BOX DE FACTOS

  • O Governo criou uma Estrutura de Missão para coordenar a recuperação das zonas afectadas pela depressão/tempestade Kristin.
  • A estrutura ficará sediada em Leiria e terá horizonte de funcionamento de vários anos.
  • Paulo Fernandes foi indicado para liderar essa estrutura; é conhecido pelo seu percurso na administração local (Fundão).
  • Foram anunciados apoios públicos de grande escala para a resposta e reconstrução.

Paulo Fernandes na Calamidade: Quando o Governo Confunde Coordenação com Política

A tragédia pede comando, método e botas no terreno. Portugal responde com uma "estrutura", um nome e um anúncio.

O Governo decidiu nomear Paulo Fernandes para liderar a chamada Estrutura de Missão criada para a recuperação das zonas afectadas pela tempestade Kristin. A notícia foi apresentada como solução: alguém "a coordenar", um gabinete em Leiria, um plano "para os próximos anos". E, como sempre, a palavra "coordenação" foi usada como se fosse sinónimo de "acção".

Convém dizer o óbvio: o problema não é o homem. O problema é o padrão. Portugal tem um vício crónico: perante a calamidade, cria-se uma estrutura; perante o caos, cria-se um organograma; perante a urgência, cria-se uma cadeira com um nome. A máquina do Estado, quando devia ser músculo, transforma-se em papel.

O que está em causa não é liderança — é natureza de liderança

Uma calamidade prolongada exige comando operacional e engenharia de emergência. Não exige um "gestor de articulações". Exige capacidade de decidir em horas, de mobilizar meios em minutos, de montar cadeias logísticas, de impor prioridades no terreno e de medir resultados diariamente.

A pergunta que fica não é "Paulo Fernandes é competente?" — isso é secundário. A pergunta é: por que razão, num cenário desta gravidade, a escolha política é um perfil de administração local e não um modelo de comando operacional com autoridade real sobre recursos, meios e execução?

A Estrutura de Missão: o nome bonito para o velho truque

Em Portugal, "Estrutura de Missão" tornou-se um instrumento confortável: cria-se um centro intermédio entre o Governo e o desastre — e com isso ganha-se tempo, dilui-se responsabilidade, e compra-se espaço mediático.

O Governo anuncia: "há alguém a tratar". As populações perguntam: "mas quem está a fazer?" E a distância entre tratar e fazer é exactamente o abismo onde Portugal cai há décadas.

Sem autoridade e métricas, isto será mais um teatro

Se esta nomeação vier acompanhada de:

  • autoridade efectiva para mobilizar meios e decidir prioridades, sem meses de pareceres;
  • equipa técnica (engenharia, logística, protecção civil, contratação pública de emergência);
  • metas públicas (ex.: "X telhados provisórios em 72 horas", "Y estradas desobstruídas em 7 dias");
  • relatórios semanais com números, prazos e execução;
  • compras transparentes e auditáveis, com excepções justificadas;

então a Estrutura de Missão pode ser útil. Caso contrário, será apenas mais um dispositivo para governar por anúncio, tal como o foi, e é, a Direcção Executiva do SNS e um Juiz a tratar da corrupção de una única Entidade do Estado - O SNS. Apenas organogramas e anúncios. Não irão mudar NADA!

O pecado original: preferir a política ao comando

Uma calamidade não se resolve com articulações. Resolve-se com execução. E execução exige um Estado que saiba actuar como Estado: rápido, vertical, competente e presente.

A nomeação de um dirigente para uma estrutura sediada em Leiria pode ser um gesto administrativo. Mas o país não precisa de gestos. Precisa de telhados. Precisa de estradas. Precisa de protecção. Precisa de obra.

Porque quando a política entra na calamidade como substituto da acção, acontece sempre o mesmo: os gabinetes enchem-se, as conferências multiplicam-se… e o povo continua ao relento.

Conclusão: ou isto é comando… ou é mais uma desculpa

Se Paulo Fernandes for colocado a liderar um sistema com autoridade, meios e metas mensuráveis, terá uma oportunidade de provar serviço. Se for colocado apenas para "coordenar" o que ninguém executa, então será mais um nome numa lista longa de nomes usados para adiar a verdade.

E a verdade é simples: em tempo de calamidade, o Estado não se anuncia — faz-se.


Francisco Gonçalves
com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde "coordenação" sem execução é apenas uma palavra cara.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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