Vendemos o Clima — e Comprámos Cinza: a Grande Hipocrisia do País que Arde

- Os incêndios não queimam apenas árvores: libertam uma sopa química de gases e partículas que respira quem está longe do fogo.
- Novas estimativas científicas sugerem emissões orgânicas no ar superiores ao que muitos inventários assumiam.
- Em Portugal, a época de fogos repete-se como ritual: discursos solenes, promessas de "reforma", e a mesma vulnerabilidade estrutural.
- Entre cimeiras e slogans verdes, a prevenção no terreno continua a ser tratada como despesa incómoda — e não como infra-estrutura vital.
Vendemos o Clima — e Comprámos Cinza
A tragédia portuguesa tem uma coreografia antiga: primeiro arde. Depois chora-se. A seguir prometem-se "planos integrados". E, por fim, regressa o silêncio — esse combustível invisível que alimenta a próxima ignição.
O novo "espanto" é só um espelho atrasado
Quando surge uma notícia a dizer que o fumo é pior do que se pensava, há quem faça cara de descoberta científica ao pequeno-almoço, como se a realidade tivesse esperado por um título para existir. Mas a ciência, ao contrário da política, não trabalha com slogans: mede, corrige, afina, e volta a medir.
O que choca — e devia envergonhar — não é a revisão dos números. É a revisão da consciência pública, sempre tardia, sempre pós-incêndio, sempre depois do ar já ter entrado nos pulmões.
A indústria da virtude: vender "clima" sem comprar prevenção
Há anos que se vende "alterações climáticas" como se fosse um produto com embalagem: etiqueta verde, conferência internacional, comunicado sonoro, e uma fotografia em pose grave. No entanto, quando chega a hora de fazer o trabalho feio — o trabalho que não rende palco — o país volta a falhar.
Porque prevenir não dá likes. Prevenir é abrir aceiros, tratar mato, gerir combustíveis, planear mosaicos de paisagem, reforçar equipas, fiscalizar com persistência, punir com seriedade, coordenar com rigor, e manter o investimento quando não há fumo no horizonte. Prevenir é uma disciplina. E disciplina é a inimiga natural do improviso político.
O fogo não é só meteorologia — é também burocracia
Sim: há verões mais quentes, secas mais longas, ventos mais traiçoeiros. Mas a narrativa confortável — "foi o clima" — serve muitas vezes como detergente moral. Lava responsabilidades. Branqueia omissões.
O fogo, em Portugal, é uma mistura explosiva de natureza e gestão: um território abandonado, uma floresta sem dono efectivo, políticas aos soluços, reformas que começam no PowerPoint e morrem no Diário da República, e uma máquina que só acorda quando o céu já é cinzento.
O fumo é a factura — e chega a todos
A floresta queimada é a imagem; o ar contaminado é a consequência diária. O fumo atravessa aldeias e cidades como um imposto invisível: entra pela janela, cola-se à roupa, irrita olhos e garganta, e fica na memória do corpo. E, ironicamente, é também aqui que a conversa "climática" deveria ser mais séria: não apenas carbono abstrato, mas saúde concreta.
Uma pergunta simples, que ninguém gosta de ouvir
Se as "alterações climáticas" eram o grande tema, por que razão a prevenção foi tantas vezes o pequeno rodapé? Por que razão o território continuou a ser tratado como um parente pobre — aquele que só se visita no funeral?
Talvez porque é mais fácil discursar sobre o planeta do que governar um hectare. Talvez porque é mais rentável prometer "transição" do que executar manutenção. Talvez porque o país se habituou a confundir intenção com obra, e frase com responsabilidade.
Epílogo: a coragem não é verde — é operacional
O futuro não se salva com marketing climático, nem com indignações sazonais. Salva-se com Estado competente, com planeamento teimoso, com continuidade, com fiscalização real, com conhecimento local respeitado, e com uma palavra hoje quase revolucionária: execução.
Porque, no fim, a pergunta não é se o fumo "polui mais do que se estimava". A pergunta é esta: quantas vezes ainda vamos estimar tarde aquilo que já devíamos ter feito cedo?
Fragmentos do Caos — crónica crítica, com fuligem nos olhos e lucidez no pulso.