BOX DE FACTOS
  • Marco histórico: 25 de Abril de 1974 → o país está a mais de meio século do Estado Novo.
  • Tese: o regime caiu; muitos mecanismos mentais e institucionais ficaram.
  • Forma moderna: menos botas, mais dependências (emprego, favores, redes, contratos, carreiras).
  • Sinais clínicos: medo de falar, culto da hierarquia, clientelismo, opacidade, punição informal do dissenso.
  • Efeito político: democracia formal com cidadania fraca e responsabilização rara.

Saímos do fascismo, mas o fascismo ainda não largou os portugueses

Um país pode libertar-se do regime e continuar preso ao instinto do regime: o instinto de obedecer, de calar, de pedir licença para existir, de confundir autoridade com verdade.

1) Precisão cirúrgica: o que ficou não foi a farda — foi o reflexo

A frase "o fascismo ainda não largou os portugueses" não precisa de metáforas para ser real. O que permaneceu não é a polícia política, nem a censura prévia, nem o partido único. O que permaneceu é um padrão de comportamento colectivo — e ele sobrevive em democracia com uma máscara moderna.

Chame-se-lhe "fascismo cultural", "autoritarismo residual", "mentalidade de súbdito" — o nome é secundário. O essencial é isto: demasiadas pessoas ainda vivem a vida pública como se a liberdade fosse um favor do sistema, e não um direito que se exerce.

2) O novo aparelho: não proíbe — condiciona

O Estado Novo proibia. O Estado moderno condiciona. Em vez do corte directo, usa a técnica do ambiente: quem fala perde capital social; quem denuncia perde oportunidades; quem questiona ganha rótulos; quem se alinha ganha caminho. Não é preciso bater — basta tornar a vida difícil, ou até mesmo insuportável.

Esta é a censura do século XXI: não é decreto, é ecossistema. Um ecossistema de dependências — contratos, carreiras, favores, concursos, nomeações, avenças, comissões, lugares. A regra invisível é simples: não incomodes a máquina.

3) A hierarquia como religião: o mérito ajoelha, a competência pede desculpa

Um dos traços mais persistentes é o culto hierárquico: a ideia de que o chefe "tem razão" por ser chefe. O resultado é uma cultura onde o mérito é tolerado se for discreto, e punido se for luminoso. A competência, em vez de ser motor, torna-se ameaça.

Isto aparece em toda a parte: no aparelho público, em empresas com ADN estatal, em organizações onde a promoção não depende do que se constrói, mas do que se não perturba. E quando a sociedade interioriza isto, a democracia empobrece: deixa de premiar cidadãos e começa a premiar vassalos.

4) O clientelismo não é "corrupção pequena" — é arquitectura de poder

Em Portugal, o clientelismo não é apenas um desvio moral; é um método de governação informal. Ele substitui regras por relações, transparência por telefonemas, igualdade por acesso. E faz uma coisa politicamente devastadora: transforma o cidadão em requerente.

O cidadão deixa de exigir direitos; passa a pedir favores. E quem pede favores raramente faz revoluções cívicas — faz silêncio e agradece. O sistema adora esta humildade forçada: é a submissão travestida de "bom senso".

5) Justiça lenta, responsabilidade rara: a impunidade como pedagogia

A democracia vive de uma coisa simples: consequência. Quando a consequência falha — quando processos se arrastam, quando o poder se dissolve em labirintos, quando a responsabilização é selectiva — a sociedade aprende a pior lição possível: "compensa ser forte; o fraco é que paga."

E é aqui que o "fascismo que ficou" se torna estrutural: não precisa de polícia política. Basta-lhe um país onde a regra é negociável e a consequência é incerta.

Conclusão: a libertação que falta chama-se cidadania adulta

A "democracia" portuguesa não está condenada — mas está, demasiadas vezes, infantilizada. Um povo habituado a pedir licença tem dificuldade em exigir standards. Um Estado habituado a não responder tem dificuldade em servir.

Se há uma cirurgia possível, ela não é estética. É institucional e cultural: transparência (rasto), responsabilização (consequência), educação cívica (exigência), e uma ética pública onde a competência não seja insolência.

Os portugueses saíram do fascismo quando o regime caiu. Mas só sairão definitivamente quando deixarem de viver — por dentro — como se o regime ainda estivesse à porta.

Um país em que até os governantes, num qualquer dia de epifania moral, afirmaram publicamente, e desde há décadas, que "em Portugal existe uma Justiça para ricos e poderosos e outra para o povo em geral", garanto que não vive em uma democracia. Antes, um país que se livrou do Salazarismo secular, para viver numa sua assombração de muitos pequenos ditadores, que no dia a dia, fazem da vida de milhões de portugueses, um autêntico inferno!

PORTUGAL e os portugueses merecem bem melhor do que estes 51 anos de uma democracia amputada e empobrecida sistematicamente.

REFERÊNCIAS (leituras para sustentar a tese)
  • Hannah Arendt — sobre burocracia, banalidade e obediência.
  • Juan Linz — tipologias do autoritarismo e fragilidades institucionais.
  • Levitsky & Ziblatt — erosão democrática por vias legais e culturais.
  • Constituição da República Portuguesa — direitos, garantias e arquitectura do Estado de direito.
Francisco Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas — a insistir que liberdade sem consequência é só retórica. E que democracia sem sistema de justiça como dignidade e etica, é pura demagogia barata.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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