BOX DE FACTOS

  • A confiança nos partidos políticos surge baixa em dados de Eurobarómetro (ordem dos 18 por cento).
  • Estudos divulgados em Portugal apontam níveis elevados de desconfiança no Parlamento.
  • Organizações internacionais classificam Portugal como democracia livre, mas referem corrupção como preocupação recorrente.
  • Há processos mediáticos de corrupção/colisão política-negócio com anos de arrastamento, alimentando percepções de impunidade.
  • O sistema partidário tradicional tem sido pressionado por maior fragmentação nos últimos ciclos eleitorais.

O País Formatado: Porque a Mudança em Portugal Parece Sempre Impossível

Há povos que mudam quando sofrem. Portugal, muitas vezes, sofre… e defende a causa do sofrimento como se fosse o seu clube.

Digo : "Dá para acreditar?". Dá. Porque isto não é apenas política. É psicologia colectiva e de massas. É sobrevivência. É identidade. É medo.

Há uma classe média numerosa que vive cansada, encostada ao salário, a equilibrar-se entre contas e remendos, e mesmo assim continua a defender o sistema partidário que, com rotações e variações, tem governado o país durante décadas. Não o defende porque esteja a viver num paraíso; defende-o porque teme o abismo do desconhecido. E quando a vida está no limite, o desconhecido parece sempre pior do que o mau conhecido.

O tribalismo: a política como identidade e não como avaliação

"Quem não está comigo está contra mim." Esta frase, que devia pertencer a seitas, entrou na rotina cívica como se fosse normal. E a partir daqui acabou a conversa racional: já não se discutem resultados, discutem-se bandeiras e na maioria das vezes com insultos, em vez de diálogo e contraditório.

E isto é o segredo sujo da estabilidade portuguesa: a estabilidade não nasce de excelência; nasce de fidelidades. Vota-se para se manter "do lado certo" do grupo, não para exigir obra e resultados mensuráveis ao poder. O voto torna-se certificado moral — e não contrato de prestação de serviço.

O mito das "conquistas" como escudo do presente

Há conquistas históricas reais e inegociáveis: a liberdade, direitos, fim da censura, eleições livres.
Mas existe também a perversão letal dessa memória: usá-la como argumento para impedir a crítica e o contraditório, para desculpar a mediocridade, para tornar o presente intocável, porque o passado foi um dia, heróico.

Como se disséssemos: "Porque vencemos ontem (1974), não nos avaliem hoje." E assim a celebração vira anestesia. A memória vira álibi. E pior, para as gerações mais novas fica a narrativa da mentira pérfida e perigosa.

Oito e oitenta: a oscilação emocional onde a mudança morre

Quando a literacia cívica é fraca, a política vira futebol emocional: ora fervor, ora ódio. E no meio — onde mora a reforma séria, técnica, trabalhosa — não fica espaço. A mudança real exige método, paciência e vigilância. Exige medir, comparar, exigir, auditar. Exige uma cidadania com nervos e com números.

O problema central: falhar sem pagar

Um sistema que falha durante décadas e continua a ser defendido tem um mecanismo de sobrevivência: a ausência de responsabilização e consequências. Quando a confiança nos partidos é baixa, quando a desconfiança nas instituições cresce, mas nada muda, instala-se um cinismo perigoso: "são todos iguais".

E "é tudo igual" é o sedativo perfeito: desliga o cidadão do dever de exigir. É aqui que a justiça lenta, os processos longos e a sensação de impunidade fazem estragos invisíveis: corroem o pacto social por dentro, devagar, como humidade numa parede antiga. E a democracia com 50 anos, é ja uma parede bem velha, mas que continua imatura e inconsequente.

Porque a reforma se torna quase impossível

A reforma séria ameaça demasiadas pequenas certezas: redes locais, dependências, favores, medos, hábitos. E a classe média, exausta, prefere muitas vezes uma mentira confortável: "pelo menos isto não explode", e muitos deles até "usufruem de mordomias", que pensam não merecer, mas querem manter. Tal é a desigualdade entre cidadãos, que se instalou em Portugal nos pos-Abril, quando o sentido deveria ser contrário.

Só que o país já está a explodir — apenas que em câmara lenta: na habitação, na saúde, na justiça, na resposta a calamidades, na dignidade do trabalho. O sistema não cai de repente; desfaz-se aos bocados. Vai-se esfarelando a cada ano que passa, porque como nada de substancial muda, a entropia vai fazendo o seu inexorável caminho.

Conclusão: o dia em que o voto deixar de ser clube

A ruptura não começa na rua. Começa na cabeça. Quando o voto deixar de ser pertença e passar a ser exigência. Quando a pergunta deixar de ser "de que lado estás?" e passar a ser "o que fizeste, com que resultados, em quanto tempo, com que custo?", e "o que fizeste com tantos milhares de milhões de fundos europeus?"

Enquanto PS e PSD (e as suas órbitas) forem defendidos como identidades e não avaliados como gestores, com obra e resultados equilibrados, a mudança será sempre difícil. Não por falta de ideias — mas por excesso de formatação.

Um país não muda quando troca de governo. Muda quando troca de critério.

Referências


Francisco Gonçalves
Com Coordenação Editorial de Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde a lucidez não pede licença ao clube.
Esta não é uma crónica contra um partido, um governo ou uma geração. É um espelho desconfortável colocado diante de um país que aprendeu a sobreviver ao erro em vez de o corrigir. Enquanto a lucidez for exceção e não regra, a mudança continuará a parecer impossível — mesmo quando já é a única saída. Talvez o primeiro passo não seja derrubar sistemas, mas recuperar algo mais raro: a coragem tranquila de pensar por conta própria. E so isso já é hoje um acto revolucionário, e um começo de liberdade a sério! - Francisco Gonçalves
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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