Portugal, País de Pedintes: quando a política troca projecto por súplica

- Notícia: Pedido de um "PRR só para a habitação" à Comissão Europeia
- Cenário: PRR com prazo de execução até Junho de 2026
- Problema real: crise habitacional — falta de oferta, preços incomportáveis, lentidão administrativa
- Problema estrutural: cultura do pedido permanente: pedir para tudo e produzir para nada
- Pergunta incômoda: quantas casas se constroem por decisão e competência — e quantas por esmola institucional?
- Fonte: https://www.publico.pt/2026/01/30/economia/noticia/moedas-pede-prr-habitacao-comissao-europeia-2163106
Portugal, País de Pedintes
A notícia é simples e, por isso mesmo, devastadora: pede-se à Europa um "PRR só para a habitação". O gesto é apresentado como pragmatismo. Eu leio-o como sintoma. Porque a crise da habitação não é apenas uma crise de tijolo — é uma crise de capacidade de Estado.
Não se trata de discutir se a Europa deve ou não apoiar. Pode e deve haver solidariedade e fundos. Mas há uma diferença abissal entre financiamento e dependência. Financiamento é alavanca. Dependência é muleta. E o país habituou-se à muleta como quem se habitua a uma dor que já nem tenta curar.
A liturgia do pedido: uma política de joelhos
Este é o padrão: surge um problema estrutural; o poder local e nacional descrevem-no com voz grave; anunciam "planos"; fazem slides; inauguram pedras; e, no fim, o acto central é sempre o mesmo: pedir mais dinheiro. Como se o obstáculo fosse apenas financeiro — e não também técnico, jurídico, logístico e moral.
A habitação exige três coisas que Portugal evita como o diabo evita a luz: planeamento, execução e responsabilização. Sem isto, qualquer bazuca vira confettis: barulho no ar, nada no chão.
A pergunta que ninguém quer fazer
Se amanhã Bruxelas dissesse "sim", e aparecesse um novo PRR, o que mudava de verdade? Mudava a engenharia de projecto? A simplificação do licenciamento? A rapidez dos concursos? A fiscalização séria? A transparência? A penalização dos atrasos? Ou mudava apenas a narrativa — para que tudo continuasse, com outra placa na porta?
A tragédia nacional é esta: confundimos dinheiro com competência. E quando a realidade nos confronta — rendas impraticáveis, jovens expulsos das cidades, famílias encurraladas — respondemos com a frase mágica: "é preciso mais fundos". Não, meus senhores. É preciso mais acção e menos liturgia.
O país de pedintes para tudo e por nada
Sim: Portugal tornou-se um país de pedintes para tudo e por nada. Pedimos para a habitação, pedimos para a inovação, pedimos para a digitalização, pedimos para a energia, pedimos para a competitividade, pedimos por causa dos fogos, das cheias, do temporal — e depois espantamo-nos porque continuamos frágeis.
Um povo não se salva por subsídios. Salva-se por instituições funcionais, por método, por rigor e por um mínimo de cultura de cumprimento. E isto, infelizmente, não vem em tranches.
Epílogo: a habitação não é esmola — é soberania prática
A habitação é uma peça de soberania prática: sem casa, não há vida estável; sem vida estável, não há trabalho criativo; sem trabalho criativo, não há futuro. E um país que resolve o essencial por súplica não é um país — é um pedido em papel timbrado.