Portugal, País-Espectáculo: Manual Breve de Humor Negro para Sobreviventes

- Género: humor negro (com luvas, para não deixar impressões digitais).
- Objecto: o teatro político-social e a arte nacional de "não se meter em sarilhos".
- Hipótese: Portugal produz anedotas em série, mas exporta humoristas em modo silencioso.
- Metodologia: rir para não gritar, escrever para não adormecer.
- Aviso: contém ironia. Em caso de alergia, consulte um assessor de imagem.
Portugal, País-Espectáculo
Portugal é um país com um talento extraordinário: consegue ser simultaneamente uma tragédia antiga e uma comédia moderna, mas sem o benefício do intervalo. Há nações que têm comediantes a escrever piadas. Nós temos a realidade a escrever episódios completos — e depois chamamos-lhe "normalidade" para não termos de admitir que o enredo está a ficar caro.
O cidadão acorda, liga as notícias e recebe a primeira prenda do dia: uma nova cena do Grande Teatro da República. Entra um porta-voz com a expressão solene de quem acabou de descobrir a gravidade e anuncia: "Está tudo sob controlo". A seguir, entra o relatório que prova o contrário. Mas o relatório não tem microfone. E, em Portugal, quem não tem microfone é apenas um ruído educado.
1) A anedota como política pública
Há países que têm políticas industriais. Nós temos políticas de "boa cara". A "boa cara" é o nosso petróleo: serve para tudo, menos para resolver problemas. Quando falta eficiência, põe-se "boa cara". Quando falta transparência, põe-se "boa cara". Quando falta justiça, põe-se "boa cara". E quando a "boa cara" já não chega, inaugura-se uma placa com letras douradas, porque o dourado tem uma propriedade mágica: transforma promessas em património.
O truque é simples: se o país funcionar mal, chama-se "desafio". Se funcionar pior, chama-se "constrangimento". Se estiver a arder, chama-se "momento difícil". E se alguém perguntar "porquê?", responde-se com a frase mais sofisticada do nosso repertório :"Não sejas negativo." É o equivalente nacional de tapar a febre com um lenço.
2) O humor permitido e o humor desaconselhado
O humor, em Portugal, é livre como um passarinho… dentro de uma gaiola com patrocínio. Podes rir de tudo, desde que esse "tudo" não tenha agenda, gabinete, orçamento, advogado ou uma boa relação com convites para painéis. Podes fazer anedotas sobre o povo, porque o povo não processa: paga e cala. Podes fazer anedotas sobre a vida, porque a vida não tem assessoria. Agora, rir do poder? Isso é uma actividade de risco — não por lei, mas por ecossistema: os palcos encolhem, os contactos evaporam, os "amigos" ficam ocupados e as oportunidades fazem logout.
A censura moderna não precisa de carimbo. Basta-lhe o sorriso e a frase: "Gosto muito de ti, mas…" Esse "mas" é a nossa Constituição invisível: define a fronteira entre o que se pode dizer e o que se deve sussurrar. É por isso que o país parece uma sala de jantar cheia: toda a gente fala, mas ninguém toca no assunto principal.
3) A justiça em modo "manutenção"
A justiça, por cá, tem um ritmo de catedral: majestosa, lenta, cheia de ecos — e com obras intermináveis. O cidadão comum vê o tempo como uma linha. O sistema vê o tempo como uma almofada: amacia impactos. Há coisas que começam com estrondo e acabam com "arquivamento", esse termo que devia vir com legenda: "não aconteceu nada… que valha a pena perturbar o jantar."
Se alguém ousa rir-se disto, dizem-lhe que é "populismo". Populismo, no dicionário nacional, é qualquer coisa que faça o poder perder o conforto. A palavra funciona como desinfectante moral: aplica-se à indignação e fica tudo esterilizado.
4) O país-anedota e o medo de acordar
Portugal não está pobre apenas de dinheiro. Está pobre de ousadia. O medo não é um sentimento — é uma infraestrutura. Está nas conversas, nas empresas, nos corredores, nos cafés, nos jantares. A fórmula é conhecida: "Não te metas nisso. Não vale a pena. Não ganhas nada." E assim se constrói uma nação onde a coragem é uma excepção e a prudência é uma religião.
E é aqui que o humor negro se torna necessário: não para divertir, mas para respirar. O riso, às vezes, é a última forma de dignidade de quem percebe o absurdo e recusa chamar-lhe virtude.
Epílogo — A gargalhada que não nos deixam ter
Seríamos um país perfeito para humoristas, não fosse o detalhe: a melhor piada é sempre a que aponta para cima. E apontar para cima, aqui, é como abrir uma janela numa sala onde todos preferem a penumbra: entra ar, entra luz, e isso incomoda. Por isso rimos baixo, por isso fazemos de conta, por isso domesticamos a sátira. Mas um povo que não pode rir do poder acaba por fazer o contrário: aprende a temê-lo — e a agradecer-lhe. E quando a gratidão substitui a cidadania, a anedota deixa de ser graça: passa a ser destino.
Em Fragmentos do Caos — com a colaboração editorial de Augustus Veritas.