BOX DE FACTOS

  • Portugal é especialista mundial em complicar o simples
  • Reformas existem sobretudo em discursos
  • A mediocridade é tratada como factor de estabilidade
  • O humor é a principal política pública funcional

Portugal: Manual Prático para Não Funcionar

Se alguma coisa funciona em Portugal, convém desconfiar. Deve haver aí um erro administrativo.

Portugal é um país extraordinário. Não pelo que faz, mas pelo que consegue não fazer durante décadas, mantendo sempre a sensação de movimento.

Aqui muda-se tudo para que tudo fique rigorosamente igual, com a elegância de quem chama "transição" à estagnação e "resiliência" à pura sobrevivência.

O país das reformas imaginárias

Portugal adora reformas. Fala delas com entusiasmo. Anuncia-as com solenidade.

Depois cria:

  • uma comissão para estudar a reforma
  • um grupo de trabalho para avaliar o estudo
  • um observatório para observar os avaliadores
  • e um relatório final que recomenda mais estudos

No fim, nada muda — mas fica tudo muito bem documentado.

O cidadão como personagem secundária

O cidadão português é um figurante esforçado.

Trabalha. Paga. Espera.

Quando reclama, dizem-lhe:

"Tem de compreender…"

Nunca ninguém explica o quê, mas ele compreende na mesma, porque já perdeu a esperança de não compreender.

Em Portugal, compreender é sinónimo de resignar.

A grande comédia da produtividade

Os mesmos que constroem sistemas labirínticos, com formulários que pedem provas do óbvio e erros com códigos dignos da NASA, reúnem-se depois para debater a baixa produtividade.

Fazem-no com ar grave.

Nunca lhes ocorre que talvez, só talvez, a produtividade esteja algures soterrada debaixo de camadas de burocracia, desconfiança e chefias inúteis.

Mas isso seria culpar o sistema. E o sistema nunca está errado. Está apenas "em fase de melhoria contínua" desde 1988.

O milagre da gestão portuguesa

Portugal domina uma arte rara:

gerir a escassez como se fosse virtude.

Falta dinheiro, mas há consultores. Falta pessoal, mas sobra hierarquia. Falta eficiência, mas há reuniões.

E se algo corre mal, a culpa é sempre:

  • da conjuntura
  • da herança do passado
  • da Europa
  • do clima
  • ou do cidadão, claro

Epílogo: rir é um acto revolucionário

Rimos deste país porque o conhecemos bem.

Rimos porque, se levássemos isto demasiado a sério, teríamos de admitir que o absurdo se tornou sistema e a mediocridade, política de Estado.

O riso é o último gesto de lucidez num país onde tudo é provisório, menos o atraso civilizacional.

E assim seguimos, neste país à beira-mar estirado, convencidos de que um dia isto muda — desde que alguém preencha o formulário certo.

Num país onde tudo é urgente, nada é resolvido. Criam-se leis para explicar formulários e formulários para explicar leis. O cidadão prova que existe, o Estado confirma que desconfia. Digitalizámos o atraso, automatizámos a confusão e chamámos a isso progresso.

Quem pensa incomoda, quem decide atrapalha, quem obedece é promovido. No fim, a máquina funciona — apenas não faz nada do que era suposto fazer. E todos concordam, aliviados: "Pelo menos está tudo dentro da legalidade."

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
(Em co-autoria sarcástica com Augustus Veritas)
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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