BOX DE FACTOS
  • Ideia central: a mediocridade protege-se por selecção — contrata "sossego", não competência.
  • Mecanismo: quem teme o contraste evita pessoas capazes de expor falhas, medir resultados e cortar desperdícios.
  • Efeito: instituições que "funcionam", mas não avançam — relógios parados com aparência de relógio.
  • Nota de honestidade: nem todos os líderes fazem isto; mas um sistema que recompensa conforto favorece este padrão.

O Círculo Fechado: como a mediocridade se reproduz sem pedir licença

Um medíocre não contrata competência: contrata sossego. E o sossego, em Portugal, é a forma mais barata de manter o país caro.

Há uma regra não escrita — mas praticada com fervor — na administração, nas empresas, nos institutos e nas "estruturas": quem é pequeno por dentro escolhe sempre alguém que não o faça parecer ainda mais pequeno. Não é teoria da conspiração; é psicologia do poder frágil.

A competência é barulhenta, mesmo quando fala baixo. Porque pergunta. Porque mede. Porque compara. Porque chega e diz a frase proibida: "isto pode ser feito melhor, mais depressa e com menos desperdício". E essa frase, num sistema acomodado, soa como sirene — não de ambulância, mas de ameaça.

O "bom medíocre" é o mais perigoso

O "bom medíocre" não é o ignorante bruto. É o polido. O adaptável. O que domina a liturgia. Sabe falar em "visão", "estratégia", "resiliência", "capacitação" — e no fim entrega o velho nada com um laço novo. A sua genialidade é outra: gerir percepções.

E porque vive da percepção, teme o contraste. Por isso escolhe espelhos. Escolhe gente que confirma, que concorda, que assina, que baixa os olhos. Não escolhe aliados fortes — escolhe figurantes obedientes.

A reprodução: cada degrau contrata o próximo degrau

É assim que a mediocridade se torna sistema: uma cadeia de selecção por conforto. Cada degrau escolhe alguém que não o desafie, e ao fim de alguns anos tens instituições com organogramas cheios e resultados vazios. A máquina trabalha — mas não move o país.

E depois aparece a frase final, a desculpa perfeita, o verniz para o fracasso: "falta formação às populações", "falta cultura", "falta literacia", "falta mentalidade". Falta tudo… menos responsabilidade a quem decide.

A honestidade intelectual que o povo merece

Sim: há líderes que procuram talento. Existem. Mas num sistema que recompensa a paz podre e pune a exigência, o padrão inclina-se. E quando o padrão domina, o país entra em modo automático: muita gestão, pouca grandeza.

Não enganem mais este povo. O povo não é estúpido — está é cansado. Cansado de ver carreiras feitas de "saber estar" e nação feita de "saber parecer". Cansado de ouvir virtudes e viver o contrário.

Fecho: quando a mediocridade escolhe a mediocridade, o país não falha por azar — falha por desenho.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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