A Conferência de Imprensa do Rinoceronte Administrativo

A Conferência de Imprensa do Rinoceronte Administrativo
No país à beira-mar estirado, a sala de imprensa abre como um palco. As cadeiras rangem, os microfones piscam, e o ar cheira a papel electrónico.
Entra a Ministra. Traz na mão esquerda uma pasta vazia e, na direita, um carimbo digital que não carimba, mas faz um som de carimbo.
Atrás dela vem o Assessor-Mor, um homem de gravata, olhar baço e a missão sagrada de traduzir o vazio para linguagem institucional.
Os jornalistas levantam as canetas como se fossem velas num funeral administrativo.
— Senhora Ministra, o que falhou?
A Ministra olha para o tecto, como quem consulta a nuvem. A nuvem responde com silêncio. Ela limpa a garganta e diz, com solenidade:
E acontece o milagre.
A palavra complexo espalha-se pela sala como incenso. Os jornalistas espirram. Os microfones agradecem. E um funcionário invisível coloca imediatamente uma placa na parede:
"Complexidade: justificativo oficial para a ausência de resposta."
O nascimento do Formulário Vivo
De repente, um formulário salta do bolso do Assessor-Mor. Não era papel: era um ser. Tinha olhos nos campos obrigatórios e uma boca na nota de rodapé.
O formulário aproxima-se de um jornalista e pergunta, em tom burocrático:
"Prove que a sua pergunta existe. Anexe documento. Tamanho máximo: 500 KB."
O jornalista tenta responder, mas o formulário interrompe:
"Erro (i.264): a sua indignação não está associada a nenhuma verba."
Outro jornalista levanta a mão:
— Mas… quem é responsável?
O Assessor-Mor sorri, paternal, e acena para uma porta ao fundo da sala.
A porta está aberta, mas não dá para lado nenhum. É uma porta conceptual. Na placa lê-se:
"Responsabilidade — Encerrada para almoço."
Os Rinocerontes da Complexidade
Ao som da palavra "complexo", os assessores começam a engrossar. As costas arredondam-se, a pele endurece, os rostos ganham chifres de PowerPoint.
Um por um, transformam-se em rinocerontes administrativos — animais majestosos, lentos e absolutamente incapazes de responder a perguntas simples.
O maior deles avança e anuncia:
"Foi criado um Grupo de Trabalho para estudar a pergunta que acabou de fazer."
Outro rinoceronte, mais jovem, acrescenta:
"E um Observatório para observar o Grupo de Trabalho."
A Ministra, agora com um pequeno chifre discreto, conclui com ternura:
"Peço aos senhores jornalistas que compreendam."
Ninguém sabe o que é suposto compreender, mas todos compreendem. Porque aqui, compreender é uma forma elegante de desistir.
O Cidadão, figura de papel
O cidadão lá fora pergunta baixinho:
— Mas porquê?
O formulário responde com doçura mecânica:
"Porque é tudo muito complexo."
Final com aplauso automático
A conferência termina. Os rinocerontes recolhem às secretarias. A Ministra sai com o seu carimbo digital, que não carimba mas dá autoridade.
Os jornalistas desligam os microfones e levam para casa o título perfeito:
"Ministra admite complexidade."
Lá fora, o cidadão continua à porta, à espera de um país que funcione.
E o país, fiel a si mesmo, responde com a sua frase nacional mais avançada:
Depois, uma voz automática — a voz do Estado — anuncia no altifalante:
"Obrigado pela sua colaboração. A sua esperança foi registada com sucesso. Consulte o estado da sua esperança dentro de 5 a 30 dias úteis."
Cai o pano. O absurdo fica. E a complexidade assina por baixo.