chicote virou escravidão de palavras mansas.
O casino: onde os pobres perdem sempre
Chamam-lhe "economia global", mas há dias em que se parece mais com um grande casino, onde a roleta já vem viciada de fábrica. Aos pobres pede-se prudência; aos ricos oferece-se alavancagem. Aos pobres pede-se sacrifício; aos ricos garante-se resgate. Aos pobres exige-se "responsabilidade"; aos ricos concede-se "criatividade financeira".
E o mais extraordinário é que este casino tem padres: dizem-nos que é assim que o mundo funciona, que não há alternativa, que a realidade é dura, que o adulto aceita. Mas a verdade é mais simples: isto não é natureza — é arquitectura. E uma arquitectura construída por predadores não serve para abrigar o povo — serve para o manter dentro, quieto, pagador e culpado.
Quando o povo assina a própria corrente
O drama final é este: os povos endividam-se também por cansaço, por medo, por falta de tempo, por exaustão de lutar contra uma máquina que fala em "prazos", "metas" e "inevitabilidades". E assim, pouco a pouco, a liberdade torna-se uma prestação mensal. A soberania torna-se uma nota de rodapé. E o futuro passa a ser uma promessa hipotecada.
Mas há uma saída que começa sempre do mesmo lugar: chamar as coisas pelo nome. Há momentos em que a lucidez é o primeiro acto de insurreição. Porque um povo só é eternamente escravo quando aceita que a corrente é um colar de flores.
O chicote morreu; ficou a prestação.