BOX DE FACTOS
  • Os EUA anunciaram a captura e remoção de Nicolás Maduro de Caracas, numa operação noticiada internacionalmente (3–4 Jan 2026).
  • O Presidente Hugo Chávez visitou Lisboa e reuniu-se com José Sócrates, com assinatura de acordos bilaterais (RTP).
  • Muammar Kadhafi fez uma escala/visita em Lisboa em 2009, com recepção por representante do Governo (reportado por investigação jornalística e citado pela imprensa).
  • A crónica critica a indignação selectiva: moral para consumo rápido, memória para consumo curto.

A Indignação Selectiva: quando a memória falha, a moral faz teatro

Há um tipo de escândalo que nasce menos da ética e mais da conveniência: hoje condena-se com fúria aquilo que ontem se aplaudia com honras. E chama-se a isso "princípios".

O Partido Socialista (e parte do comentário que lhe faz guarda de honra) parece viver numa espécie de calendário moral com fusos horários diferentes: a indignação acende-se quando dá jeito ao guião do dia, e apaga-se quando a lembrança ameaça a fotografia antiga.

Agora, porque Donald Trump anunciou que os EUA "extrairam" Nicolás Maduro da Venezuela, muitos erguem o sobrolho como quem descobre, de repente, que a geopolítica tem arestas. É um espanto performativo — daqueles que se fazem diante das câmaras, com voz tremida e memória selectiva.

O problema não é a preocupação — é o fingimento

Porque, se há algo que devia ser permanente numa democracia, não é a pose: é a coerência. E é aqui que a cena ganha contornos de comédia amarga. A mesma cultura política que hoje se declara escandalizada com atropelos ao direito e ao decoro, ontem sabia muito bem estender tapetes vermelhos a autocratas, desde que isso rendesse "diplomacia", negócios, ou um certo exotismo ideológico para consumo interno.

Nos tempos de José Sócrates e do PS, Lisboa viu a corte feita a Hugo Chávez — encontros, acordos, sorrisos de Estado e a sensação de que tudo era moderno e estratégico. Há registo público de uma visita de Chávez a Lisboa para firmar acordos com Portugal, com reunião em São Bento e assinatura de instrumentos bilaterais.

E depois há o outro capítulo, mais sombrio e mais revelador: Muammar Kadhafi. Em 2009, fez escala em Lisboa, recebido por um representante do Governo. Hoje, alguns fingem que nada disto existiu — como se a História fosse um ficheiro temporário que se limpa com um clique.

A indignação selectiva é uma indústria — e o povo paga a factura

O detalhe trágico não está apenas na hipocrisia; está no efeito. Porque a indignação selectiva não é só um vício: é uma tecnologia de manipulação emocional. Ensina o cidadão a reagir por impulso e a esquecer por conveniência. E assim o povo — cansado, tributado, distraído — vai engolindo o teatro como se fosse realidade.

Quando o acto é de um "inimigo ideológico", chama-se crime. Quando o gesto é do "amigo de ocasião", chama-se estratégia. E, no fim, fica sempre a mesma pergunta: onde esteve esta pureza moral quando o poder português se sentava à mesa com figuras que, já na altura, eram tudo menos símbolos de liberdade?

O futuro exige memória — ou seremos governados por amnésia profissional

Uma democracia adulta não vive de slogans; vive de arquivo interno. A memória é o único antídoto contra a reciclagem do embuste. E quem tem má memória é sempre um eleitor fácil: hoje acredita na lágrima do político, amanhã esquece a mão que assinou o convite.

Não se trata de "defender Trump" ou "defender Maduro". Trata-se de exigir a mesma régua moral, seja qual for o actor e o palco. Sem isso, a política torna-se apenas uma arte cénica: muita virtude à boca de cena, muito silêncio nos bastidores.

Epílogo: o teatro cansa — a verdade não tem intervalos

O povo tem, por vezes, "má memória". Sim. Mas também tem vida difícil, dias longos, salários curtos e uma avalanche diária de ruído. A pergunta certa talvez seja outra: quem lucra com essa amnésia? E por que razão tantos se esforçam tanto para que o passado nunca seja um espelho — apenas um pano de fundo desfocado?

Um país que esquece com facilidade fica condenado a aplaudir as mesmas personagens — só muda a maquilhagem, a música e o título do espectáculo.

Fontes e referências
  • Reuters (3 Jan 2026) — operação dos EUA para capturar Maduro (reportagem detalhada): https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/mock-house-cia-source-special-forces-us-operation-capture-maduro-2026-01-03/
  • The Guardian (3 Jan 2026) — anúncio e enquadramento político da captura: https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/03/trump-venezuela-oil-industry
  • RTP Notícias — "Hugo Chávez em Lisboa para firmar acordos com Portugal": https://www.rtp.pt/noticias/pais/hugo-chavez-em-lisboa-para-firmar-acordos-com-portugal_n63891
  • Investigação jornalística citada (escala de Kadhafi em Lisboa, 21 Set 2009): https://truestoryaward.org/story/591
  • CBS News (live updates) — referência à "extraction" de Maduro e reacções internas na Venezuela: https://www.cbsnews.com/live-updates/venezuela-us-military-strikes-maduro-trump/
Crónica de :
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — crónica de memória, cidadania e vigilância cívica. E acrescentaria, para o PS - parem de envergonhar Portugal.
Co-autoria (assistência editorial): Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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