BOX DE FACTOS
  • Promessa política: revisão da lei do Tribunal de Contas "até ao Verão".
  • Alvo declarado: reduzir/terminar o visto prévio, o controlo antes do acto produzir efeitos.
  • Narrativa oficial: o Tribunal "substitui-se" à administração e "paralisa" decisões.
  • O risco real: trocar prevenção por "responsabilização depois" — quando o dinheiro já saiu e o contrato já amarrou.
  • Pergunta que importa: quem ganha mais com um Estado a correr sem freio — o investimento sério ou o oportunismo com gravata?

O Tribunal de Contas no Caminho?
Quando a "Reforma" é Só uma Tesoura no Freio

Há frases que cheiram a modernidade e sabem a impunidade.
"Isto vai deixar de acontecer", diz-se, com a serenidade de quem está a deslocar a fechadura da porta — não para abrir o País, mas para facilitar a entrada.

1) A história que nos contam: "o Tribunal paralisa"

O ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, surge com a promessa: rever a lei do Tribunal de Contas até ao Verão, porque o Tribunal, diz ele, "exerce uma função que não é própria" e "substitui-se à administração e à decisão política". A ideia é sedutora: libertar as mãos dos decisores, dar velocidade, cortar "papelada". Quem não gosta de velocidade, sobretudo quando o País vive em atraso crónico?

Só há um pequeno detalhe: há velocidades que exigem travões. E o Estado, sem travões, não se torna moderno — torna-se vulnerável. Porque quando o poder se queixa de fiscalização, raramente está a pedir eficiência; muitas vezes está a pedir silêncio.

2) O visto prévio: o freio antes do precipício

O visto prévio não é um capricho: é um mecanismo que, em certos actos e contratos, procura garantir legalidade e cabimento antes de o compromisso se tornar irreversível. É a diferença entre:

  • Prevenir a perda — antes de existir;
  • Chorar a perda — depois de existir, com relatórios, auditorias e indignações tardias.

E aqui o País tem memória: contratos, obras, aditamentos, "urgências" recorrentes, ajustes directos em série — e a eterna arte de transformar o excepcional em rotina. Retirar o freio não resolve a estrada esburacada; apenas permite que o carro chegue mais depressa ao muro.

3) "Depois responsabiliza-se" — a poesia oficial da impunidade

Diz-se: deixem decidir "tranquilamente"; depois, se violarem a lei, serão responsabilizados. É um argumento que soa bem num auditório e mal numa repartição do mundo real. Porque a "responsabilização" depois tem um problema estrutural: chega tarde.

Tarde quando o contrato já foi executado. Tarde quando o dinheiro já se evaporou. Tarde quando a obra já está de pé, e a demolição é politicamente impossível. Tarde quando o decisor já mudou de gabinete, e a culpa se dissolveu em comissões, pareceres e assinaturas em cadeia.

Um Estado saudável não escolhe entre "paralisar" e "deixar passar". Um Estado saudável faz o que é mais raro em Portugal: regras claras, prazos curtos, controlo inteligente e total transparência.

4) A reforma séria: acelerar sem desarmar

Se o problema é morosidade, então reforme-se com bisturi, não com machado. Eis o que uma reforma decente teria, em vez de um simples "isto vai acabar":

  1. Visto prévio por risco: manter para contratos de alto valor, urgências repetidas, ajustes directos recorrentes, aditamentos suspeitos.
  2. Prazos máximos obrigatórios: o controlo não pode ser um labirinto sem relógio.
  3. Transparência radical: contratos, aditamentos, subcontratos, cronologias e decisões publicados automaticamente e legíveis.
  4. Clarificação normativa: reduzir o "medo de assinar" com regras simples, objectivas e auditáveis.
  5. Auditoria orientada por dados: seleccionar onde dói mais — em vez de fiscalizar por hábito.

Repare na diferença : isto acelera e não abre a porta à ladroagem elegante. O resto é conversa.

5) A pergunta que os jornais deviam estampar em letras de ferro

Quem beneficia mais com o fim do controlo prévio?

Se a resposta for "o cidadão", então veremos mais transparência, mais prazos, mais dados públicos, mais responsabilização real e rápida. Se a resposta for "o sistema", então veremos exactamente isto: a pressa de afastar quem fiscaliza — e o discurso de que a fiscalização "atrapalha".

Epílogo: quando o freio é o inimigo, o precipício é o aliado

Há uma frase que devia ser ensinada nas escolas e afixada em todas as câmaras municipais: o dinheiro público não é "de ninguém" — é de todos. E quando alguém quer menos travões, não é porque confia mais no País; é porque quer que o País confie menos nos seus próprios mecanismos de defesa.

A democracia não morre apenas com tanques. Morre, muitas vezes, com decretos e sorrisos: retirando, peça a peça, as engrenagens que incomodam o poder. Primeiro o controlo; depois a vergonha; por fim, a conta — sempre paga pelos mesmos.

Artigo de Opinião crítica de :
Francisco Gonçalves
com co-autoria Editorial de :Augustus — Fragmentos do Caos News Team

Referências e leituras (Portugal e internacional)

Frase final
Quando o poder chama "entrave" ao freio, não está a pedir reforma — está a pedir estrada livre para a festa da noite.
E se a ideia for mesmo "para ver se se acalmam", o antídoto que mais incomoda não é um sermão: é um pacote simples e brutalmente público: contratos e aditamentos em tempo real + prazos curtos + auditorias por risco + consequências rápidas. Quando o sol entra, as baratas não fazem debates. Dispersam.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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