Portugal: O preço de não trair o carácter

BOX DE FACTOS
- Integração entre autobiografia e ensaio: o preço de manter o carácter intacto numa carreira longa.
- Reconhecimento explícito de que a integridade pessoal e profissional trouxe custos materiais e familiares.
- Crítica directa a um sistema que recompensa a mediocridade e penaliza quem não se vende.
- Mensagem dirigida às gerações mais novas: a integridade não é grátis, mas é a única moeda que resiste ao tempo.
O preço de não trair o carácter
Há vidas que se contam em cargos, títulos e contas bancárias. E há vidas que se contam noutra moeda: a do carácter. A minha, goste-se ou não, sempre foi desta segunda espécie.
Desde cedo me causaram náusea os pequenos tiranos de secretaria, os poderes absurdos sem escrutínio, as injustiças grosseiras que se tornam "normais" porque toda a gente se cala. Nunca fui santo, nem pretendo ser canonizado em lado nenhum, mas uma coisa posso dizer sem hesitar: nunca fiz carreira à custa de atropelar os outros, nunca enriqueci à boleia de esquemas, nunca aceitei trocar dignidade por favores.
E paguei por isso. Paguei caro. Não apenas eu: também a minha família, de forma indirecta, suportou essa factura silenciosa.
A integridade não é grátis
Há uma mentira subtil que o sistema repete: a de que "se fores sério, trabalhador e competente, a vida tratar-te-á bem". É uma meia verdade e, como todas as meias verdades, é uma forma elegante de engano.
A realidade, sobretudo em países onde a mediocridade é estrutural, é bem diferente: quem não se vende, perde oportunidades; quem não se cala, é afastado de círculos de poder; quem não pactua, é rotulado de "difícil", "complicado", "radical" ou simplesmente "persona non grata".
Ao longo da minha vida profissional, mantive um eixo claro: humanismo, bom senso, ética, responsabilidade. Não porque ficasse bem no currículo, mas porque era – e é – a única forma que conheço de dormir com a consciência em paz.
Isso significou dizer "não" a atalhos obscuros, recusar participar em jogos de bastidores, enfrentar poderes que pareciam intocáveis e, muitas vezes, perder - contratos, cargos, tranquilidade financeira. Enquanto outros escolhiam a prudência servil, eu escolhi a verticalidade incómoda. O resultado? Menos dinheiro, menos segurança aparente, mais noites a olhar para o tecto a fazer contas.
E, no entanto, quando olho para trás, não me arrependo.
Quando o mérito não chega
Fui construindo sistemas, resolvendo problemas, desenhando soluções onde outros viam só caos. Trabalhei por conta de outrem, trabalhei por conta própria, levantei projectos, salvei outros da ruína, levei ideias até ao fim. Muitos desses projectos tiveram sucesso. Mas, no fim da linha, o retorno financeiro não reflectiu nem de perto o esforço, a dedicação e o valor criado.
É importante dizê-lo sem pudor: não é vergonha reconhecer que, em termos materiais, fui injustamente prejudicado. Vergonha seria fingir que isso não importou, como se a ética vivesse de ar e poesia.
A minha família, que nunca participou nas decisões erradas deste sistema, sentiu no dia-a-dia o peso dessa escolha: menos margem financeira, menos conforto, mais incerteza. Mantenho, porém, uma certeza íntima: se tivesse trocado o carácter por comodidade, teria perdido muito mais do que ganhei.
O lado invisível do preço
Há um custo que não aparece nos relatórios nem nos recibos de vencimento: o custo de ser coerente num meio que recompensa o contrário.
Esse preço mede-se em portas que se fecham quando não aceitas alinhar no jogo; em silêncios constrangedores em reuniões onde és o único a dizer que o rei vai nu; em convites que "misteriosamente" deixam de chegar quando percebem que não serás cúmplice; em campanhas discretas de desvalorização: "é competente, mas é difícil", "é bom, mas não se adapta", "sabe muito, mas não é político".
O sistema não suporta bem quem não está à venda. Tolera-te enquanto dás jeito. Depois arruma-te numa prateleira, de preferência longe de onde se tomam decisões.
Para os mais novos: isto não é um sermão
Se estás a ler isto e és de uma geração mais nova, talvez penses: "É bonito, mas eu tenho contas para pagar." Eu também tive. Eu também tenho. A integridade não paga a mercearia. Mas vender a consciência também não garante felicidade — só garante silêncio.
O que te posso dizer, sem moralismos, é o seguinte:
- Não romantizes o sacrifício, mas também não te iludas com o brilho fácil dos que sobem rápido. Pergunta sempre: "a que preço?".
- Escolhe bem onde colocas o teu limite. Todos cedemos aqui e ali em coisas pequenas; a questão é saber quais são as linhas que não atravessas nunca. Define-as. Escreve-as, se for preciso.
- Não confundas inteligência com esperteza. A esperteza rende no curto prazo; a inteligência ética constrói o que resiste às décadas.
- Protege quem está ao teu lado. A tua família, os teus amigos, os poucos que te conhecem de verdade – são eles que vivem contigo as consequências das tuas escolhas. Pensa neles quando fores tentado a "alinhar só desta vez".
- Se tiveres de escolher entre ser útil ao sistema ou ser fiel a ti próprio, lembra-te disto: sistemas mudam, colapsam, reescrevem-se. Tu tens de viver contigo até ao fim.
Não é que eu seja melhor. É que recusei ser pior.
Não escrevo isto para me colocar num pedestal. Cometi erros, tomei decisões discutíveis e decisões que poderiam ter sido muito melhores, houve coisas que hoje faria de outra forma. Mas não traí o essencial. E isso, num país e num tempo em que tanta gente se vende barato, já é qualquer coisa.
Sim, trabalhei muito e não recebi em dinheiro o equivalente ao valor que criei. Sim, a minha família pagou um preço que não merecia. Sim, doeu ver mediocridades premiadas enquanto quem se mantinha íntegro era empurrado para a margem.
Mas se me dessem hoje a hipótese de refazer o caminho com a condição de trair os meus princípios para enriquecer, diria que não. Talvez seja teimosia. Talvez seja apenas o nome antigo de uma coisa que hoje se usa pouco: honra.
No fim, o que conta
Quando este tempo acabar, não serão os salários, nem os títulos, nem os cartões de visita que falarão por mim. Serão as histórias que os outros contarão:
- "Era incorruptível."
- "Podia ter ganho muito mais, mas nunca se vendeu."
- "Pagou caro por ser inteiro, mas não se vergou."
Se estas frases sobreviverem a mim, então não fui pobre. Fui apenas alguém que escolheu uma moeda diferente.
Talvez este texto não mude nada fora de ti. Mas se te obrigar a fazer uma pergunta simples — "Até onde estou disposto a ir para não trair o meu carácter?" — já terá valido a pena tê-lo escrito.
O resto, como sempre, ficará entregue ao tempo. E à tua consciência.
Crónica de Francisco Gonçalves, na primeira pessoa – Fragmentos do Caos
NOTAS FINAIS : Esta é uma confissão pessoal sobre a minha carreira profissional, os poucos amigos que se mantiveram e os inimigos que "coleccionei". Sim, ter uma mão cheia de inimigos é para mim significativo e prova de que concretizei muitos projectos nas áreas de software e tecnologias de telecomunicações, pioneiro e com visão tecnológica e estratégia, tendo sido bem sucedido profissionalmente, realmente estimado e admirado pelos clientes e de uma competentencia fruto de exigência pessoal e superação individual. E por isso tudo fui alvo da ira do clube dos medíocres e invejosos, que são maioria neste pais.
Mas em nome da minha realização pessoal e profissional, voltaria a fazer o que fiz, e a lutar por materializar aquilo em que sempre me senti realizado e onde fui excelente. "A Excelência não é um feito, e sim uma prática diária". Mas citando Einstein, há na excelência sobretudo muita transpiração e claro alguma inspiração e alguma genialidade. Sim, acreditem será sempre necessária muita transpiração, ao longo de muitos anos, trabalho intenso e muitas [ mas muitas ] horas de tentativas-erro, persistência e superação individual. A experiência madura e a excelência nao caiem do céu nem há nenhuma universidade ou "milagre" que a entregue.
Se esta crónica pessoal inspirar alguém no futuro, isso ja terá valido em te-la escrito.
Na fronteira entre código e a consciência.