Oráculo do Travão de Mão

O Oráculo do Travão de Mão
Carlos Tavares continua a ser tratado, em certos palcos, como se descesse do Sinai com tábuas de eficiência industrial debaixo do braço. E, no entanto, o fim do seu ciclo de gestão ficou marcado por uma travagem a fundo: resultados a cair, tensões estratégicas no topo, mercado desconfiado. No mundo real, os números falam baixo mas não mentem; no teatro mediático, a lenda fala alto e raramente pede auditoria.
A frase sobre Portugal — "motor potente com travão de mão puxado" — é brilhante como slogan e conveniente como metáfora. Serve para conferências, manchetes e aplausos rápidos. O problema é que a retórica, por si só, não paga facturas, não corrige decisões industriais falhadas e não transforma um desfecho turbulento em epopeia de sabedoria. Há gestores que entregam resultados e há gestores que entregam frases. Os raros fazem ambas as coisas no mesmo trimestre.
Talvez esta seja a verdadeira doença do nosso tempo: confundir notoriedade com lucidez, e exposição com verdade. Um gestor pode ser excelente numa fase e desastroso noutra — sem deixar de ser humano, sem virar génio ou vilão absoluto. Mas quando o culto da personalidade substitui o escrutínio, a economia vira palco, a análise vira liturgia, e o "travão de mão" deixa de estar no carro: passa a estar na cabeça de quem se recusa a olhar para os dados.