Teerão à Beira do Silêncio: o Presidente aproxima-se do Ocidente…

- Protestos recentes em várias cidades iranianas, com mortos e detenções, alimentados por crise económica e queda da moeda.
- Tom do Presidente: apelos a "ouvir" exigências e a diálogo, com promessa de resposta "responsável".
- Duplo poder: a presidência gere o quotidiano; a arquitectura do regime mantém-se sob o Líder Supremo e centros de força.
- Sinais de ruptura social: encerramentos, paralisações e greves pontuais (bazar/comércio), e slogans cada vez mais políticos.
- A sombra da sucessão: Khamenei envelhecido; o "depois" é um território de nevoeiro — e, por isso mesmo, perigoso.
Teerão à Beira do Silêncio: o Presidente aproxima-se do Ocidente… ou foge do incêndio?
A pergunta é simples, quase infantil: o Presidente do Irão está a tentar aproximar-se do Ocidente contra Khamenei? A resposta, como quase tudo em Teerão, é um labirinto: pode estar a tentar aproximar-se — mas não "contra", pelo menos não de forma frontal. No Irão, quem tenta "contra" não faz política; faz necrologia antecipada.
1) Um Presidente com volante… mas sem motor
Masoud Pezeshkian, reformista/moderado na embalagem e pragmático na linguagem, surge recorrentemente como a figura que tenta desatar o nó das sanções e reabrir alguma janela para o exterior. Só que o regime iraniano é um edifício de portas pesadas: a presidência empurra, mas a dobradiça histórica está noutro lado.
Nos últimos dias, com protestos e tensão social, Pezeshkian apareceu com uma frase rara no tom e relevante no símbolo: pediu ao Ministério do Interior para "ouvir as exigências legítimas" e avançar com diálogo. Isto não é uma revolução — mas, num sistema que prefere a mordaça ao espelho, é um ruído que se ouve.
2) Greves, bazares e a velha química do desespero
Quando a economia colapsa, o medo muda de dono. A recente vaga de manifestações tem sido descrita como a mais séria desde 2022, com episódios violentos, mortos e detenções. Fala-se de encerramentos, de comércio a parar, e de uma raiva que deixou de ser apenas "preço do pão" para ser também preço do silêncio.
Há sinais de greve e paralisia social que não desapareceram num estalar de dedos. Um regime aguenta insultos; o que o assusta é quando a engrenagem pára. O bazar (e tudo o que ele simboliza) sempre foi um barómetro: se fecha, é porque a rua já não pede — exige.
3) "Morte ao ditador": quando o slogan atravessa o tecto
Outro sinal: slogans cada vez mais directos ao topo. Há relatos recentes de cânticos do tipo "Morte ao ditador", com o alvo político a subir na hierarquia do medo. Isto é importante porque não é apenas "protesto" — é ruptura simbólica. Quando o povo perde o medo das palavras, o regime começa a ter medo dos dias.
4) Aproximar-se do Ocidente: convicção… ou táctica de sobrevivência?
Aproximar-se do Ocidente pode ser, para Pezeshkian, um projecto. Mas pode ser também uma bóia. Se a moeda cai, se a inflação morde, se as ruas se acendem, o regime precisa de oxigénio — e o oxigénio chama-se, quase sempre, alívio económico (seja por negociação, seja por alguma abertura controlada).
Só que há um detalhe que impede a leitura "romântica": o mesmo Pezeshkian também tem feito declarações em registo de confronto, descrevendo a pressão externa como uma espécie de "guerra" multifacetada. Ou seja: o discurso oscila. E quando oscila, normalmente não é por poesia — é por equilíbrio interno.
5) Khamenei envelhece: e o futuro abre a boca
Mas há ainda um facto importante : Khamenei está velho e a sucessão é um fantasma sentado à mesa do regime. Quanto mais se aproxima esse "depois", mais nervoso fica o "agora". E, nesse contexto, o Presidente pode tentar mostrar-se como válvula de escape — para dentro e para fora.
Mas cuidado com a leitura "Presidente contra Líder". No Irão, a política é menos "duelo" e mais "coreografia de sobrevivência". O Presidente pode querer reduzir tensões com o Ocidente; pode querer acalmar a rua; pode até compreender a revolta. Só que, no fim, a pergunta é sempre a mesma: o sistema quer?
Epílogo: o regime oscila, a rua aprende
E um retrato cru: não se vislumbra (ainda) um Presidente a "enfrentar" Khamenei; vemos um Presidente a tentar evitar que a casa arda por dentro enquanto a tempestade sopra por fora. E vemos um povo que, lentamente, aprende a linguagem mais temida por qualquer poder: a linguagem da persistência.
O Ocidente, por seu lado, tende a confundir "sinal" com "mudança". Mas Teerão é mestre em sinais. O que interessa não é a frase do Presidente — é se, amanhã, a rua continua a falar… e se a resposta volta a ser o velho dicionário do medo.
Fontes e referências (seleção)
- Reuters (2 Jan 2026): protestos, mortos, detenções; tom conciliador de Pezeshkian; crise económica.
- Financial Times (2 Jan 2026): protestos por dificuldades económicas; repressão; resposta governamental.
- Associated Press (2 Jan 2026): trocas de ameaças EUA–Irão e enquadramento da vaga de protestos; menções ao tom do Presidente.
- France 24 (30 Dez 2025): Pezeshkian pede para "ouvir as exigências legítimas" e acenar ao diálogo.
- Al Jazeera (30–31 Dez 2025): apelos do Presidente; contexto económico e social.
- The Guardian (1 Jan 2026): dimensão e violência da vaga; sinais de endurecimento e risco de repressão.