Portugal: Manual de Fuga da Mediocridade (com destino à Excelência)

- Problema: Mediocridade normalizada, baixa exigência, carreirismo e desresponsabilização.
- Consequência: País lento, salários curtos, talento a emigrar, serviços a arrastar.
- Caminho: Cultura de trabalho árduo, estudo aturado, competência e mérito real.
- Chave: Instituições que premiem desempenho e punam a irresponsabilidade.
- Objectivo: Uma sociedade adulta: exigente consigo, justa com os outros.
Portugal: Manual de Fuga da Mediocridade (com destino à Excelência)
1. A mediocridade como sistema — não como acidente
A mediocridade portuguesa não é apenas falha de carácter individual. É um ecossistema. Um conjunto de hábitos, desculpas e rituais que se auto-protegem: a conversa do "não vale a pena", a alergia à responsabilidade, a adoração do "desenrascanço" como se fosse ciência exacta. E, acima de tudo, a crença de que o mérito é uma arrogância e a competência uma provocação.
Criámos, sem o assumir, uma cultura onde a fasquia é vista como ofensa. Quem a levanta, arranja inimigos; quem a baixa, arranja aplausos. E assim o país vai andando: não cai, mas também não sobe. Flutua. Como rolha.
2. O antídoto é simples, mas dói
A saída da mediocridade não é um milagre nem um "plano estratégico" com 300 páginas e 12 fotografias de inaugurações. É uma coisa antiga e quase ofensiva de tão simples: trabalho árduo, estudo aturado, competência profissional, empenho.
Dói porque exige tempo, disciplina e humildade. Dói porque desmonta a fantasia de que basta "ter jeito" ou "conhecer alguém". Dói porque obriga a dizer: eu não sei, vou aprender. E isto, entre nós, é quase um acto revolucionário.
3. A dignidade do trabalho bem feito
Um país que respeita o trabalho não é aquele que "trabalha muito" por decreto. É aquele que valoriza o trabalho bem feito. Onde a palavra "profissional" não significa apenas "tem emprego", mas sim: cumpre, estuda, melhora, mede, corrige, volta a fazer, entrega.
A excelência começa em pequenas coisas: a pontualidade, o rigor, o cuidado, a leitura, o treino, a repetição. A excelência não nasce do orgulho — nasce do método. E o método é uma forma de respeito: por nós, pelos outros, e pelo tempo de todos.
4. Estudar: não para decorar, mas para pensar
Portugal tem uma estranha relação com o estudo: ora o idolatra como diploma, ora o despreza como "mania". Mas estudar não é coleccionar certificados. Estudar é afiar a mente como quem afia uma lâmina: para cortar a ignorância, a mentira, o improviso, a incompetência mascarada de simpatia.
O estudo aturado é, no fundo, uma forma de liberdade: quem sabe, não é facilmente enganado. Quem compreende, não se ajoelha a slogans. Quem domina uma arte, seja ela qual for, carrega consigo uma pequena república interior: autónoma, séria, difícil de capturar.
5. Instituições adultas: mérito, avaliação, responsabilidade
A cultura da excelência não se faz apenas com discursos. Faz-se com regras. Com avaliação real (não teatral), com prémio ao desempenho e com consequências para o incumprimento. Faz-se com concursos transparentes, com progressão por competência e não por antiguidade ritual. Faz-se com liderança que protege os bons e limita os inúteis.
Um país que não mede, não melhora. Um país que não responsabiliza, apodrece. E aqui está um dos nossos vícios antigos: a irresponsabilidade crónica, essa arte de falhar sem custo, de errar sem vergonha, de prometer sem memória.
6. A revolução silenciosa: exigir sem odiar
A exigência não é crueldade. A exigência é amor com coluna vertebral. Exigir é dizer: nós podemos melhor. E podemos mesmo. Mas há uma diferença entre exigir e humilhar, entre criticar e destruir. A excelência precisa de firmeza; a democracia, de decência.
A mudança começa quando cada um de nós recusa ser cúmplice do "mais ou menos". Quando alguém diz: "isto não está bem" — e faz melhor. Quando alguém estuda mais uma hora em vez de culpar o destino. Quando alguém aprende a sua profissão como quem aprende um instrumento: com paciência e obsessão ( saudável ).
Epílogo: Portugal não é pequeno — é adiado
Dizem-nos que Portugal é pequeno. Não é. Pequeno é o hábito de nos contentarmos com pouco. Pequena é a ambição pública. Pequena é a tolerância à incompetência. Pequena é a coragem de dizer "basta" sem esperar que alguém nos autorize.
A excelência não é uma medalha: é uma cultura. E uma cultura constrói-se — lentamente — com trabalho árduo, estudo aturado, competência profissional e empenho. Não é romântico. É essencial.
Um país não muda quando "os de cima" decidem. Muda quando "os de baixo" deixam de aceitar a mediocridade como destino. E nesse dia, Portugal não será um milagre: será apenas uma nação adulta.
(A excelência não pede licença. Trabalha.)