BOX DE FACTOS

  • Portugal teve alternância partidária, mas pouca transformação estrutural.
  • A confiança dos cidadãos no sistema político degradou-se com promessas repetidas e resultados curtos.
  • Habitação, justiça, saúde, salários e produtividade permanecem bloqueios centrais.
  • O crescimento das forças anti-sistema alimenta-se da falência reformista do centro do poder.
  • Sem verdade, responsabilidade e execução, a democracia entra em exaustão moral.

Carta aberta aos partidos do poder: cinquenta anos a governar não apagam cinquenta anos de omissões

Não vos faltou tempo. Faltou-vos coragem. Não vos faltaram maiorias. Faltou-vos visão. Não vos faltou poder. Faltou-vos responsabilidade histórica.

Esta carta é para vós, partidos do poder de meio século — os que alternaram cadeiras, ministérios, secretarias de Estado e aparelhos, mas raramente alternaram método. Mudaram nomes, slogans, cartazes e rostos. O País, esse, ficou preso a problemas crónicos: habitação inacessível, justiça lenta, saúde exausta, produtividade anémica, salários curtos, emigração dos melhores, administração pesada e uma sensação difusa de decadência gerida.

Durante décadas, venderam-nos estabilidade quando o que existia era estagnação. Chamaram prudência ao adiamento, consenso ao medo, governabilidade à ausência de reforma. E cada ciclo eleitoral repetiu o mesmo ritual: promessas grandes, execução curta, balanços auto-elogiosos e um povo cada vez mais distante.

I. O vosso maior erro: governar o curto prazo como se o futuro não existisse

Planeamento estratégico não é distribuir fundos por urgências mediáticas. Governação séria é criar instituições que funcionem quando as câmaras desligam. Mas preferiram o brilho imediato à obra difícil: anunciar muito, reformar pouco, avaliar quase nada. O resultado está à vista: um Estado que custa demasiado e responde tarde.

II. A captura partidária do Estado

O cidadão comum aprendeu, com amarga clareza, que demasiadas vezes o mérito perde para a proximidade, a competência para a confiança partidária, a independência para a lógica de aparelho. Não é necessário conspirar para capturar um Estado — basta colonizá-lo lentamente com lealdades erradas. E foi isso que, em demasiados sectores, deixaram acontecer.

III. A factura social da vossa inércia

Uma geração inteira trabalha mais e compra menos. Jovens com formação adiam família por falta de casa. Idosos esperam por cuidados que chegam tarde. Tribunais demoram quando a vida precisa de tempo certo. Empresas perdem energia em burocracia estéril. Este não é um acidente meteorológico. É uma arquitectura política falhada.

IV. O crescimento do protesto não caiu do céu

Quando crescem forças de ruptura, não basta acusar o eleitorado de imprudência. Convém olhar para o espelho. O voto de protesto alimenta-se da vossa incapacidade reformista. Não foi um influencer, nem um algoritmo, nem um acaso histórico que criou este desgaste e queda acentuada dos vossos partidos, em eleições democráticas. Foi a soma longa das vossas promessas não cumpridas, arrogância táctica e distância social.

V. O que vos é exigido agora

Não precisamos de mais teatro parlamentar. Precisamos de cinco actos de seriedade:

1) Verdade orçamental e institucional: dizer ao País o que é possível, quando, com que custo e com que risco.
2) Reforma da administração pública: simplificação radical, metas vinculativas e responsabilização de dirigentes.
3) Pacto de produtividade e salários: menos retórica distributiva, mais criação sustentável de valor.
4) Justiça com prazos: combate à impunidade e aceleração processual em matérias críticas.
5) Despartidarização efectiva de funções técnicas e regulação: mérito verificável acima da fidelidade.

VI. Um aviso democrático

A democracia não morre apenas por golpe. Também se desgasta por saturação moral. Morre um pouco quando os cidadãos deixam de acreditar que votar muda políticas. Morre um pouco quando a verdade factual é substituída por narrativas de conveniência. Morre um pouco quando o poder se fecha sobre si mesmo e chama "responsabilidade" ao seu próprio imobilismo.

Ainda há tempo de corrigir. Mas esse tempo já não é largo. O País não vos pede perfeição; pede honestidade, competência e execução. Pede que governem para fora das sedes partidárias. Que escutem com verdade a sociedade civil. Que se permitam ouvir soluções fora do circulo fechado das vossas tribos. Isto tudo chama-se democracia, mas vocês esqueceram.

Os portugueses pedem-vos que abandonem a soberba e a arrogância, de quem confunde alternância entre vós, com alternativa para Portugal.

Conclusão

Cinquenta anos de poder deviam ter produzido um Estado leve, uma economia robusta e uma sociedade confiante. Em vez disso, produziram fadiga cívica, descrença e um país sem futuro.

Esta carta não é um insulto, mas antes a verdade, perante as vossas narrativas alternativas. E é um ultimato democrático no sentido mais nobre da palavra: ou mudais o método, ou sereis ultrapassados pela história.

E a história, quando cobra atraso, não aceita desculpas de rodapé.


NOTA FINAL :
André Ventura obteve cerca de 33% dos votos. Ignorar este número é recusar a realidade política do País. Com a continuidade dos mesmos erros, poderá, com relativa facilidade, surgir como próximo Primeiro-Ministro.

E quem o está a ajudar a crescer? O próprio bloco PS/PSD, pela incapacidade de reformar, pela erosão da confiança pública e pela permanente subversão dos factos. A comédia de hoje pode ser a tragédia de amanhã — e Portugal já pagou caro demais por este tipo de cegueira.

Francisco Gonçalves
Cidadão que não se conforma com o estado a que chegou Portugal sem futuro • Co-autoria editorial com Aletheia Veritas
Fragmentos do Caos — contra a amnésia política, pela responsabilidade histórica.
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