A Política Como Comércio de Ilusões: Em Terra de Cegos, Vende-se a Luz em Folhetos

- Ideia central: a técnica moderna não manipula apenas objectos — manipula pessoas.
- Mecanismo: "promotores da normalidade" + burocracia + espectáculo mediático = controlo da opinião pública.
- Tese amarga: a política vende ilusões terrenas como a religião vende ilusões celestes.
- Fonte de inspiração: excerto de Cândido Ferreira, na sua obra Setembro Vermelho.
- Ângulo editorial: em terra de "cegos", a ilusão torna-se indústria e a lucidez passa a ser contrabando.
A Arte de Fazer Política Vendendo Ilusões
Há frases que não pedem concordância: pedem silêncio. Não porque sejam sagradas, mas porque são perigosamente exactas. A técnica — esse ídolo moderno de aço e algoritmo — não ficou confinada às máquinas. Escapou para as consciências. E quando a técnica entra na mente, a política deixa de ser disputa de ideias e passa a ser engenharia de percepções.
Numa "aldeia global", a fauna que se alimenta da normalidade multiplica-se: especialistas de vitrina, terapeutas de catálogo, pedagogos de protocolo, comentadores de bancada, juízes sonâmbulos, burocratas de carimbo e polícias de bastão simbólico. Cada peça parece isolada; juntas formam um dispositivo. Não um complot — coisa demasiado romântica — mas um hábito institucional: manter a opinião pública domesticada, cansada, previsível.
O "exército de salvação" da normalidade
O truque é antigo, só mudou a embalagem. No passado, vendia-se medo com sermões e fogueiras; hoje vende-se medo com "especialistas" e gráficos em horário nobre. O conteúdo, porém, é o mesmo: a promessa de que, se obedeceres, estarás seguro; se questionares, serás perigoso. A normalidade torna-se religião civil — e quem não a aceita é tratado como herético, extremista, "radical".
Política e religião: vinho da mesma pipa
A provocação é cruel, mas fértil: quando a política se degrada, passa a vender ilusões terrenas — conforto, pertença, "soluções" instantâneas — da mesma forma que certas religiões vendem ilusões celestes. Em ambos os casos, não se compra apenas uma promessa: compra-se uma explicação pronta, um alívio para a angústia e, sobretudo, uma dispensa de pensar.
Em terra de "cegos", a ilusão não precisa de ser perfeita; precisa apenas de ser repetida. E a repetição tem aliados poderosos: a pressa, a fadiga, o ruído, o medo de ficar sozinho contra o coro. Assim se faz política de feira: não se governa a realidade — governa-se a percepção da realidade.
O antídoto: lucidez, método, e coragem
O antídoto não é uma fé nova. É o velho trabalho duro da lucidez: ler, comparar, duvidar, desmontar palavras. É recusar o vocabulário imposto ("inevitável", "não há alternativa", "é o que o país aguenta") e exigir clareza: quem ganha, quanto ganha, porquê, com que consequências, e quem paga o preço.
Porque há uma verdade simples que o poder detesta: um cidadão lúcido é um cidadão caro.
Não se compra com slogans. Não se cala com ruído. Não se conduz com ilusões.
E é por isso que a lucidez, hoje, continua a ser
Epílogo: quando a ilusão perde o brilho
A ilusão vive de luz emprestada. Um dia, mesmo em terra de "cegos", alguém tropeça na verdade com a ponta do sapato. E quando isso acontece, o espectáculo treme: não porque caiu o palco, mas porque caiu a crença. A partir daí, já não se pede "salvação" à política — exige-se responsabilidade. E esse é o primeiro passo para sair da roda.
Em memória de Cândido Ferreira, Médico, autor de Setembro Vermelho — homem íntegro, amigo, voz lúcida e incómoda, daqueles que não escreveram para agradar, mas para acordar. Que esta lembrança permaneça como farol: discreto, firme, e impossível de comprar.