Bárbaros com Diploma: quando a Universidade troca exigência por volume

BOX DE FACTOS
- O acesso ao ensino superior aumentou em muitos países, mas persistem sinais de desajuste entre formação e mercado de trabalho.
- Relatórios internacionais apontam "skills gap" como obstáculo central à transformação económica.
- A pressão por volume (inscritos e diplomados) pode degradar padrões de exigência se não houver avaliação externa forte.
- Massificação com qualidade exige vias diferenciadas, apoio de base e rigor de saída — não facilitismo.
- Democratizar sem exigir é produzir desigualdade com diploma.
Bárbaros com Diploma: quando a Universidade troca exigência por volume
A grande promessa moderna dizia assim: mais acesso, mais mobilidade, mais mérito. Em parte cumpriu-se. Mas em demasiados sítios a promessa sofreu uma mutação silenciosa: mais acesso, menos rigor, mais diplomas, menos competência verificável. E o resultado é cruel para todos — para os bons alunos, para os docentes sérios, para as empresas e, sobretudo, para os próprios diplomados, que descobrem tarde que o mercado não remunera papel, remunera capacidade e potencial crítico.
O ponto não é elitista nem nostálgico. Não se trata de defender uma universidade fechada. Trata-se de defender uma universidade aberta e exigente. Porque a alternativa — aberta e permissiva — não é inclusão: é fraude social e civilizacional.
Massificação sem arquitectura de qualidade
A expansão do ensino superior foi histórica e necessária. Mas expansão sem desenho pedagógico robusto gera fissuras: turmas gigantes, avaliação inflacionada, currículos desalinhados, menor exigência de leitura, escrita, lógica e método científico. O sistema aprende a cumprir metas numéricas e desaprende a formar carácter e honestidade intelectual.
Em linguagem simples: confunde-se certificação com qualificação. E quando isso acontece, o diploma deixa de ser sinal de competência e passa a ser apenas um bilhete administrativo, sem valor.
O mercado já respondeu — e respondeu com dureza
Publicações internacionais recentes repetem o mesmo alerta: o desajuste de competências é um travão estrutural. O Fórum Económico Mundial identifica a lacuna de competências como barreira central à transformação das empresas. Estudos europeus sobre trajectórias de diplomados mostram que, apesar de boa integração média, persistem desajustes verticais e horizontais. Ou seja: muita gente com curso em funções abaixo ou fora do seu campo.
Não é um problema "dos jovens". É um problema do desenho institucional. Pedimos ao ensino superior que resolva desigualdades de origem, acelere inovação, forme cidadãos, responda ao mercado e mantenha excelência. Isso só é possível com duas condições: investimento sério e cultura de exigência.
Democratizar não é facilitar
A boa democratização é exigente com todos e justa com cada um. Isso implica vias diferentes para perfis diferentes: ano propedêutico para colmatar lacunas, percursos técnico-profissionais valorizados, politécnicos fortes, universidades com padrões claros de entrada e, sobretudo, de saída.
O erro político dos últimos anos foi vender a ideia de que exigência é exclusão. Não é. Exclusão é mandar alguém para o mercado com um diploma que não o protege e tambem defrauda a sociedade, de várias formas.
Seis reformas de emergência
1) Provas de acesso por área com diagnóstico real de base.
2) Ano zero obrigatório para estudantes com lacunas estruturais.
3) Avaliação externa independente de cursos (com consequências reais).
4) Exames de competência terminal em áreas críticas.
5) Indicadores públicos: empregabilidade qualificada, adequação função-curso, abandono e progressão salarial.
6) Reforço do prestígio social e salarial das vias técnicas e politécnicas.
Conclusão
A universidade não pode ser nem clube fechado nem fábrica de diplomas. Deve ser oficina de inteligência, rigor e liberdade. Se abdicarmos disto, criamos uma nova aristocracia: a dos certificados vazios.
E então teremos, sim, a pior versão da massificação: não uma sociedade mais instruída, mas uma sociedade mais frustrada — cheia de títulos, sedenta de competência. Ou seja impérios de mediocridade.
A fórmula que importa repetir é simples: acesso amplo, exigência alta, qualidade auditável.
Referências internacionais
- OECD (2025). Education at a Glance 2025 (foco em ensino terciário, resultados laborais, conclusão e competências).
- OECD (2025). Education at a Glance 2025: Portugal (diferenças de proficiência por nível de escolaridade).
- World Economic Forum (2025). The Future of Jobs Report 2025 (lacunas de competências como principal barreira).
- European Commission / Eurograduate (2024). Final steps & preparing Eurograduate 2026 (mismatch vertical/horizontal).
- European Commission (2025). Education and Training Monitor 2025 — Tertiary Education.
- UNESCO (2022). Quality and relevance of programmes in higher education (qualidade e pertinência da oferta).
- CEDEFOP (2023). Addressing skills mismatch between education and labour market needs.
Nota editorial: os relatórios convergem na necessidade de alinhar acesso, qualidade e competências relevantes; divergem na intensidade das soluções e nos ritmos de implementação.
Fragmentos do Caos — onde a crítica recusa o facilitismo e defende a exigência com justiça.