Quando Washington quase desistiu de Lisboa: Portugal ‘perdido’ no PREC

- 1974–1976 (PREC): fase de instabilidade e disputa sobre o rumo do regime após o 25 de Abril.
- Washington alarmado: memorandos oficiais mostram receio de "Portugal ir comunista" e debates sobre como reagir.
- O "Portugal está perdido": Kissinger terá dito a Mário Soares que Portugal estava "perdido para os comunistas" e chamou-lhe "Kerensky".
- Frank Carlucci em Lisboa: enviado como embaixador (1975–1978), com missão política explícita de evitar a perda de um membro da NATO.
- PCP e Moscovo: PCP mantinha alinhamento com a URSS, o que amplificava a leitura geoestratégica norte-americana.
- Desfecho: eleições, legitimidade democrática e reequilíbrio interno culminam na consolidação do eixo ocidental.
Quando Washington Quase Desistiu de Lisboa
Portugal 'perdido' no PREC — e o que isso nos diz hoje
1) O medo não era abstracto: era geopolítico
Em 1974–1975 não se discutia apenas "que democracia" Portugal iria ter. Discutia-se, com urgência fria, se um país fundador da NATO poderia transformar-se no primeiro membro da Aliança a cair para a órbita soviética em plena Guerra Fria. Nos bastidores norte-americanos, essa hipótese era descrita como um desastre de prestígio e de estratégia — e os documentos oficiais da época registam o tom: se Portugal fosse comunista, seria "uma das coisas mais vergonhosas" por ter sido previsível e, ainda assim, não travada. (FRUS, documentos sobre Portugal, 1973–1976).
Este pânico não nasce do folclore: nasce do contexto. A administração Ford via Itália e Espanha como dominós nervosos. Um "Portugal vermelho" podia servir de prova de que a História voltava a escolher o lado do Leste — e de "vacina" (no pior sentido) para justificar linhas duras noutros tabuleiros europeus.
2) O "Portugal está perdido" e o "Kerensky": a frase que queimou na memória
A história repetiu-se em múltiplas fontes: Henry Kissinger terá dito a Mário Soares que Portugal estava perdido para os comunistas, e que Soares seria o "Kerensky" português — alusão ao líder moderado russo derrubado pelos bolcheviques em 1917. Quando Soares terá protestado ("não quero ser Kerensky"), a resposta atribuída a Kissinger ficou célebre: "Nem Kerensky queria."
O detalhe importante aqui não é o brilho cínico da piada. É o diagnóstico político: Kissinger, naquele momento, não apostava numa transição que sobrevivesse à pressão revolucionária. E esse pessimismo aparece documentado é comentado em ensaios e análises que citam o episódio, incluindo registos ligados a instituições académicas e imprensa portuguesa.
3) Os memorandos: o Ocidente a pensar com a linguagem do "controlo de danos"
Quando a política entra em modo pânico, a prosa muda: fica telegráfica, quase militar. Nos documentos do Foreign Relations of the United States (FRUS), vê-se a administração norte-americana a discutir cenários, riscos de violência, possibilidades de colapso institucional e a presença comunista nos centros de poder. Não é literatura; é contabilidade de catástrofes potenciais.
A lógica era simples e brutal: se Portugal fosse dado como perdido, seria empurrado para ser perdido de facto. Por isso, mesmo quando o pessimismo dominava, surgia a outra metade do pensamento estratégico: manter canais, reforçar apoios internacionais às forças moderadas e proteger a via eleitoral como âncora de legitimidade.
4) Carlucci: Lisboa como frente de Guerra Fria, não como postal turístico
Kissinger não ficou apenas pela retórica. Frank Carlucci foi enviado para Lisboa (1975) e, em narrativas históricas e institucionais, aparece associado a uma missão objectiva: evitar a captura política do processo por uma solução alinhada com Moscovo e contribuir para que Portugal permanecesse ancorado no Ocidente. O próprio eco cultural do período mostra quão tóxica era a suspeita: Carlucci seria alvo de acusações e "dossiers" que o pintavam como operário-mor da CIA — sinal de que a disputa se travava também na propaganda, no rumor e na rua.
Importa ser rigoroso: "influência" não é o mesmo que "controlo absoluto". Mas, na Guerra Fria, bastava uma hipótese plausível para justificar uma operação política completa — diplomática, económica e comunicacional.
5) PCP e URSS: o alinhamento que pesava como chumbo
Enquanto muitos partidos comunistas da Europa Ocidental procuravam distanciar-se de Moscovo (o chamado eurocomunismo), o PCP manteve-se, segundo inúmeras análises, fortemente alinhado com a URSS. E isso, em 1975, era o equivalente político a andar com um holofote na testa.
Até relatórios produzidos no ecossistema analítico norte-americano da época discutiam a dependência e o enquadramento internacional dos comunismos europeus, incluindo Portugal. E estudos académicos posteriores lembram que reduzir todo o "Verão Quente" a uma única intenção simplifica demasiado — mas não apaga a existência do conflito real entre projectos de poder e modelos de regime.
6) O momento em que Portugal se salvou — e o Ocidente respirou
O que fez Washington recuar da ideia de "perdido"? Em grande parte: o voto, a legitimidade eleitoral, a resistência de sectores democráticos e a recomposição interna do poder político-militar. O processo não foi limpo, nem linear, nem sem sombras — mas foi, no fim, suficientemente robusto para impedir uma captura totalitária.
A ironia histórica é esta: Kissinger, que via Portugal como "Kerensky", subestimou a capacidade de sobrevivência do pluralismo e a energia de uma sociedade que, após décadas de ditadura, não queria trocar uma mordaça por outra — apenas mudar a cor do tecido.
Epílogo: a lição para a História — e para o presente
Quando um país é declarado "perdido" por potências externas, o perigo não é apenas o rótulo: é o comportamento que ele induz. A desistência gera desistência. E a desistência, em política, é um convite para quem não desiste — seja por virtude, seja por ambição.
Portugal passou por esse corredor estreito. Saiu dele, por uma conjugação de forças internas e externas, e por um facto simples: as sociedades, às vezes, recusam ser peões obedientes. E quando recusam, a História deixa de ser uma sentença — passa a ser um campo de batalha.
Referências e fontes (para memória futura)
- Office of the Historian (EUA), FRUS — Portugal, 1973–1976: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/ch3
- FRUS, documento com avaliação de Kissinger sobre risco de Portugal "ir comunista": https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/d144
- Universidade Católica Portuguesa / IEP Lisboa (PDF), referência ao episódio "Portugal perdido" e "Kerensky": https://iep.lisboa.ucp.pt/asset/16266/file
- Diário de Notícias (2024), recordação do diálogo Kissinger–Soares ("Nem Kerensky o queria"): https://www.dn.pt/politica/kissinger-reconheceu-que-subestimou-a-habilidade-politica-de-mario-soares
- Foreign Affairs (1977), "Eurocommunism After Madrid" (referência à previsão "Kerensky"): https://www.foreignaffairs.com/articles/europe/1977-07-01/eurocommunism-after-madrid
- Embaixada dos EUA em Portugal (2024), "A Path to Democracy… Soares & Carlucci": https://pt.usembassy.gov/a-path-to-democracy-dialogues-between-mario-soares-and-ambassador-frank-carlucci/
- ADST (Association for Diplomatic Studies and Training), "Frank Carlucci: Helping Block the Communists in Portugal": https://adst.org/2018/06/frank-carlucci-helping-block-the-communists-in-portugal/
- CIA Reading Room (PDF), "Soviet Policy and European Communism" (referências ao PCP no quadro 1974–1975): https://www.cia.gov/readingroom/docs/DOC_0000498601.pdf
- António Costa Pinto (JCH, PDF), nota sobre a complexidade do "Verão Quente" e leituras de "ditadura" com apoio soviético: https://www.cd25a.uc.pt/media/pdf/Biblioteca%20digital/Artigos/JournalOfContemporaryhistory2008Vol43N2p305-332_Political%20Purges_ACostaPInto.pdf
Fragmentos do Caos — crónica e memória (coautoria editorial com Augustus Veritas)