BOX DE FACTOS

  • Há Estados que perseguem, silenciam e esmagam o seu próprio povo.
  • Nesses casos, a linguagem diplomática "normal" pode tornar-se normalização do horror.
  • Protocolo sem ética pública transforma-se em maquilhagem do poder.
  • A dignidade humana deve preceder qualquer etiqueta institucional.

Quando o Protocolo Lava o Sangue

A história julga duramente os que chamaram "cortesia" àquilo que era cobardia.

Há uma fronteira moral que nenhuma diplomacia deveria atravessar: a fronteira entre falar com um Estado e legitimar, pelo tom, a violência desse Estado. Quando o poder internacional oferece fórmulas calorosas a regimes que humilham o próprio povo, não está apenas a "cumprir protocolo" — está a ensinar ao mundo que o mal pode ser tratado como rotina.

A banalidade do mal não começa nas prisões. Começa nas palavras. Começa quando o sofrimento de milhares é reduzido a nota de rodapé e a linguagem oficial finge que tudo é normal, civilizado, administrável. Não é.

Diplomacia não é absolvição

Falar com todos pode ser necessário. Fechar canais nem sempre resolve conflitos. Mas há uma diferença clara entre manter canais e oferecer verniz moral. O protocolo deve servir a paz, não a amnésia ética.

Se a diplomacia perde a memória das vítimas, deixa de ser diplomacia: torna-se liturgia burocrática de um mundo sem coluna vertebral.

A inversão perigosa

O que estamos a ver demasiadas vezes é a hierarquia invertida: primeiro a etiqueta, depois a verdade; primeiro o cargo, depois a consciência; primeiro a fotografia, depois os mortos.

E quando essa inversão se repete, instala-se o pior costume político: chamar "equilíbrio" ao silêncio e "responsabilidade" ao recuo moral.

Uma regra simples para tempos difíceis

Em qualquer comunicação oficial sobre regimes opressores, devia haver uma cláusula de humanidade: sem eufemismos, sem adereços, sem frases que possam ser lidas como aplauso. A linguagem institucional não pode ser lavandaria da violência.

Porque cada palavra pública de uma grande instituição é também um sinal para os que sofrem: "vemos-vos" ou "esquecemo-vos". Não há terceira via.

Epílogo

Não, não há protocolo que resista ao sangue de inocentes. Quando o mal extremo é tratado como formalidade, o mundo não fica mais estável — fica mais cínico. E o cinismo, quando entra nos palácios, acaba sempre por bater às portas das pessoas comuns.

Dar cobertura moral ao mal é participar na sua continuidade.
- Francisco Gonçalves
Francisco Gonçalves • Coautoria editorial com Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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