Portugal, Roda Viciada: Um País Entre Rifas e Rifões

- Imagem central: Portugal como "roda da sorte" — mas viciada, onde o prémio cai sempre nos mesmos.
- Diagnóstico: captura do poder, continuidade cultural do favor e da obediência, com "democracia" muitas vezes reduzida a cenário.
- Ferida moral: a normalização do absurdo e a resignação social como combustível do sistema.
- Citação-chave: Miguel Torga (1949) — "Não há pensamento onde não há liberdade."
- Origem do texto: notas pessoais (eco de 31 Dez 2013), retrabalhadas em registo editorial.
Portugal, Roda Viciada: Um País Entre Rifas e Rifões
O meu país — sem culpa — já não passa de uma roda gigante por entre rifas e dos rifões. Uma feira antiga, com luzes acesas e música alta, enquanto por trás do pano se contam moedas e se distribuem lugares marcados. Chamam-lhe "roda da sorte", como quem oferece esperança em embrulho colorido. Mas há uma diferença entre esperança e mecânica: a primeira é humana; a segunda é programada.
De facto, isto já não é sequer um país: é um mecanismo. Uma engrenagem onde o povo empurra e outros contam as voltas. Onde se trabalha o dia inteiro para assistir à noite aos mesmos discursos — e se paga o bilhete com a própria vida. A roda gira, mas não avança. Faz barulho, mas não produz futuro.
A continuidade do velho disfarçada de novo
Portugal é, demasiadas vezes, um país governado por Marcelos e Salazares — não necessariamente pelos homens, mas pela arquitectura que deixaram:bo medo como disciplina, o favor como moeda, a obediência como virtude e a crítica como pecado social. O século mudou, sim. A lógica ficou.
O povo "melhor do mundo" — e o preço dessa paciência
Suportar esta ignomínia em pleno século XXI só mesmo o "melhor povo do mundo" tem paciência para tal — esse povo que aguenta tudo, paga tudo, cala tudo, e ainda se sente culpado por existir. E quando alguém protesta, aparece sempre a velha canção: "É assim", "Sempre foi", "Não vale a pena". Três frases: um cadeado.
Torga: quando falta liberdade, o pensamento encolhe
Miguel Torga, em 1949, deixou um aviso que não perdeu validade — apenas ganhou pó: "Não há pensamento onde não há liberdade." Séculos de opressão e de intolerância não se apagam com eleições; deixam marcas no músculo do raciocínio. Um povo cujos intelectuais "raciocinam sempre a fazer figas": pensa, mas pede desculpa; vê, mas baixa os olhos; sabe, mas engole.
A roda viciada: quem a mantém a girar?
Portugal tornou-se, por demasiadas mãos e demasiados silêncios, um lugar amoral, desonesto e inacreditável — com terroristas de gravata a quem chamam políticos, e com uma assistência treinada para a resignação. O detalhe mais duro não é a existência dos predadores: é a normalização da caça. O assentimento colectivo raramente é alegria; é, quase sempre, fadiga.
Epílogo: o futuro não nasce em feiras — nasce em ruptura
Uma nação não se mede pelo número de votos, mas pela qualidade da coragem. E coragem é isto: olhar a roda e dizer "não jogo mais". Porque um país que aceita a fraude como normalidade acaba, inevitavelmente, a chamar "destino" ao que é apenas um esquema. Quando a roda pára, começa a história.