Workshops contra cheias: o novo milagre nacional da desresponsabilização

- Frase-tipo: "as populações devem ter formação para estarem melhor preparadas para eventos extremos".
- Problema: a "formação" aparece como substituto da prevenção estrutural — e não como complemento.
- Realidade: cheias e fogos agravam-se com ordenamento falhado, infraestruturas frágeis, fiscalização insuficiente e desigualdade.
- Tradução: quando o Estado falha, a culpa passa a ser do cidadão por não ter feito "workshop".
- O que seria sério: investimento em prevenção + resposta eficaz + informação pública simples e acessível.
Workshops contra cheias: o novo milagre nacional da desresponsabilização
Há um momento em que a linguagem institucional deixa de ser linguagem e passa a ser insulto. É quando alguém, ligado ao poder, explica com ar pedagógico que "as populações devem ter formação" para lidarem com cheias e fogos — como se o problema central fosse falta de PowerPoints na aldeia e não falta de prevenção no Estado.
Atenção: informação pública é útil. Ensinar procedimentos de evacuação, interpretar alertas, preparar um plano familiar, saber como agir nas primeiras horas — tudo isso salva vidas. Mas isto é o cinto de segurança, não é o travão. E o que nos estão a vender, com a delicadeza de quem já se habituou ao cinismo, é a ideia de que o cinto compensa a ausência de travões.
O truque retórico: transformar falha estrutural em "culpa individual"
O país não arde por ignorância. O país arde porque há território mal gerido, mosaico florestal descontrolado,limpezas inexistentes, linhas corta-fogo esquecidas, fiscalização frouxa, urbanização em zonas de risco e uma cadeia de decisão que muitas vezes chega tarde.
O país não inunda por falta de "formação". Inunda porque há linhas de água entupidas, drenagens insuficientes,infraestruturas envelhecidas, impermeabilização do solo, obras sem planeamento, e, sobretudo, porque a pobreza empurra gente para sítios onde o risco é mais barato do que a renda.
Dizer a quem vive no limite que "devia estar preparado" é um luxo moral. É como dizer ao náufrago: "devia ter aprendido a nadar", enquanto o barco continua com buracos.
A desigualdade também é uma catástrofe natural — criada por humanos
Há quem possa "preparar-se": seguro multirriscos, obras de prevenção, bombas, válvulas anti-retorno, geradores, carro para evacuar, tempo para tratar do que é preciso, acesso a informação e a meios. E há quem não possa.
Para muitos, "preparação" é uma palavra bonita para um mundo inacessível. Quando a política diz "formação", frequentemente quer dizer: cada um que se safe por si próprio.
O que seria sério: prevenção pública antes da pedagogia mediática
Um Estado decente começa pelo básico: prevenir. Ordenamento do território, manutenção de linhas de água, drenagens, infraestruturas, mosaico florestal, fiscalização, meios de resposta, sistemas de alerta e evacuação operacionais, planos locais testados, e responsabilização quando falha.
Depois, sim: informação clara e contínua — não como desculpa, mas como complemento. A formação é útil quando o Estado faz a sua parte. Sem isso, é apenas um exercício de marketing para a tragédia.
Epílogo: num país que falha, a culpa é de quem não fez "workshop"
A nova pedagogia nacional é simples: quando o fogo sobe a serra e a água entra pela casa dentro, a culpa não é de décadas de negligência, é do cidadão por não ter feito um curso. E assim se governa sem governar: transfere-se a responsabilidade para o povo, embrulha-se em tecnicidade, e segue-se em frente. E entretanto não se esquecem de colectar os impostos todos.
Só que o povo já percebeu. E quando o povo percebe, a retórica deixa de ser explicação — passa a ser provocação.
Eça não precisava de prever o futuro: bastou-lhe descrever o presente. O problema é que Portugal insistiu em ficar na mesma página.
Crónica editorial para Fragmentos do Caos — Co-autoria por Augustus Veritas.