Portugal no País do Silêncio: Quando a Mediocridade Vira Regime

BOX DE FACTOS
- Em Portugal, a crítica tem sido tratada como ofensa e a divergência como ameaça.
- O humor — esse teste de robustez moral — é recebido, muitas vezes, como insolência.
- A selecção de lideranças tende a premiar o "menos incómodo", não o mais competente.
- Quando a mediocridade se organiza, começa a parecer "normalidade".
- Este texto é uma crónica lírica e mordaz sobre um país que fala baixo para não ouvir a própria verdade.
Portugal no País do Silêncio: Quando a Mediocridade Vira Regime
Há países que temem inimigos externos. Portugal, hoje, teme a coisa mais perigosa de todas:
um cidadão que pensa, ri e diz "não".
I. A educação do medo em pequenos goles
Em Portugal, não se proíbe oficialmente o pensamento — seria deselegante, coisa de regimes que usam botas. Aqui prefere-se algo mais requintado: a pedagogia do constrangimento. Não te batem: olham-te. Não te prendem: rotulam-te. Não te calam: fazem-te parecer ridículo. É assim que se constrói um país "civilizado": com vozes a pedir licença antes de falar, com gargalhadas a serem medidas ao milímetro, com humor a precisar de certificado de conformidade. O resultado é um povo que aprende a falar baixo… até começar a pensar baixo.II. Quando o humor vira crime de lesa-seriedade
Uma sociedade que não tolera humor é uma sociedade em risco. O humor é termómetro: mede a temperatura do ego, a elasticidade do carácter, a capacidade de um povo se olhar ao espelho sem partir o vidro. Mas por cá, o humor é recebido como sabotagem. Rir do poder é "falta de respeito". E quem define o respeito? O poder. Eis a fórmula perfeita: o governante exige reverência e chama-lhe "civismo". O cidadão paga e chama-lhe "vida".III. A crítica como ofensa: a arte de inverter a culpa
A crítica, em tempos saudáveis, é manutenção preventiva. Em tempos sombrios, é tratada como vandalismo. O mecanismo é simples e genial — no sentido mais venenoso da palavra: transformar o mensageiro no culpado. Se apontas corrupção, és "negativo". Se denuncias incompetência, és "desestabilizador". Se pedes transparência, és "radical". Se exiges resultados, és "exigente demais" — como se a exigência fosse um luxo e não um dever.IV. A selecção dos piores: mérito ao contrário
Diz-se, com uma seriedade quase cómica, que vivemos em democracia. E vivemos, sim. O problema é que a democracia não garante qualidade — garante apenas método. Se o método for colonizado por máquinas partidárias, listas fechadas, lealdades cegas, e carreiras feitas de corredor em corredor, década após década, acaba-se com um fenómeno raro: os governantes eleitos entre os piores dos piores. Não porque o povo queira o pior, mas porque o sistema filtra e exclui os melhores. O melhor incomoda: questiona, desmonta, mede consequências, exige rigor. O pior é confortável: sorri, repete slogans, distribui culpas, promete "diálogo" enquanto não decide nada. E assim, lentamente, a mediocridade deixa de ser falha humana e passa a ser política pública. Uma espécie de pacto nacional não escrito: "não brilhes muito, que dá trabalho aos outros".V. A mediocridade que tende para a maldade suprema
Há uma fase em que a mediocridade já não é apenas incapacidade: é defesa activa. Quando sente ameaça, a mediocridade torna-se agressiva. Não discute ideias — combate pessoas. Não analisa argumentos — fabrica intenções. Não procura verdade — procura submissão. E é aqui que ela tende para aquilo a que eu chamo de - maldade suprema : a maldade que não se reconhece como tal, porque se apresenta com gravata, comunicados e "boas práticas". A maldade que sorri enquanto corta. A maldade que chama "responsabilidade" à injustiça.VI. A liturgia da sobrevivência e o povo como figurante
O povo, esse, é sempre convocado como argumento e nunca como autor. "Em nome das famílias", dizem. "Em nome do crescimento", repetem. E no fim, as famílias continuam a contar moedas e o crescimento continua a ser um powerpoint. Quando um cidadão falha uma prestação, é "incumpridor". Quando uma grande estrutura falha, é "reestruturação". Quando um trabalhador cai, é "adaptação". Quando um gestor cai… raramente cai. No máximo, muda de cadeira e chama-lhe "novo desafio".VII. Um país que se salva pela desobediência lúcida
Apesar de tudo, há um segredo que nenhum regime de mediocridade consegue apagar: a realidade é teimosa. E as ideias — quando são verdadeiras — voltam sempre, como água que procura fendas. A esperança não é o optimismo ingénuo. A esperança é isto: desobediência lúcida. Escrever quando querem silêncio. Rir quando exigem reverência. Perguntar quando pedem fé. Construir quando pedem resignação. Porque há um ponto em que um país não pode continuar a fingir. E nesse ponto, a luz — mesmo pequena — começa a ferir a escuridão. E quando a escuridão dói, é sinal de que já não manda sozinha.Epílogo: a coragem de ser incómodo
Se estes são tempos sombrios, então sejamos lanternas. Não lanternas dóceis, decorativas, vendidas em loja de souvenirs. Lanternas de oficina: sujas de verdade, feitas para durar. O país surreal não se cura com mais surrealismo. Cura-se com rigor, coragem e memória. E com um acto simples, quase revolucionário: não pedir desculpa por pensar.Francisco Gonçalves
Com Augustus Veritas — co-autoria e laboratório de lucidez