BOX DE FACTOS
  • Derivados e futuros nasceram como instrumentos de cobertura; tornaram-se, muitas vezes, máquinas de alavancagem.
  • Inovação sem ética cria lucros rápidos e prejuízos lentos — pagos por quem não assinou o contrato.
  • O risco não desaparece: muda de mãos e de máscara.
  • Quando a finança governa, a democracia fica reduzida a nota de rodapé.
  • Criticar não é negar a ciência: é exigir responsabilidade moral e política sobre a engenharia financeira.

A Religião dos Derivados e os Economistas em Transe

Excerto
Houve um tempo em que se vendeu a ideia de que a matemática podia domesticar o mundo. E quando o mundo recusou ser domesticado, apresentaram a conta aos povos — com juros reais e imorais.

1992: a elegância técnica e a cegueira ética

Nos anos 90, a finança vestiu-se de laboratório. A palavra "inovação" passou a significar, tantas vezes, "criar um produto que ninguém compreende, mas que dá comissões imediatas". Os chamados "veículos financeiros" multiplicaram-se como se fossem espécies numa estufa: derivados sobre derivados, futuros sobre promessas, alavancas sobre alavancas. A economia real — fábricas, salários, produtividade — ficou a assistir, como um parente pobre, ao banquete dos números.

E quando alguém escrevia, com a lucidez desconfortável de quem não pede licença ao consenso, que aquilo era caminho para hecatombes, chamavam-lhe pessimista, reaccionário, "anti-mercado". O argumento era sempre o mesmo: o mercado sabe. Como se o mercado fosse uma entidade moral. Como se a ganância fosse uma ciência exacta. Mas era apenas msis uma religião ferverosa em formação acelerada.

O risco não morre: muda de mãos

A grande fraude intelectual da finança moderna foi vender "gestão de risco" como "eliminação do risco". Não se elimina risco: redistribui-se. E, frequentemente, redistribui-se de cima para baixo. Privatizam-se ganhos; socializam-se perdas. O desastre é sempre apresentado como "imprevisível" — mas, curiosamente, os vencedores do jogo já tinham saído da mesa antes do incêndio.

Acontece então o milagre moderno: o Estado — esse ente tão desprezado quando se trata de financiar escolas, hospitais e ciência — reaparece como salvador quando a bolha estoura. A palavra "resgate" entra na linguagem com aura heroica, como se fosse acto de caridade. E não, não é caridade: é transferência.

Os "economistas em transe" e a crítica popular

Em França — como noutros lugares — surgiram movimentos de crítica ao discurso económico dominante, acusando certos comentadores e tecnocratas de uma frieza quase mecânica, incapaz de ver gente onde só vê curvas e gráficos. Usou-se, por vezes, linguagem agressiva para carimbar essa atitude. Convém dizer com clareza: reduzir pessoas (ou condições) a insultos ligados a saúde/neurologia é injusto e inútil. A crítica é legítima; o rótulo é pobre. Há uma forma mais exacta de o dizer: economicismo desumanizado.

O problema não é o economista que calcula. O problema é o economista que calcula como se a vida fosse um erro de arredondamento. O problema é a escola que transforma a sociedade num modelo e depois despreza a sociedade por não caber no modelo.

A factura invisível: povos a pagar "invenções" alheias

Quando a engenharia financeira implode, a factura não aparece no jornal como um recibo limpo. Aparece em coisas lentas e cruéis: salários estagnados, precariedade normalizada, serviços públicos depauperados, juventude a emigrar, famílias a adiar filhos, idosos a contar moedas. É assim que o "produto sofisticado" se traduz no idioma real: vidas adiadas e até vaporizadas.

E a perversão final é esta: a moral é invertida. Dizem-nos que "vivemos acima das possibilidades", como se o povo tivesse inventado os labirintos financeiros. Como se as sociedades tivessem pedido um casino global com porta de emergência para os grandes jogadores.

O antídoto: política, ética e limites

Há uma saída que não é ideológica: é civilizacional.Regulação séria, transparência, combate a conflitos de interesse, limites à alavancagem, separação clara entre banca de investimento e banca de depósitos (quando aplicável), e sobretudo uma verdade simples: a finança deve servir a economia real — não governá-la e submete-la a ganância predadora dos poderosos.

E há uma exigência ainda mais fundamental: devolver a economia ao campo da responsabilidade humana. Porque números não sofrem. Quem sofre é gente. E uma sociedade que aceita sofrimento como "externalidade" está, lentamente, a desistir de si própria.

Epílogo: a lucidez é sempre polémica antes de ser óbvia

Quem escreve cedo demais parece sempre exagerado. Quem alerta antes do estrondo é, quase sempre, chamado "polémico". Mas a história tem esta ironia: aquilo que era polémico ontem torna-se evidência amanhã — e tarde demais para muitos.

A pergunta final é simples: queremos uma economia como instrumento de vida ou como máquina de extração? Se a resposta ainda importa, então vale a pena insistir — com firmeza, com ética, e com a paciência feroz de quem não aceita o inevitável como destino.

Referências (Internacionais) — Derivados, Crises e Crítica ao Economicismo

Artigo de opiniao de : Francisco Gonçalves
Artigo suportado em Estudos e Ensaios do autor, de Economia e Sociologia, em 1973 e 1995 (c). com Co-autoria editorial de Augustus Veritas
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