BOX DE FACTOS
  • Sem transferências sociais, a pobreza em Portugal dispararia para valores chocantes (ex.: 40,4% na citação difundida).
  • As transferências aliviam, mas não resolvem: funcionam muitas vezes como anestesia num corpo social ferido.
  • Quando a política se limita a gerir consequências, a raiz do problema fica intacta: salários, habitação, justiça, rendas e impunidade.
  • Um país pode sobreviver anos assim. A questão é: vive?

Portugal, o País dos Sobreviventes

"Isto não é um país de cidadãos em plenitude: é um território de gente a aguentar-se, dia após dia, como quem aprende a respirar em fumo."

E isto é o que custa aceitar sem ranger os dentes: há lugares onde a pobreza é combatida, e há lugares onde a pobreza é administrada. Em Portugal, demasiadas vezes, escolheu-se o segundo caminho. Não por incapacidade técnica, mas por conveniência política: é mais fácil distribuir remendos do que mexer no tecido apodrecido das rendas, das influências e dos privilégios.

A cleptocracia moderna não precisa de roubar à vista

A cleptocracia evoluiu. Já não precisa de assalto à mão armada; basta-lhe um país habituado ao "vai andando". Um sistema que se alimenta de pequenas desistências diárias: o salário curto, a casa impossível, o serviço público em exaustão, a justiça que tarda até virar mobília, a burocracia como arame farpado a separar o cidadão do seu próprio direito.

Depois vem a grande magia: anunciam apoios com uma mão e, com a outra, preservam tudo o que mantém o povo encostado à parede. O truque é simples e genial na sua crueldade: aliviar o suficiente para evitar revolta, sem nunca curar o bastante para permitir liberdade.

Quando a pobreza serve de cortina e de argumento

Se sem transferências sociais a pobreza se tornaria uma maré de quase metade do país, então a conversa nacional não pode fingir que o problema é "falta de esforço". O problema é estrutural: um modelo que tolera salários baixos como normalidade, que deixa a habitação ser devorada por especulação e escassez, que transforma a precariedade em método e a emigração em válvula de escape.

E quando alguém aponta isto, chamam-lhe radical, ingrato, perturbador da ordem. Mas que ordem é essa? A ordem de quem está bem instalado, protegido por redes, favores, contratos e impunidade. Uma ordem que se alimenta da calma do povo, como se a resignação fosse virtude e não cansaço.

O país dos sobreviventes

O português médio foi treinado para sobreviver: trabalhar muito, reclamar pouco, desconfiar do vizinho, não exigir demais, "não fazer ondas". Mas um povo que apenas sobrevive perde, aos poucos, a capacidade de sonhar. E sem sonho não há futuro: há apenas calendário.

A cleptocracia rouba mais do que dinheiro. Rouba tempo, rouba energia, rouba horizonte. Rouba a juventude que parte e a velhice que fica a contar moedas. Rouba a dignidade, empurrando o cidadão para uma vida em modo "mínimo", como um telemóvel sempre em poupança de energia.

Epílogo: a pobreza não é destino, é arquitectura

Um país pode aguentar-se anos e décadas assim. Mas cada ano de "gestão do sofrimento" é um ano de futuro confiscado. E a pergunta que fica, nua e sem cerimónia, é esta: queremos continuar a ser um país que evita o colapso ou um país que constrói liberdade?

Porque quando o poder se habitua a gerir a miséria, a miséria torna-se parte do regime. E nesse dia, o mais perigoso não é a pobreza em si: é o momento em que o povo deixa de a achar intolerável.

Francisco Gonçalves
Crónica para Fragmentos do Caos — com a lucidez como lâmina e a dignidade como norte.
Co-autoria conceptual: Augustus Veritas

Referências

  • Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) — "Portugal Desigual" (materiais e citações sobre pobreza e transferências sociais). ffms.pt
  • INE — Indicadores sociais e estatísticas de rendimento e condições de vida. ine.pt
  • Eurostat — Poverty and social exclusion (AROP) e indicadores de desigualdade. ec.europa.eu/eurostat
  • OECD — Relatórios e dados sobre desigualdade, rendimentos e mobilidade social. oecd.org
  • PORDATA — Séries estatísticas sobre pobreza, desigualdade e Estado Social em Portugal. pordata.pt
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