SNS: Quando se Digitaliza o Passado e se Chama Progresso

BOX DE FACTOS
- O SNS utiliza dezenas de sistemas informáticos não integrados.
- Análises clínicas continuam dependentes de processos manuais.
- Muitos workflows são heranças directas dos anos 80.
- A digitalização não redesenhou processos — apenas os copiou.
- O custo da ineficiência mede-se em tempo, dinheiro e sofrimento.
SNS: Quando se Digitaliza o Passado e se Chama Progresso
O problema do Serviço Nacional de Saúde não reside apenas na falta de médicos, na escassez de recursos ou na pressão demográfica e na gestão competente. Esses são sintomas visíveis. A doença verdadeira é mais profunda — e mais silenciosa.
O SNS sofre de um mal estrutural: transportou para o mundo digital os mesmos formulários, os mesmos circuitos e os mesmos rituais administrativos dos anos 80.
Não houve reinvenção. Houve fotocópia.
A informática como verniz institucional
Em Portugal, informatizar nunca significou repensar. Significou apenas substituir o papel por um ecrã.
Onde antes havia um impresso em triplicado, passou a existir um formulário online em seis separadores. Onde havia um carimbo, existe agora um botão azul.
A burocracia não desapareceu — ganhou Wi-Fi.
Criaram-se plataformas que não comunicam entre si, bases de dados que não se cruzam, históricos clínicos fragmentados e profissionais transformados em digitadores de luxo.
O médico deixou de olhar para o doente para poder alimentar o sistema.
O caso das análises: o retrato perfeito do absurdo
O alerta recente de António José Seguro, sobre as análises de sangue no SNS é apenas a ponta do iceberg.
Uma análise clínica deveria ser informação viva: histórico, tendência, contexto, alerta automático, correlação com exames anteriores.
Mas no SNS continua a ser tratada como um papel digitalizado:
- é pedida manualmente;
- é enviada como ficheiro isolado;
- é descarregada;
- é reenviada;
- e muitas vezes repetida… porque ninguém a encontra.
Tecnologia de 2026. Mentalidade de 1986.
O erro original: nunca se redesenhou o sistema
O SNS não foi construído por arquitectos de sistemas de saúde. Foi remendado por consultoras administrativas, cadernos de encargos antiquados e decisões políticas sem visão tecnológica.
Nunca se perguntou:
"Como deve funcionar um sistema de saúde no século XXI?"
Perguntou-se apenas:
"Como passamos isto para o computador?"
E assim nasceu o maior equívoco da administração pública moderna:
um sistema mal desenhado informatizado torna-se apenas um erro à velocidade da luz.
O futuro existe — só não entra no edifício
Hoje já existem:
- registo clínico único e longitudinal;
- interoperabilidade por APIs;
- monitorização remota;
- exames portáteis;
- IA de apoio diagnóstico;
- alertas preditivos;
- automação clínica real.
Nada disto é ficção científica. Tudo isto é rotina noutros países.
O que falta não é tecnologia.
Falta coragem.
Conclusão: um passado com interface moderna
Portugal construiu hospitais do século XXIba funcionar com processos do século XX governados por mentalidades do século XIX.
Chamou progresso à digitalização do atraso. Chamou modernização à informatização do erro.
E enquanto continuarmos a transformar formulários velhos em PDFs bonitos, o SNS continuará a gastar milhões para fazer exactamente o mesmo — só que mais lento,bmais caro e mais desumano.
Porque o futuro não se instala por software.
Constrói-se com visão.
Co-autoria de Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — Onde o pensamento não aceita formulários herdados.