Portugal: Uma calamidade institucional

Plano Mínimo de 72 Horas: A Resiliência Que Portugal Recusa por Preguiça Moral
Quando uma tempestade deixa dezenas de zonas sem energia e sem comunicações durante dois dias, não estamos perante "meteorologia extrema". Estamos perante falência estrutural. E pior: uma falência repetida, conhecida, anunciada — e ignorada.
Porque num país minimamente sério, uma regra simples existiria há anos: tudo o que é crítico tem de aguentar, pelo menos, 72 horas sem rede. Não é luxo. É civilização.
1) O kit mínimo por ponto crítico (72h)
Não estamos a falar de "soluções NASA". Estamos a falar de um kit básico — e barato — para assegurar o essencial:
- Bateria / armazenamento (ex.: 7,8 kWh) para consumo estável e silencioso (≈ 2.300€).
- Gerador diesel (ex.: 4 kW) como redundância "bruta" para cargas e picos (≈ 659€).
- Comutador automático / UPS para transição sem falhas e protecção de equipamentos (valor variável).
- Combustível rotativo + recipiente seguro (porque um gerador sem gasóleo é escultura).
- Teste mensal obrigatório (10 minutos) + registo auditável.
Isto não exige milagres. Exige apenas uma coisa que Portugal detesta: disciplina operacional.
2) Aplicação imediata: onde isto devia ser obrigatório
Basta começar pelo óbvio, sem poesia e sem conversa:
- Estações base de telecomunicações e nós de rede (porque sem comunicações não há socorro).
- Centros de comando e quartéis (bombeiros, GNR/PSP, protecção civil).
- Infraestruturas de água (bombagem/controlo) e saneamento (falhar aqui é caos sanitário).
- Lares e unidades de saúde (onde a falha mata em silêncio).
- Serviços municipais críticos (abrigos, armazéns, logística, comunicações locais).
Em muitos casos, não é preciso "alimentar tudo". É só manter o essencial: rádios, rede, iluminação mínima, recarga, bombas, aquecimento básico, equipamentos vitais.
3) Então por que razão isto não é feito?
Porque Portugal não falha por falta de euros. Falha por excesso de um vício antigo: ninguém é responsável por nada.
- Se a rede falha, a culpa é do "operador".
- Se o operador falha, a culpa é do "regulador".
- Se o regulador falha, a culpa é da "lei".
- Se a lei falha, a culpa é do "governo anterior".
E assim o país funciona como um prédio sem administrador: quando há incêndio, todos gritam — mas ninguém tem a chave do quadro eléctrico.
4) O custo real não é o equipamento — é a coragem de manter
O gerador de 659€ e a bateria de 2.300€ são a parte fácil. O que custa é:
- manutenção regular (e não "quando avariar");
- testes mensais com registo e auditoria;
- combustível garantido e rotativo;
- inventário e responsabilidades com nomes e assinaturas.
Portugal não gosta disto porque isto é o contrário da cultura do improviso. Isto é engenharia. E engenharia é implacável: ou funciona, ou morre gente.
5) A crítica dura: a prioridade nacional está invertida
Há sempre dinheiro para: plataformas, consultorias, eventos, campanhas, conferências e "sensibilizações".
Mas quando se fala em garantir 72 horas de autonomia para comunicações e socorro — aquilo que separa a ordem do caos — ouve-se logo a frase assassina: "não há orçamento".
Não é falta de orçamento. É falta de carácter institucional. É falta de vergonha.
6) Proposta concreta (sem conversa): Decreto de Resiliência 72h
Uma medida simples, aplicável, mensurável:
- Obrigatório: todo o ponto crítico (telecom, socorro, água, saúde, comando) tem de aguentar 72h sem rede.
- Auditoria trimestral: teste real, registo público, falhas corrigidas com prazo.
- Penalizações sérias: se falha, paga — e paga a doer (para aprender).
- Transparência: lista pública dos pontos críticos com estado de conformidade.
É isto. Não é "utopia". É uma régua mínima de civilização.
7) O cálculo que envergonha o país
Façamos contas simples — aquelas que nenhum ministério gosta de mostrar.
Um ponto crítico com autonomia mínima de 72 horas custa, em média:
- Bateria 7,8 kWh: 2.300 €
- Gerador diesel 4 kW: 659 €
- Quadro, UPS, instalação e segurança: ≈ 1.000 €
Total aproximado: 4.000 € por ponto crítico.
Quatro mil euros. Menos do que um "projecto" decorativo. Menos do que uma consultoria de rotina. Menos do que a espuma burocrática que o Estado produz para justificar o injustificável.
Com 4.000 euros garante-se que um quartel não fica às escuras. Garante-se que uma antena não morre. Garante-se que o socorro não fica mudo.
Mas Portugal prefere gastar milhões a explicar por que razão não gastou quatro mil.
8) O problema não é técnico — é cultural
Portugal não falha porque não sabe. Falha porque não assume.
Um sistema resiliente exige inventário real, auditoria, testes, e nomes próprios associados a falhas. E isto é exactamente o que a cultura política portuguesa evita.
Aqui, quando tudo corre mal, não há consequência. Há apenas o ritual nacional do comunicado.
O comunicado tornou-se o verdadeiro sistema de emergência do país.
9) Um Estado que falha não cai — apodrece
Um Estado não colapsa num dia. Vai apodrecendo lentamente, falha após falha, relatório após relatório, promessa após promessa.
O vento não derruba um país sólido. Apenas abana aquilo que já estava oco.
Epílogo: o vento não é o inimigo — é o espelho
A tempestade não criou a fragilidade. Apenas a mostrou.
E quando um país prefere continuar a cair ao primeiro vento, apesar de a solução custar menos do que um punhado de projectos decorativos, então já não é falha técnica.
É escolha política. E é uma escolha indecente.
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade
Co-autoria Editorial: Augustus Veritas