BOX DE FACTOS

  • O poder real nem sempre coincide com o cargo oficial.
  • Em estruturas financeiras complexas, a influência informal supera frequentemente a hierarquia formal.
  • A mediocridade torna-se perigosa quando se alia ao medo e à opacidade.
  • Ditaduras modernas raramente usam fardas — preferem fatos cinzentos.

O Ditador Medíocre dos Bastidores

Não era o rei — era o porteiro do trono.
Não decidia oficialmente — mas nada avançava sem a sua bênção.
E como todos os pequenos tiranos, confundia poder emprestado com grandeza própria.

Há homens que não aparecem nos relatórios anuais, não figuram nos comunicados à imprensa, não dão entrevistas nem deixam fotografia institucional. Mas quando entram numa sala, o ar muda. As conversas baixam de tom. As decisões já não são debatidas — são obedecidas.

Chamam-lhes gestores. Às vezes consultores. Outras vezes "elementos de ligação". Na verdade, são apenas intermediários do medo.

O emissário do corredor

Não vinha com ideias — vinha com ordens vagas. Nunca explicava porquê. Limitava-se ao argumento supremo:

"É assim que tem de ser."

Quando alguém perguntava "porquê?", surgia o sorriso fino e a afirmação "Pagam-lhe para obedecer, não para ter ideias". Quando alguém discordava, vinha o silêncio. Quando alguém insistia, desaparecia do projecto seguinte.

O ditador medíocre não grita. Não bate na mesa. Não precisa. Domina a arte superior da burocracia: bloquear sem deixar rasto.

A incompetência autoritária

Nunca percebia o assunto técnico. Nunca dominava os números. Mas tinha certezas absolutas.

Mandava refazer trabalhos correctos. Alterava critérios depois das decisões. Impunha caminhos mais caros, mais lentos e piores — porque não eram os melhores, eram os dele.

O erro não era falhar. O erro era não obedecer.

Assim se constrói a mediocridade institucional: não por falta de talento, mas pela expulsão sistemática de quem pensa.

O poder que não aparece

Nos organogramas, o nome era pequeno. Na prática, era imenso.

Falava "em nome de". Reunia "a pedido de". Transmitia "orientações superiores". Nunca se sabia quem decidia — apenas quem executava.

E esse é o segredo mais antigo do poder: quando ninguém assume, ninguém responde.

O retrato do sistema

Não é um homem. Nunca foi. É um modelo. Repete-se em bancos, empresas públicas, institutos, fundações. Muda o rosto, mantém o método.

Sobrevive porque:

  • não deixa provas;
  • não assina decisões;
  • controla acessos;
  • e prospera no nevoeiro.

Quando o sistema cai — como caiu — ninguém se lembra dele. Mas quem lá trabalhou lembra-se bem.

O país dos corredores

Portugal não é governado apenas em parlamentos. É governado em corredores. Corredores onde não entra a democracia, onde não chega a transparência, onde o mérito espera à porta.

Enquanto esses corredores existirem, os ditadores medíocres continuarão a mandar — sem nunca serem eleitos, sem nunca responderem, sem nunca aparecerem.

Porque o verdadeiro problema nunca foi o segredo.
Foi sempre permitir que o segredo governasse.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade
Nota de co-autoria: Augustus Veritas
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