BOX DE FACTOS
  • Em Portugal, o Estado é simultaneamente grande regulador, grande comprador e grande distribuidor de incentivos — tornando-se o centro de gravidade económico.
  • Muito do "empresariado" vive de rendas, concessões, contratação pública e protecção regulatória, mais do que de risco e inovação.
  • A fuga de capitais para jurisdições opacas é um sintoma de baixa confiança, baixa previsibilidade e cultura de impunidade percebida.
  • Sem investimento produtivo e competição real, a produtividade estagna — e os salários também.
  • O povo paga a factura em impostos altos, serviços frágeis e empobrecimento contínuo.

O País dos Filhos do Estado: Capitalismo de Mesada e Coragem de PowerPoint

Portugal não tem falta de "empresários". Tem excesso de filhos crescidos. E um pai-Estado cansado, endividado, mas ainda assim obrigado a pagar a mesada a quem jura que "cria riqueza".

Há países onde o Estado é árbitro. Em Portugal, o Estado é árbitro, jogador, treinador, patrocinador e, quando a coisa corre mal, ainda aparece como psicólogo: "não desanimes, meu filho, aqui vai mais um apoio, uma linha, um perdão, uma renegociação." Depois admiram-se que a economia cresça como bonsai: bonita para fotografia, triste para viver.

O nosso "capitalismo" tem uma particularidade deliciosa: é o único do mundo em que muitos empresários só acreditam no mercado quando o mercado se chama Orçamento de Estado. Fora disso, ficam nervosos, como se o risco fosse um vírus exótico que entra pela janela e estraga a porcelana.

Empreendedorismo à portuguesa: o GPS aponta sempre para Lisboa

O empreendedor, no sentido clássico, é aquele que vê um problema e o resolve com produto, serviço, inovação, escala. O empresário rentista vê um problema e resolve-o com um telefonema. E quando o telefonema falha, resolve-o com um almoço. E quando o almoço falha, resolve-o com um "parceiro estratégico" que, por coincidência, conhece a porta certa.

Assim, não se constrói uma economia. Constrói-se um ecossistema de gravitação: empresas a girar em torno do Estado como satélites de baixa altitude, à espera do próximo concurso, da próxima licença, do próximo incentivo, do próximo perdão. E isto tem uma consequência directa: o talento deixa de ir para a invenção; vai para a intermediação.

A coragem de PowerPoint: a bravura que não sai da sala de reuniões

Portugal é um país onde se escreve "estratégia" com letra grande e se executa "rotina" com letra pequena. A bravura aparece nos slides: "Transformação", "Disrupção", "Inovação", "Internacionalização". E depois, na prática, internacionaliza-se o quê? Muitas vezes, internacionaliza-se a sede fiscal.

Temos empresários que confundem risco com imprudência, e prudência com imobilismo. Preferem margens protegidas, monopólios discretos, cadeias de subcontratação e "modelos de negócio" que dependem de um carimbo. O carimbo é o verdadeiro unicórnio português: raro, mágico, e muito bem alimentado.

A fuga de capitais: a água que escapa pelas fissuras do país

Depois há o grande truque: enquanto se pede "estabilidade", "apoios" e "proteção", há capital que foge. Não foge por desporto. Foge porque a confiança é baixa, a previsibilidade é frágil, e a justiça é lenta — e porque, sejamos honestos, existe uma cultura instalada de "eu pago, mas não sou parvo".

O povo, esse, não pode fugir. O povo tem morada fixa: chama-se IRS, IVA e contribuições. O povo paga o Estado, paga a dívida, paga os resgates, paga as ineficiências, e ainda recebe lições de "responsabilidade" de quem viveu décadas a socializar prejuízos e privatizar ganhos.

O resultado: pobreza estrutural com verniz europeu

Uma economia sem risco produtivo é uma economia sem futuro. E uma economia sem futuro fabrica o seu produto mais abundante : resignação. A produtividade estagna, os salários ficam no chão, os jovens emigram, e o país celebra cada "investimento" como se fosse chuva num deserto — mesmo quando é apenas um projecto desenhado para capturar incentivos.

O mais trágico é que, no meio deste teatro, Portugal ainda se convence de que o problema é o povo que "não trabalha". O povo trabalha. Trabalha muito. O que falta é um sistema que transforme trabalho em valor, e valor em salários. Em vez disso, temos um sistema que transforma trabalho em impostos e impostos em rendas.

Epílogo: o dia em que o pai-Estado disser "acabou a mesada"

A pergunta que aterroriza o nosso capitalismo de salão é simples: E se o Estado deixar de ser o pai?

Nesse dia, descobriremos quem é empresário e quem é órfão. Quem sabe vender ao mundo e quem apenas sabe vender ao despacho. Quem cria produto e quem cria papel. Quem suporta risco e quem vive de garantias.

Não precisamos de destruir o Estado. Precisamos de o devolver ao seu lugar: árbitro, regulador, garante de justiça e regras claras. E precisamos de construir o que quase nunca foi prioridade: um capitalismo de concorrência real, de inovação, de exportação, de produtividade — onde o lucro não nasce do corredor, mas do mercado.

Até lá, continuaremos a ser o país dos filhos crescidos a pedir mesada, a jurar que é "investimento", e a chamar "mérito" ao privilégio de ter acesso à porta certa.

Assinado: Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus (Fragmentos do Caos News Team)
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