BOX DE FACTOS
  • Portugal anuncia como quem governa — e governa como quem faz publicidade de feira.
  • Investimento sério pede previsibilidade: leis estáveis, burocracia baixa e justiça credível.
  • O problema não é falta de talento: é excesso de labirintos.
  • Exemplos úteis: países com Estado eficiente, transparência e execução (nórdicos, Singapura, Estónia, etc.).

Portugal, o País do Anúncio Eterno

Há países que constroem fábricas, infraestruturas e futuro. Nós, por vezes, construímos… palcos. E depois inauguramo-los com uma fita que devia ser reciclada: dá para mil cortes.

Em Portugal, um projecto nasce de manhã, ganha logótipo ao almoço e, ao jantar, já tem cerimónia. E não é uma cerimónia qualquer: é uma ópera de Estado com discursos, promessas e aquela música invisível que toca sempre que alguém diz "transformação" sem transformar coisa nenhuma.

O país do anúncio é um país onde a execução é uma espécie rara: vive em reserva natural, foge de barulho, e só aparece quando ninguém está a filmar. Por cá, o ministério fala em "reformas" como quem fala em meteorologia: há sempre previsão, mas nunca chove a sério.

A fita corta-se. O nó fica.

Temos um talento quase artístico para o teatro do progresso: comunica-se, anuncia-se, "lança-se", "apresenta-se", "inaugura-se", "cortam-se fitas". E depois… volta-se ao essencial: o cidadão, a empresa, o investidor, todos a passear no mesmo parque temático — o da burocracia criativa.

A burocracia portuguesa não é um problema: é uma indústria cultural. Tem tradições, dialectos e rituais próprios. Cada balcão é uma escola filosófica. A lei é uma partitura, mas cada repartição toca numa tonalidade diferente. O resultado? Um concerto de ruído onde a economia tenta, heroicamente, cantar.

O investidor não compra slogans. Compra confiança.

O investimento sério é uma criatura desconfiada. Não se deixa seduzir por "roadshows" com canapés. Ele chega, abre o dossier e faz três perguntas simples: Quanto tempo demora? Quanto muda a regra? Quem decide — e em quanto tempo?

Se as respostas cheiram a instabilidade, a interpretações variáveis e a justiça que chega quando já não há empresa, o capital faz o que qualquer ser vivo faz perante perigo: foge. Não por falta de amor a Portugal, mas por excesso de instinto de sobrevivência.

O que os países eficazes perceberam (e nós fingimos não ouvir)

Os nórdicos não são "ricos" porque sorriem em fotografias com casacos bonitos. São ricos porque têm instituições sólidas, níveis elevados de integridade pública e uma cultura de previsibilidade que permite às empresas planearem sem jogar roleta com o Diário da República. Não é magia — é método.

Singapura, com a frieza de um engenheiro, montou um Estado que funciona como relógio: rápido, previsível, orientado a resultados, e com uma máquina de atracção de investimento que é, literalmente, política pública. Não há romantismo: há execução. E isso, para o capital produtivo, é poesia.

E depois há os "pequenos gigantes" digitais, como a Estónia, que provaram uma ideia simples: se o Estado digitaliza com inteligência, a economia respira. Menos papel, menos carimbos, menos "volte cá amanhã". Mais tempo para criar valor.

Portugal não precisa de mais anúncios. Precisa de menos ruído.

Se quisermos um país atractivo para investimento estrangeiro e capaz de gerar riqueza com capital português, há um pacote mínimo — não ideológico, apenas civilizacional:

  • Burocracia reduzida a prazos claros, digitais e verificáveis.
  • Leis transparentes, estáveis e escritas para pessoas, não para labirintos.
  • Justiça credível e eficaz: rápida o suficiente para ainda existir a realidade que julga.
  • Estado com métricas e responsabilização: prometer menos, entregar mais.

O resto — a inovação, as empresas, a criação de riqueza — vem por acréscimo. Não há ecossistema que floresça em terreno encharcado de atraso.

Epílogo: a reforma que não dá fotografia

A grande tragédia das reformas do Estado é esta: não rendem boa fotografia. Não há fita para cortar (aliás uma reminiscência do Estado Novo corta-fitas), quando se simplifica um licenciamento. Não há aplausos quando se estabiliza uma lei fiscal por uma década. Não há "momento viral" quando um tribunal decide em meses e não em anos.

Mas é exactamente aí que um país muda de destino: quando troca a pompa pela competência, o cartaz pela obra, o anúncio pela execução.

Francisco Gonçalves
Crónica crítica • Fragmentos do Caos
Co-autoria editorial por Augustus Veritas - Assistente de IA.

Referências (exemplos de países e indicadores de sucesso institucional)

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