Discursos do Poder Absurdo : Resiliência Para Quem?

BOX DE FACTOS
- Quando o Estado diz "resiliência", quase sempre quer dizer "aguentem mais um pouco".
- Sem prazos, critérios e execução, "plano" é apenas retórica de conferência de imprensa.
- As vítimas não precisam de slogans: precisam de obras, apoios pagos e prevenção real.
- A verdadeira resiliência mede-se em resultados no terreno, não em palavras no telejornal.
Resiliência Para Quem?
Há palavras que, em Portugal, já chegam gastas ao ouvido. "Plano". "Resiliência". "Recuperação". Soam bem em púlpito institucional, com fundo de bandeiras e voz grave. Mas no chão molhado das casas, nos comércios arruinados, nas caves inundadas, essas palavras parecem uma moeda falsa: brilham ao longe, não compram nada.
"Resiliência" tornou-se, demasiadas vezes, uma forma polida de transferir o custo do desastre para os mesmos de sempre. O Estado adia, o cidadão improvisa. O Estado promete, o cidadão seca lama. O Estado cria siglas, o cidadão cria valas.
A liturgia da incompetência
O ritual repete-se com precisão burocrática: tempestade, visita oficial, frase de circunstância, promessa de plano, fotografia de botas limpas. Depois, regressa o silêncio administrativo: formulários, pareceres, validações, revalidações, e a velha arte nacional de transformar urgência em processo.
A verdade nua é esta: quando o poder pede "resiliência" às populações atingidas, está a confessar, em linguagem elegante, a sua própria falta de capacidade de resposta. Quem perdeu bens, saúde, descanso e segurança não precisa de sermões psicológicos. Precisa de execução.
Quatro perguntas que desmontam a propaganda
1) Plano de quê? Onde estão as obras, os cadernos técnicos, os calendários?
2) Resiliência de quem? Das famílias e PME, ou da carreira política de quem falhou?
3) Dinheiro para quem primeiro? Para o terreno ou para o labirinto da intermediação?
4) Resultado quando? Em semanas, meses, ou na eternidade da papelada?
Resiliência não é slogan: é arquitectura pública
Um país sério não pede heroísmo civil em cada temporal. Um país sério faz o trabalho antes do desastre: cartografia de risco, drenagem, manutenção, redundância energética, protocolos de emergência, apoio rápido e automático às vítimas.
Resiliência verdadeira é isto: menos danos no próximo Inverno, menos famílias em ruptura, menos empresas a fechar, menos território abandonado. O resto é literatura de gabinete.
Epílogo sem eufemismos
Não peçam resiliência a quem já vive no limite. Exijam-na ao Estado. Porque a única resiliência que interessa em democracia é a capacidade de proteger o povo antes, durante e depois da tempestade. Tudo o resto é teatro.