BOX DE FACTOS
  • Problema central: Estado com serviços duplicados, burocracia pesada e estruturas que se alimentam a si próprias.
  • Consequência: custos permanentes, ineficiência crónica, despesismo e aumento de dívida pública.
  • Falha estrutural: nomeações opacas e redes de influência que confundem gestão pública com prémio partidário.
  • O que falta: coragem política para reformar, cortar redundâncias e impor transparência real.
  • Chave da reforma: transparência por defeito, auditoria contínua e responsabilização com consequências.
  • Risco maior: manter o país "gerido como nos anos 80", com novas camadas de "gordura" em cima do mesmo osso.

Portugal Precisa de Governantes com Coragem

Não é falta de talento. Não é falta de sol. Nem sequer é falta de dinheiro — é falta de cirurgia. O Estado português tornou-se um organismo com órgãos duplicados, nervos em curto-circuito e um coração a bater… para manter a máquina viva, não o país.

I — O Estado Monstruoso: quando a máquina se torna o objectivo

Há Estados que servem os cidadãos. E há Estados que, subtilmente, começam a servir-se deles. Portugal deixou crescer um Estado monstruoso — não por ter "Estado social" (isso seria civilização), mas por ter acumulado camadas de redundância e mecanismos de autopreservação.

Um país que não produz o suficiente para sustentar a sua própria arquitectura administrativa não pode, ao mesmo tempo, insistir em viver com a mesma solenidade de um império. E, no entanto, vivemos: cada década acrescentou uma nova sala ao palácio burocrático, um novo balcão, uma nova direcção-geral, uma nova plataforma, um novo "regulamento", um novo "comité", um novo "observatório". Como se a realidade fosse resolvida por multiplicação.

O resultado é um Estado que, muitas vezes, não mede o seu sucesso pela utilidade, mas pela existência: "se existo, justifico-me; se me justifico, aumento; se aumento, preciso de orçamento; se preciso de orçamento, preciso de narrativa". É assim que nasce a dívida com gravata.

II — Burocracia: a arte de transformar tempo em cinza

A burocracia não é apenas papel. É tempo queimado. É energia desviada. É um imposto invisível pago por quem quer trabalhar: cidadãos, empresas, técnicos, profissionais. Quando o Estado exige ao país a prova de coisas que ele próprio já sabe, estamos perante uma patologia: o Estado pede ao cidadão que seja pombo-correio de dados.

Digitalizar isto sem redesenhar processos é apenas trocar o carimbo por um botão. A fila física torna-se fila digital. O "volte amanhã" vira "tente mais tarde". E o cidadão percebe uma coisa terrível: a modernização é, muitas vezes, apenas uma fotografia de campanha.

III — Corrupção instalada: o parasita que aprende a falar baixo

A corrupção raramente entra com sirene. Entra de mansinho, com "jeitinhos", "ajustes", "amizades" e "favores". Não é só o envelope. É a promiscuidade. É a rede que mistura partido, empresa, consultoria e instituição, como se o Estado fosse um condomínio privado.

E quando a corrupção se instala, a incompetência torna-se funcional: porque um Estado competente vê demais, mede demais, controla demais. Um Estado incompetente é uma névoa conveniente. Por isso a corrupção não se combate só com leis — combate-se com transparência brutal e auditoria permanente. A luz é o insecticida da promiscuidade.

IV — Nomeações: a velha nobreza de cartão e a gestão como prémio

Portugal tem uma aristocracia moderna: não usa coroas — usa nomeações. Em demasiados sectores, a gestão pública foi tratada como "prémio" e não como responsabilidade. E isso cria um ciclo fatal: quando o topo é escolhido por lealdade, o meio aprende a sobreviver por silêncio, e a base aprende que o mérito é uma lenda urbana.

O país precisa de um princípio simples e revolucionário: todo o cargo de alta responsabilidade tem de ser transparente — no processo, no currículo, nos interesses e nos resultados. Não chega dizer "confie". A confiança é consequência, não decreto.

V — Despesismo e "gorduras": um orçamento a sangrar por mil cortes

A imagem é crua: o Estado português não tem um grande rombo — tem mil feridas pequenas. Avenças eternas. Consultorias com aroma a repetição. Estruturas paralelas. "Projectos" que morrem e renascem com novo nome. Compras dispersas. Plataformas duplicadas. Sistemas que não falam entre si. Tudo isto é um dreno silencioso — e, somado, torna-se oceano.

O drama é que, quando chega a hora de cortar, corta-se onde é mais fácil politicamente: em quem trabalha, em quem presta serviço, em quem não tem lobby. As gorduras, por sua vez, estão protegidas por camadas de influência — como se tivessem colete antibalas.

VI — O que é coragem (e o que não é)

Coragem não é "lançar uma app" e chamar-lhe reforma. Coragem é mexer no esqueleto. É cortar duplicações. É fundir estruturas. É fechar o que não faz falta. É medir resultados e aceitar consequências. É dizer "não" ao velho sistema de favores, mesmo que isso custe votos, alianças e tranquilidade.

VII — A cirurgia mínima para salvar o doente

A reforma séria do Estado tem de começar por princípios claros, quase implacáveis:

  • Transparência por defeito: contratos, ajustes directos, avenças, concursos, nomeações e currículos publicados e pesquisáveis.
  • Trilho digital auditável: quem decide, o que decide e porquê — com registo, sem apagões.
  • Mapa nacional de funções: o que cada organismo faz, para quem, a que custo e com que resultados.
  • Fim das duplicações: um serviço, um dono, uma responsabilidade — e uma conta a prestar.
  • Métricas públicas: prazos, custos, erros, satisfação — expostos como espelho.
  • Nomeações limpas: concursos reais, critérios claros, painéis independentes, declaração de interesses verificável.
  • Consequências: falhanço repetido não é "azar" — é substituição. E pronto.
  • Interoperabilidade obrigatória: o Estado não pede dados que já tem; se pede, está a falhar.
  • Auditoria contínua: sectores de risco com auditoria forense regular e relatórios públicos.
  • Protecção a denunciantes: sem isto, a verdade fica sem voz e a corrupção ganha palco.

VIII — O futuro: ou reforma, ou condenação

O país não está condenado por falta de potencial — está condenado por falta de decisão. Um Estado pesado e opaco não é apenas caro: é um travão civilizacional. Mata a inovação, espanta investimento, sufoca talento, humilha quem quer fazer. E depois pergunta, com ar inocente, porque é que a juventude parte.

Continuar a gerir Portugal como nos anos 80 — só que com mais plataformas e mais gordura — é um pacto com o atraso. Sem coragem para reformar, o país ficará preso no mesmo pântano, e já putrefacto : muito discurso, pouca execução, e um orçamento sempre a correr atrás da dívida como quem corre atrás do próprio fantasma.

Epílogo — a coragem é a última tecnologia

Há uma tecnologia que Portugal raramente instala: coragem. Não é software. Não é hardware. É carácter político e moral. É a disposição para dizer: "acabou". Acabou o parasitismo. Acabou a opacidade. Acabou a gestão por compadrio.

Quando isso acontecer, então sim — o país não estará "na moda". Estará, finalmente, de pé.

Francisco Gonçalves — Fragmentos do Caos
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.