Portugal : O país onde a insolvência tapa o rasto — e a justiça fica a olhar

- Imocochão: sociedade criada para construir mais de 400 habitações em Alverca, ligada ao antigo universo imobiliário de Luís Filipe Vieira, com activos no perímetro do Novo Banco.
- Estado do processo: empresa declarada insolvente; destino dos terrenos em Alverca surge como incerto.
- Contexto público: o nome de Vieira tem sido associado, em várias notícias ao longo dos anos, a investigações e suspeitas em matéria económico-financeira (o mérito e a prova cabem aos tribunais).
O país onde a insolvência tapa o rasto — e a justiça fica a olhar
A notícia é simples e, ao mesmo tempo, é um retrato inteiro: a Imocochão, empresa criada para erguer mais de 400 habitações em Alverca, ligada ao antigo universo imobiliário de Luís Filipe Vieira, foi declarada insolvente. E o destino dos terrenos ficou… suspenso num limbo, como se a terra também precisasse de advogado.
Agora reparem no padrão — não na pessoa. Porque aqui, mais importante do que o nome do protagonista, é o guião do país: activos que passam de mão em mão, bancos que ficam com "restos" de impérios, projectos urbanos que prometem futuro e acabam a prometer apenas processos. E, no meio, a vida real: a habitação que falta, a cidade que estagna, o cidadão que paga.
O truque do nevoeiro: "incerto", "em análise", "aguarda decisão"
"Incerto" é uma palavra bonita. É quase poética. Mas, em Portugal, "incerto" costuma ser apenas o nome civil do adiamento. Incerto é o destino dos terrenos, incerto é o calendário, incerto é quem responde. Certo é só uma coisa: o tempo passa e a factura, de alguma forma, encontra sempre o caminho até aos mesmos bolsos.
E quando há um contexto de suspeitas criminais ou investigações mediáticas, a pergunta que fica no ar não é "quem é culpado?" (isso compete aos tribunais), mas sim: porque é que o país parece estruturalmente incapaz de fechar o ciclo? Investiga-se, discute-se, comenta-se, e depois… a espuma seca.
O que revolta não é a notícia: é a normalidade
O que revolta não é haver insolvências — isso existe em qualquer economia. O que revolta é a normalidade moral com que se aceita que grandes redes de influência pareçam ter sempre uma saída de emergência: uma engenharia societária aqui, uma dívida acolá, um banco pelo meio, e um país inteiro a assistir como se isto fosse meteorologia: "hoje, possibilidade de impunidade; amanhã, aguaceiros de esquecimento".
A justiça deve ser rigorosa e provar o que afirma — e também deve ser rápida, transparente e perceptível para quem vive do salário e não do expediente. Porque quando a justiça tarda, não é neutra: ela educa. Educa o povo a desistir. Educa os espertos a persistir.
Três perguntas simples (e perigosas) que ninguém gosta de responder
1) Quem perdeu, concretamente, com este projecto falhado — e quanto?
2) Quem ganhou, directa ou indirectamente, enquanto a promessa ainda brilhava?
3) Que mecanismos existem para recuperar valor público quando "o universo" privado colapsa?
Num país saudável, estas perguntas geravam relatórios claros, responsabilidades e consequências. No nosso, geram "ruído", "polarização" e a clássica frase narcótica: "vamos aguardar".
Epílogo: um país não se rouba só com dinheiro — rouba-se com tempo
Há quem pilhe com malas; há quem pilhe com anos. Anos de processos que não andam, de decisões que não chegam, de verdades que nunca se fecham. E a pilhagem mais perfeita é essa: a que não deixa sangue na rua — deixa apenas cansaço nos cidadãos.
Não peço condenações fáceis. Peço o mínimo civilizacional: clareza, responsabilidade e consequência. Porque sem isso, a insolvência não é só um estado jurídico. É o estado da própria democracia.
Referências
- Expresso — "Empresa do antigo universo imobiliário de Luís Filipe Vieira declarada insolvente, destino de terrenos em Alverca é incerto" (12 Jan 2026): ler
- Nota: se juntares aqui mais fontes (CM, Observador, MP/Comunicados, decisões judiciais públicas), esta secção pode ficar "à prova de bala" — com datas, números e citações curtas.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas