Tempestade Kristen: Quando o Vento Revela a Nudez do Estado que falha de forma sistemática

BOX DE FACTOS
- Centenas de localidades sem energia há mais de 48 horas.
- Falhas totais de comunicações móveis e fixas.
- Infraestruturas críticas sem geradores nem redundância.
- Rede SIRESP voltou a falhar.
- O mesmo sistema que falhou nos incêndios mortais do passado.
Tempestade Kristen: Quando o Vento Revela a Nudez do Estado
A tempestade Kristen atravessou o centro de Portugal e, em poucas horas, fez aquilo que décadas de relatórios, comissões parlamentares e promessas eleitorais nunca conseguiram: expor a completa fragilidade estrutural do país.
Bastaram rajadas fortes. Algumas árvores. Alguns postes. Algumas horas de chuva.
E o país apagou-se.
Sem energia. Sem comunicações. Sem plano.
Há zonas inteiras sem electricidade há dois dias.
Sem comunicações móveis. Sem rede fixa. Sem internet. Sem informação. Sem apoio nenhum.
Hospitais dependentes de geradores improvisados. Lares completanente isolados. Bombeiros sem contacto. Populações entregues ao silêncio.
Não porque a tempestade foi extraordinária — mas porque o sistema é miserável.
Nenhuma redundância. Nenhum backup. Nenhuma previsão.
Em pleno século XXI:
- não existem redes eléctricas resilientes;
- não existem micro-redes locais;
- não existem geradores obrigatórios nas estações base;
- não existe satélite de contingência;
- não existe planeamento de continuidade operacional.
Tudo funciona apenas enquanto o tempo está bom.
O Estado português opera como um sistema doméstico ligado a uma extensão eléctrica.
Se a ficha sai da tomada — o país acaba.
SIRESP: o escândalo que nunca morreu
E então ouvimos novamente — como um eco macabro do passado —um bombeiro dizer na televisão:
"A rede SIRESP voltou a não funcionar."
A mesma frase. A mesma vergonha. O mesmo sistema, os mesmos falhanços, tal como há décadas atrás.
Falhou nos incêndios. Falhou com mortos. Falhou após auditorias. Falhou após comissões de inquérito. Falhou após centenas de milhões investidos.
E volta a falhar agora.
Porque nunca foi corrigido. Apenas foi esquecido.
Um país que não aprende é um país condenado
Portugal não sofre de falta de dinheiro.
Sofre de:
- irresponsabilidade política;
- governação sem memória;
- decisões sem consequência;
- projectos sem responsáveis;
- falhas sem culpados.
Aqui não se corrige. Aqui muda-se de governo e apaga-se o ficheiro.
Cada desastre começa do zero. Cada morto é arquivado. Cada relatório serve apenas para encher prateleiras.
A tempestade verdadeira não veio do céu
A tempestade Kristen não foi o problema.
O problema é um Estado que:
- não planeia;
- não simula;
- não testa;
- não previne;
- não aprende.
Um Estado que funciona apenas em modo "normal".
Quando surge o imprevisto — colapsa.
O país do faz-de-conta
Faz-de-conta que há protecção civil.
Faz-de-conta que há comunicações de emergência.
Faz-de-conta que há planeamento.
Faz-de-conta que há lições aprendidas.
Até que o vento sopra.
E o faz-de-conta cai como postes velhos.
Epílogo: nada muda porque nada dói a quem decide
Nada muda porque quem decide nunca fica sem luz.
Nunca fica sem comunicações.
Nunca depende do SIRESP.
Nunca espera dois dias por socorro.
O colapso é sempre dos outros.
E por isso tudo continua igual.
Até à próxima tempestade.
Até ao próximo incêndio.
Até ao próximo comunicado oficial a dizer:
"Foi uma situação excepcional."
Não foi.
Excepcional é continuar a fingir que isto é normal.
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade
Co-autoria Editorial: Augustus Veritas